Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 24, 2009

2009: Balanço Final

Constato constrangido e meio perplexo: nesse ano que passou eu não cumpri a maior parte das metas que havia traçado ao final de 2008. Algumas não consegui cumprir, outras não quis; mudaram as premissas, o que está ok, afinal não me parece nada bom ter sua vida programada como um jogo de computador, imune a surpresas que são sempre o tempero da vida, sejam boas ou más.

Mas não estive parado, e só se esbarra em algo novo quando se está em movimento. Aliás, me movimentei: dentro daquilo que pude contabilizar, foram 25 viagens aéreas dentro do Brasil e 5 no exterior, quase tudo a trabalho, mas nunca se está 100% a trabalho, não?: lá fora, fui para Austrália, Espanha, Chile, Alemanha  e Estados Unidos. Gosto de viajar e acho que cada vez mais as viagens farão parte do que faço. A vida acontece fora do meu escritório, é fora que tenho a inspiração e obtenho a renovação e a energia para enfrentar o dia-a-dia e para me reinventar.

O que mais fiz em 2009?

Passei a levar mais a sério o hobby da fotografia, fazendo dois cursos, lendo a respeito, praticando. É uma atividade da qual extraio grande prazer. Pode parecer idiota, mas o efeito que uma foto bem tirada gera, ou um elogio a ela feito por outras pessoas, tem maior impacto em mim hoje do que um trabalho bem feito ou um elogio ao trabalho bem feito. Talvez por já ser de certa forma reconhecido pelo que faço, e a fotografia é um desafio novo. Ainda não sei.

(Tenho certeza que a demanda por fotografia vai aumentar muito no mundo: todo mundo gosta é a única forma de arte que você não precisa ter uma habilidade específica e muito treino até produzir  algo razoável – a fotografia vai ser o futebol das artes, acredite).

Trabalhei menos, mas de forma mais inteligente e sem deixar que coisas pequenas adquirissem uma proporção maior do que representavam. Depois de uns coices da vida, você aprende a relativizar os problemas, fica mais humilde também. Os resultados vieram, não só por isso, claro. Com ou sem crise, foi nosso melhor ano e de certa forma é uma vitória perceber que uma fase de ajustes difíceis na vida pessoal não atrapalhou significativamente a vida profissional. E, mais importante, chego ao final do ano com novos projetos e ideias.

Conheci pessoas novas, menos talvez do que talvez devesse conhecer, mas cada um de nós tem seu ritmo e suas premissas, e sair totalmente deles nem sempre é o melhor caminho. Reforcei laços profissionais, de amizade e familiares, talvez menos do que devesse, mas sei que fui na direção certa; fiz uma viagem com três velhos amigos da época da faculdade, coisa que pouca gente pode fazer ou, mesmo que possa, não faz.

Aliás, se há uma sensação que me acompanha nesse final de ano, talvez construída ao longo de um ano de certa forma introspectivo, de pausa para balanço, é que podemos fazer bem mais do que efetivamente fazemos, seja pessoalmente, socialmente, profissionalmente. É fácil nos acomodarmos, envelhecermos o espírito. O único medo que realmente tenho é o da acomodação, que é uma espécie de jogar de toalhas quando a luta nem começou, ou está apenas em seu início. Quantas coisas estão ao nosso alcance e não fazemos, procrastinamos, acordamos mais tarde, deixamos para amanhã ou depois de amanhã, ou apenas não temos e nunca vamos ter a energia para nos movimentarmos?

Não sei quais são as metas que terei para 2010. Só sei que terei uma regra: manter a peteca no alto, manter as exigências em alto grau, mas no sentido saudável, e fazer tudo aquilo que sei que posso e quero fazer.  Vejo à minha frente uma folha de papel a ser desenhada, a meu lado as ferramentas que preciso e constato que tenho as habilidades e a disposição para preenchê-la.

Obrigado a todos que frequentaram esse espaço em 2009; estaremos juntos em 2010. Obrigado aos que tiveram paciência comigo, os que acreditaram em mim e me incentivaram. Obrigado a todos que cruzaram meu caminho e deixaram, de uma forma ou de outra, sua contribuição.

Antes de terminar, uma menção especial ao Schummacher, 40 anos, e que volta a Fórmula 1 em 2010 competindo de igual para igual com os garotos. Como em 2010 também faço 40 (apesar de me sentir com 20), torço pelo sucesso dele, que mostra que mais do que idade, o que conta mesmo é a vontade e a cabeça. Sucesso pra nós em 2010, Schummacher!

Frase final do poema Receita de Ano Novo,  do Drummond: “É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.” Bela frase, vamos pensar nela; vale mais do que mil promessas e metas que ficarão nas gavetas.

