Sempre quis fazer uma viagem de última hora ao exterior, dessas decididas às pressas, sem planejamento. Uma espécie de excentricidade, um exagero. Um final de semana prolongado em New York, por exemplo, ou Paris; ou, mais ainda, Cidade do Cabo, na África do Sul. Buenos Aires não valeria porque é muito perto para ser considerado uma extravagância.
Era uma espécie de conseqüência natural para quem escolheu ter empresa própria – com os benefícios e dificuldades embutidos nessa escolha. Poder parar tudo momentaneamente e ir para onde bem entender seria a suprema prova de liberdade – e todo empreendedor, acredito, tem na busca de liberdades como essa uma das razões para começar e desenvolver o seu negócio.
Minha maior “fantasia” desse tipo sempre foi com o esqui. Certa vez, me peguei numa quinta-feira de julho estudando qual seria a estação mais próxima a Piracicaba, onde moro. Concluí que, saindo de Guarulhos, em no máximo 5 horas estaria em La Parva ou Colorado, perto de Santiago. Ou seja, em menos de 9 horas estaria esquiando, saindo de Piracicaba e chegando 2 horas antes da partida. Dependendo do horário do vôo, com sorte ainda desceria alguma pista no mesmo dia: seria a liberdade em seu estado puro!
Porque não acordar numa sexta-feira igual a todas as outras e, em vez de ir ao escritório, ligar para o agente de viagens, colocar as roupas na mala e ir direto para o aeroporto, passando um final de semana a 3.000 metros de altitude – e tudo isso como quem decide ir até a esquina tomar um café na padaria? Não sei se é o cúmulo da liberdade, mas é próximo disso.
Essa fantasia nunca se realizou; sempre há algum compromisso, uma certa inércia e, claro, a questão financeira que assume quando a racionalidade vem à tona e você constata que viajar assim, de última hora, costuma sair caro: a liberdade, afinal, tem seu preço.
Dessa vez, porém, foi diferente. Uma série de circunstâncias me fez analisar a possibilidade de passar esse Carnaval em algum lugar do mundo, entre elas o fato de constatar que, na realidade, tenho essa flexibilidade nesse momento da vida. Porque não aproveitá-la? Esse pensamento subversivo tomou minha imaginação na segunda-feira cedo. E se eu mudasse os planos (que envolvem fazer a mesma coisa de sempre, nos mesmos lugares de sempre) e resolvesse ir o mais longe que desse nesse Carnaval, desde que justificando a viagem? (ir para o Himalaia, por exemplo, foi desconsiderado por não atender esse requisito básico – um mínimo de custo/benefício e racionalidade ainda seriam considerados….).
Percebendo que a ideia ganhava força e que poderia se concretizar, o passo seguinte foi responder à pergunta: para onde eu vou? Logo estava com o Google Maps aberto, olhando o globo terrestre, à procura de algum canto que parecesse atrativo, isso menos de uma semana antes da data prevista para a viagem.
Sei lá porque cargas d’água, mas minha primeira escolha foi Cartagena, na Colômbia. Não sei se tem a ver com o fato de ser uma cidade histórica, ou se pelo fato de estar no Caribe; também, não conheço a Colômbia e, esqueci de dizer, um segundo critério além da localização minimamente acessível seria que fosse um país ou região que não conhecesse.
Nesse ponto, o sonho começou a desandar. Meu agente de viagens foi o culpado, após consultar as opções: “ficou louco? Você quer ir para Cartagena às vésperas do Carnaval, e espera encontrar passagem? Sem chance.”
Abandonada a primeira escolha, meio contrariado com o fato do mundo não estar colaborando com minha revolução particular, voltei ao Google Maps. A Ilha de Páscoa, no meio do Pacífico, parecia um destino atrativo. Dessa vez procurei eu mesmo e achei passagens: por módicos US$ 3.900, demorando mais de um dia para chegar e outro para voltar, eu poderia passar meu Carnaval improvisado no meio do Pacífico, onde uma civilização misteriosa floresceu e colapsou, deixando esculturas gigantes. Achei um pouco demais mesmo para quem estava prestes a cometer uma extravagância dessa natureza. Os moais teriam que esperar um pouco mais para me conhecer.
A próxima tentativa foi ainda mais radical: Ilhas Canárias, na costa do Marrocos. Reúne conforto, isolamento, história, mar, vulcões e beleza natural. Estava definido – é para lá que eu vou!
