O anúncio da nova edição do Rock in Rio me resgatou velhas lembranças da adolescência. Sejamos justos: a maioria de nós tem poucos momentos que geram histórias a ser contadas para os filhos e netos. No mais das vezes, é uma existência normal, distante do que vemos em filmes e lemos nos livros. Afinal, não somos heróis. Claro, há as exceções – mas refiro-me à maioria de nós.
Se até agora eu tiver uma dezena de momentos destes, sentirei-me plenamente satisfeito. Não sei se chegam a uma dezena, mas o que envolve a primeira edição do Rock in Rio certamente é uma delas.
Início de 1985. Eu tinha 14 anos e ouvia basicamente heavy metal. Não era metaleiro – aliás termo odioso. Simplesmente gostava da música, junto com amigos da rua e do colégio. Era o que nos unia, naquele momento de transição entre ser uma criança e o protótipo de alguém na vida. No mais, era um garoto normal, de classe média, aluno mediano, mirrado, que jogava bola e pouco mais do que isso. Não usava correntes, tinha o cabelo curto.
Mas cismei que queria ir ao Rock in Rio. E, quando cismava, era difícil me demover. Imagine, naquela época, ver ao vivo o Ozzy, Iron Maiden, AC/DC, Scorpions…era um sonho, em uma época em que não havia nem sombra de internet, em que o Brasil era periferia do mundo, como outros (muitos) países ainda o são. Ninguém vinha para cá. Os ídolos, só em revistas, a maioria importada. Era a época em que pegámos o ônibus Ceasa 6262, ou o Lapa 875C, para irmos ao centro de São Paulo comprar camisetas, buttons e discos importados na Woodstock (ainda existe? que pergunta…) ou na Baratos Afins. Era uma aventura de quase um dia todo: moleques arrumados, filhinhos de papais disfarçados de roqueiros, andando em meio a cabeludos mal encarados, com tatuagens – eram mais raras – correntes nas calças e no pescoço.
Junto comigo, alguns amigos convenceram seus pais, e lá fomos para o Rio naquele janeiro de 1985. Fiquei na casa de parentes cariocas da minha finada avó, que estrategicamente foi ao Rio comigo mas, claro, não ao festival.
Dos 9 dias, comprei ingresso para 4. Os 4 dias em que havia heavy metal, entre eles o primeiro, dia 11 de janeiro (de repente, me vem à cabeça os outros dias – 15, 16 e, o último, 19). Aliás, não existe ex-amante de heavy metal. Ao longo da vida, você alarga seus horizontes e gostos musicais, pode até não ouvir mais, mas o sangue vai ferver quando ouvir os velhos mestres – Black Sabbath, Led Zeppelin, Iron Maiden, Judas Priest, etc, como um felino selvagem que foi supostamente domesticado. Talvez não tenha a ver com o heavy metal em si, mas com a música, qualquer que seja, que você ouvia nessa época marcante de sua vida.
Ir ao Rock in Rio foi uma insanidade. Aliás, o Rock in Rio I foi uma insanidade. Dezenas de milhares de pessoas amontoadas em uma cidade do Rock sem qualquer infra-estrutura, em que pequenas brigas ocasionavam a movimentação de manadas de pessoas aos gritos, sob o risco de pisoteamento. Depois de 9 dias, o cheiro era insuportável: urina, barro, chuva, tudo se misturava. Lembro-me de, exausto, deitar sob alguma coisa que me fez sentir minimamente protegido, e dormir um pouco, não sem antes observar dezenas de baratas e alguns ratos zanzando ao meu redor. Mas o sono era mais forte.
Mas, como muitas vezes acontece quando a prudência é abandonada por pura ingenuidade, sobrevivemos. Mesmo quando nos separávamos por variadas razões, conseguíamos nos encontrar para ir embora. Mesmo quando teimávamos em ficar a metros do palco – com a clara sensação de que, na iminência de um corre-corre, não teríamos para onde escapar - nosso anjo da guarda esteve a postos. De fato, só muito tempo depois fui racionalizar e compreender a loucura que foi tudo aquilo. Talvez nem tenha sido tudo isso; talvez a idade, a responsabilidade, filhos, etc. vão nos infundido temor e cautela.
Mas, devaneios a parte, eu estava lá e vi meus ídolos, aqueles que só ouvia nos discos de vinil (CDs estavam apenas começando!). Porém, não era suficiente. Todos eles estavam hospedados no Copacabana Palace, em cuja entrada amontoavam-se centenas de pessoas na inútil tentativa de tirar uma foto, ou ao menos ver de relance nossos ídolos em sua rotina diária, entre shows. Lá fui eu também.
Mas para mim não era suficiente. Resolvi bolar um plano para o que era até então impossível: entrar no Copacabana Palace, ver os ídolos de perto, talvez pegar autógrafos.
Era a hora da minha avó entrar em cena. Certamente não iriam barrar a entrada de uma respeitável senhora, desejosa de tomar seu chá das cinco no Copa, acompanhada de seu também respeitável neto, cabelinho cortado e com a aparência de filhinho de papai que, comparado com os demais tipos presentes, certamente o era.
Dito e feito. Enquanto os fãs se amontoavam na porta tentando migalhas, entramos tranquilamente no Copa. Era a chance de ver os ídolos de perto – mais do que isso, confesso, o que me deixava exultante era o fato de meus amigos não poderem fazer o mesmo. Sei, é uma visão pequena e egoísta, mas explicável considerando que eu era o menor da turma, com tudo aquilo que sempre acompanha o menor da turma, ainda mais na adolescência. Era uma sutil vingança.
Aos poucos, eles foram aparecendo. O Iron Maiden já tinha ido embora, mas Angus Young, do AC/DC, estava lá; Klaus Meine, do Scorpions, estava lá; David Coverdale, do Whitesnake, estava lá.
Mas a maior surpresa foi diante do elevador do Copa. Não me lembro agora porque exatamente eu estava na porta do elevador, mas lembro-me claramente que, quando a porta se abriu, ele estava lá. Aquela figura grotesca, caricatural, assustadora: Ozzy Osbourne, meu ídolo na época, um ícone saído há poucos anos do Black Sabbath, minha banda favorita.
Meu inglês era pífio na época, e acho que mesmo que não fosse, o que eu poderia falar para alguém como o Ozzy? Simplesmente estendi o papel e a caneta, ele assinou um garrancho provavelmente pela milionésima vez na vida, certamente nem reparou em mim, mas era o suficiente: poderia agora voltar para casa com a minha história.
Uma história que ficou dormente até que ouvi ontem “se a vida começasse agora….”. É engraçado – são 25 anos, mas parece que foi ontem.
Não sei onde forar parar os autógrafos que tanto valeram na época. Provavelmente no lixo alguns anos depois, quando deixaram de significar, quando outros fatos e realidades tornaram-se mais relevantes. Mas a memória, essa fica…
You Tube…o que faríamos sem ele?
Não tem como me emocionar ainda mais ao ver esse vídeo: Ozzy Osbourne cantando Crazy Train. Eu estava lá. E foi essa a figura que vi na minha frente!
Mais uma canja: AC/DC em Highway to Hell, no Rock in Rio 1985:
E (não consigo parar), Iron Maiden, com The Number of the Beast, idem:
































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