PS: “When you make a difference, you also make a connection”. Essa frase de Seth Godin está no e-book gratuito que ele produziu junto com mais de setenta “grandes pensadores”, como ele diz, a respeito de temas importantes para pensarmos para 2010. Faça o download aqui, vale a pena.

Receita de ano novo – Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 15, 2009

Primeiras fotos que faço em um espetáculo de dança

Fotografar um espetáculo de dança é um desafio considerável. Primeiro, o movimento que não pára: sinto-me bem mais à vontade fotografando natureza e exteriores, onde não há praticamente movimento – nada mais oposto do que um ballet.

Segundo, a luz é normalmente pouca e muda a cada segundo, tornando quase impossível fotometrar (logicamente, o uso de flash está descartado).

Terceiro, a distância. Normalmente, fica-se longe do palco e se você não tiver uma boa teleobjetiva, tirará apenas cenas gerais, não pegará os movimentos que fazem a diferença.

Por tudo isso, e considerando que foi minha primeira tentativa de fotografar esse ambiente desafiador, gostei do resultado e, mais do que isso, do desafio.

Meu equipamento disse ao que veio: minha Canon T1i se mostrou ótima, viabilizando fotos com ISO bem alta (800 a 1600), permitindo velocidades um pouco maiores, sem aumentar muito o ruído.  Adorei estar com minha 400 mm, que foi essencial. Claro que usei tripé, caso contrário teria salvo pouquíssimas fotos, ainda mais com esse equipamento pesado.

Ainda estou trabalhando em cima das fotos, mas vejam abaixo algumas que gostei, das mais de 500 que tirei. Tem umas 40-50 que achei bem legais. Tem mais algumas no meu Flickr.

O espetáculo foi a apresentação de final de ano do ballet do Studio 415, de Piracicaba.

PS: O Danilo, fotógrafo e parceiro, me disse que as fotos estão legais, mas borradas, porque eu usei uma lente inadequada, muito escura para um ambiente problemático, com pouca luz. O ideal seria uma 50 mm bem clara, tipo 1.4 ou 1.8, ou uma grande angular, ficando bem próximo do palco. Claro que ele está certo. Bem, eu não tinha essa opção (até tenho uma 16-35 mm 2.8, que poderia servir, mas eu não poderia ficar perto do palco). Mas eu também gosto do “borrado”, que mostra o movimento e deixa a imagem mais implícita e menos explícita. Enfim, tudo depende da proposta – nesse caso, acho que a tele foi legal, além do que permitiu closes que não são normalmente vistos.

Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 12, 2009

Most of the time…

Bob Dylan é um gênio. Já disse isso aqui, e provavelmente ainda direi outras vezes. Vai fazer 50 anos de carreira e conseguiu se manter em evidência, reinventando-se constantemente, (quase) sempre com grande qualidade e originalidade.

Ele é um mestre da música e da letra. Abaixo, um pequeno exemplo do por quê.  Most of the time é uma balada que quer dizer uma coisa dizendo constantemente o seu inverso – daí a genialidade dele.

A maior parte do tempo é tudo isso que a letra diz – o problema é o que existe quando não se está no “most of the time”: momentos que, embora possam ser curtos, perdemos nossas referências, não nos reconhecemos como gostaríamos que fosse, nos sujeitamos a fantasmas do passado, e assim por diante. É o Hello darkness my old friend, I’ve come to talk with you again, de Sounds of Silence (Paul Simon, outro gênio).

A melodia também parece se transformar, apesar de se manter a mesma o tempo todo: no início, uma música comum, até sobria; depois vai soando melancólica, à medida que percebemos aonde ele quer chegar com ela.

Ao final, é inevitável ficar com a sensação de que “most of the time” parece muito bom mas, no fundo, não é suficiente. Por mais que tentemos nos convencer do contrário, como o próprio Dylan tenta. E a diferença do most of the time para o all the time pode ser tão grande como entre falar e quase falar. Há solução?

E, já ia me esquecendo (propositadamente?), o Most of the time dele tem como pano de fundo um alguém que se partiu.

Abaixo da letra, vídeo dele no You Tube.

Most Of The Time

Bob Dylan

Most of the time

I’m clear focused all around,
Most of the time
I can keep both feet on the ground,
I can follow the path, I can read the signs,
Stay right with it, when the road unwinds,
I can handle whatever I stumble upon,
I don’t even notice she’s gone,
Most of the time.

Most of the time
It’s well understood,
Most of the time
I wouldn’t change it if I could,
I can’t make it all match up, I can hold my own,
I can deal with the situation right down to the bone,
I can survive, I can endure
And I don’t even think about her
Most of the time.