Novo balde de água fria. O preço agora seria de US$ 4.400, levando mais de um dia para chegar, com duas conexões, etc, etc. Mas como? Fica a apenas 3 horas de Madri. Porque esse preço? Não tem via Lisboa, ou ao menos pela África?, reclamei com meu agente de viagens, que a essa altura provavelmente queria me despachar para Miami e se dedicar a clientes menos complicados. Não tinha, disse ele, me explicando de novo: “não é um local exatamente muito fácil de se chegar…assim, de última hora, nessa época…”
Uma ponta de frustração foi tomando conta. Agora que eu podia e queria, não tinha como. Onde está o mundo globalizado, em que tudo está acessível a qualquer momento, hiper-conectado? Cadê o Mundo Plano, do Friedman? Como alguém que se dispõe a ir para qualquer lugar (ou quase isso) não consegue achar uma opção aceitável, a não ser demorando quase como se fosse de jangada, e pagando os olhos da cara? Em que mundo estamos, em que ano estamos?
Comecei a pensar que talvez me enfurnar em algum lugar da Serra da Canastra poderia ser uma alternativa. Bem, não deixaria de ser uma viagem de última hora e, além de tudo, gastaria bem menos, por mais caro que esteja tudo aqui no Brasil.
Mas para quem se imaginou na Lanzarote de Saramago, a Serra da Canastra soaria como uma grande derrota. Voltei ao Google Maps já meio desacorçoado, quando meu agente de viagens me ligou com boas novas: havia uma passagem para Cartagena, saindo no domingo. Mais cara do que a passagem normal, mas dentro daquilo que pode ser considerado aceitável para uma insubordinação dessa natureza contra o sistema, ponderei.
Fiz a reserva na segunda à noite. Teria até o meio dia da terça para confirmar. O desafio agora seria encontrar um hotel que coubesse no figurino. Partindo do famoso “já que”, tinha que ser um hotel descolado, no centro velho da cidade, perto de onde as coisas acontecem. Nada de grandes hotéis de rede, muito menos na Cartagena moderna.
Usando o Google, caí no site Se7e Malas, que tem dicas legais sobre vários lugares, inclusive Cartagena. Comecei a entrar em contato com os hotéis indicados e, mais uma vez, frustração: todos lotados! Se conseguisse ir, pelo menos não seria o único a ir para Cartagena, pensei…
Mais uma vez o Expedia me salvou. Achei um hotel boutique no centro histórico que parecia adequado. Avaliação no geral positiva no Trip Advisor e….um quarto ainda disponível, indicando que havia quatro pessoas visualizando aquele bendito quarto restante naquele momento. Embora isso me pareça muito mais um golpe baixo para forçar a venda do que efetivamente uma forte demanda para aquele quarto, vai saber: o fato é que funcionou. Na dúvida e com o risco real de bater na trave após driblar todos os adversários, tratei logo de fazer a reserva, sem dar chance de pensar muito para não correr o risco de mudar de ideia.
Na terça-feira, 2 da tarde, minha viagem estava programada. Pouco mais de 24 horas depois do delírio inicial. E não é que, de certa forma, a fantasia se tornava realidade?
Pocuo depois, caiu a ficha. O que eu vou fazer em Cartagena? Porque estou indo para Cartagena? Agora pouco importa. Na pior das hipóteses, já serviu para escrever esse texto. Na semana que vem, despacharei da costa caribenha, da cidade retratada por Gabriel Garcia Marquez. Sim, despacharei, porque vou dar uma trabalhada de lá. Aliás, uma liberdade quase tão grande quanto poder ir e vir quando quiser é poder trabalhar quando quiser, até durante férias em Cartagena. Sem problema algum. Como disse o Nizan Guanaes, também sou daqueles que trabalha 24 horas por dia: a qualquer momento pode vir uma ideia, uma solução, uma decisão. E vai que elas costumam vir melhores em um barco sobre as águas azuis do Caribe…
Mas isso será só a partir da semana que vem. Agora é quase uma da manhã de uma terça-feira, estou em um vôo da Gol para Chapecó, no oeste catarinense, onde chego daqui a meia hora, para dois dias de bastante trabalho. Dureza. A liberdade tem mesmo o seu preço.


































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