Most of the time
My head is on straight,
Most of the time
I’m strong enough not to hate.
I don’t build up illusion ’till it makes me sick,
I ain’t afraid of confusion no matter how thick
I can smile in the face of mankind.
Don’t even remember what her lips felt like on mine
Most of the time.

Most of the time
She ain’t even in my mind,
I wouldn’t know her if I saw her
She’s that far behind.
Most of the time
I can’t even be sure
If she was ever with me
If I was ever with her.
Most of the time

I’m halfway content,
Most of the time
I know exactly where I went,
I don’t cheat on myself, I don’t run and hide,
Hide from the feelings, that are buried inside,
I don’t compromise and I don’t pretend,
I don’t even care if I ever see her again
Most of the time.

Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 12, 2009

Meu vinho do ano

Esse blog (nem seu autor) é especializado em vinhos. Há outros bem melhores, como o Nosso Vinho, do amigo Paulo Queiroz. Mas como ninguém me impede, dou às vezes meus pitacos.

Quem diria que meu vinho do ano seria um branco? Devo tomar um branco a cada dez tintos, mais um menos. E olha que tomei bons tintos em 2009. Mas meu preferido mesmo foi um branco que tomei recentemente, um Sol de Sol Chardonnay 2006, da Viña Aquitania. Apesar de estar localizada no Vale do Maipo, perto de Santiago, esse vinho vem de uvas produzidas em Traiguén, no Vale do Malleco, o mais austral para vinhos no Chile, a 650 km ao Sul de Santiago. A Viña Aquitania tem também o Lazuli, um Cabernet Sauvignon que gosto bastante, especial mesmo. Aliás, a Viña Aquitania é especial.

Esse Chardonnay não tem madeira em excesso, como é comum em vários Chardonnays de hoje. Tem um pouco de madeira e baunilha, mas na medida certa. É bem cítrico. Também, não “agride”, o vinho é muito equilibrado, o álcool não se sobressai e a sensação é muito agradável do começo ao fim. Não fica aquele gosto de “água de coco passada”, que às vezes um Chardonnay mais agressivo deixa. É um vinho que nem precisa (nem deve) ser tomado tão gelado e a cor, amarelo palha, meio lima-da-pérsia, combina muito com o vinho. Outro dia, tomei um Grosset Picadilly, de Adelaide Hills, Austrália, que supostamente faria bonito. Não chegou nem aos pés desse chileno.

Claro que o prato e o restaurante também fazem a diferença. Nesse caso, o escolhido foi o Navegantes, que tem disparado a melhor cozinha de Piracicaba, sendo especializado em frutos do mar. O peixe à caiçara é fantástico e harmonizou muito bem com o Sol de Sol.

Esse Sol de Sol não é um vinho para o dia-a-dia, até porque não é barato. Esse eu comprei na Viñoteca, no free shop do aeroporto de Santiago, que tem ótimas opções; mas achei aqui via internet também, bem mais caro do que paguei (na Zahil) por R$ 155,00 a garrafa.

Pode-se argumentar que, por esse preço, você pode comprar 5 garrafas de um vinho honesto, para o dia-a-dia. É verdade. Mas garanto que nem 50 garrafas desse vinho do dia-a-dia terão o aroma e o paladar desse Chardonnay chileno, meu vinho de 2009.

Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 11, 2009

A foto do calendário

Danilo, a foto escolhida para o calendário do Senar/CNA 2010 é essa aqui:

Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 9, 2009

Uma história incrível e real

Li agora O Caderno Vermelho (por influência da Márcia Benetti), livrinho que Paul Auster escreveu em 2000, relatando episódios em que o acaso e a coincidência influenciaram e, em alguns casos, até alteraram radicalmente a vida de seus protagonistas. São histórias reais, vividas por Auster, sua família e conhecidos. Algumas são fatos banais do cotidiano, mas que, por alguma razão pessoal, deixaram impressões duradouras e marcantes em suas trajetórias a partir dali. Com base nele, resolvi relatar aqui um fato ocorrido com minha irmã, meio no estilo Auster. Todas as informações são reais, tais como ocorreram.

Minha irmã havia se mudado com a família para uma nova casa. Após morar em apartamento durante vários anos, surgiu uma ótima oportunidade justamente no momento em que o proprietário do apartamento em que morava solicitava o imóvel.

A oportunidade era uma casa antiga mas confortável, em um local aprazível do Jardim Paulistano, perto da Rebouças. A casa era da família do seu marido e estava locada há vários anos. Talvez tenha passado por uma ou duas reformas (não sei ao certo precisar) e, com uma última interferência feita pelo meu pai, ganhou um ar de modernidade e de conforto que normalmente as casas antigas carecem.

Uns dois meses depois, minha mãe, junto com a neta – filha da minha irmã – resolveu fazer uma ordem em sua casa, esvaziando armários que há muito não eram mexidos. Era um daqueles momentos em que se decide rever o passado e se livrar daquilo que, deixara de fazer sentido, mas que permanecera armazenado simplesmente por mero esquecimento, esperando o dia do descarte.

Entre os itens achados, alguns eram jogados no lixo, outros guardados novamente (por alguma razão, ainda faziam sentido de ser, pelo menos até a próxima faxina) e outros eram dados a seus proprietários – no caso eu, minha irmã e meu irmão – que tinham a incumbência de decidir pelo seu destino.

Nessa arrumação, minha sobrinha achou um diário de sua mãe, de quando ela tinha provavelmente uns dez anos (ela deve saber a idade exata) e levou para casa para mostrar à mãe. Dentro dele, além das anotações referentes a impressões do dia-a-dia feitas por uma garotinha de dez anos, havia adesivos, papéis de carta colados e recados de amigas, que tomavam emprestado o diário para devolver no dia seguinte, com uma mensagem prometendo amizade eterna ou algo assim.

Uma dessas mensagens era de uma amiga a qual não via havia quase vinte anos, ou seja, seu último contato havia se dado pouco após a redação desta nota. Era a mensagem mais pessoal de todas e, ao final, uma frase pouco comum para uma pequena menina, seguida de um endereço: “Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar: Rua tal, número tal”. Era o único endereço escrito em todo o diário – minha irmã teve o cuidado de checar depois.

Por mais incrível que pareça, a “Rua tal, número tal”, era a casa para a qual minha irmã havia se mudado recentemente. Em função das reformas e do tempo passado desde então, ela não se lembrara, mas diante dessa revelação, aos poucos a memória foi sendo resgatada. Ela lembrou que, na velha garagem transformada em quarto de brinquedos onde hoje seus filhos brincam, ela havia brincado com sua amiga quando tinha quase a mesma idade de seus filhos. Mais ainda: ela lia essa mensagem muito provavelmente no mesmo local onde havia sido escrita, já que a amiga tomou emprestado o diário e levado para casa, como era de praxe.

Em sua infância, ela freqüentara a casa para a qual, sem saber, tinha se mudado recentemente (e que vinha a ser propriedade da família de seu futuro marido). Ainda que a origem social comum a ambas restrinja a ocorrência dessa possibilidade a alguns bairros específicos da metrópole de 10 milhões de pessoas, o episódio não deixa de ser absolutamente improvável.

Mas a história não termina aí. Na verdade, o mais absurdo veio a acontecer após essa descoberta. Um tio nosso, ao saber do estranho episódio e sendo afeito a temas espirituais, disse que nada disso era simples coincidência: que ela procurasse a amiga, que com certeza estava precisando muito de sua ajuda.

Minha irmã não deu muita importância ao fato até que, cerca de duas semanas após a descoberta e a conversa com o tio, encontrou sua cunhada, que disse ter conhecido recentemente uma menina que havia morado naquela casa. Como foi feito o contato entre ambas e como o assunto entrou na conversa das duas é algo que não me lembro ou não me foi dito. Só sei que a amiga sabia que meu cunhado morava na mesma casa que ela havia morado, mas não que minha irmã morava lá e que era casada com ele.

Surpresa ainda com mais essa coincidência, minha irmã perguntou como a amiga de infância  estava, já que não a vira durante todo esse tempo, nem tivera notícias da outra. Nada bem, foi a resposta de sua cunhada. Há cerca de duas semanas, ela tentou se matar.

Sem compreender direito o significado de tudo aquilo, minha irmã se recordou que, há exatas duas semanas estava lendo em sua nova casa seu antigo diário e, nele, a mensagem escrita por sua velha colega de escola, mais de vinte anos atrás.

Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 8, 2009

Meu primeiro “prêmio” fotográfico

Graças a uma amiga, fiquei sabendo de um concurso para escolha de 12 fotos para o calendário 2010 do Senar/CNA, sob o tema “Homens e mulheres construindo o agronegócio brasileiro”.

Havia ainda alguns dias para enviar quantas fotos quisesse para o concurso. Li rapidamente  o regulamento, sem muito ânimo, e acabei optando por mandar uma única foto, no último dia do concurso. Por mais improvável que seja, não tenho fotos de agronegócio – na verdade, há explicação: como trabalho com isso, raramente estou com máquina fotográfica e, quando estou, não tenho tempo e mindset para fotografar bem. Por isso, e por uma certa falta de ânimo, só mandei uma única foto, de um peão pantaneiro tocando a boiada.

A foto foi tirada na Fazenda Baía das Pedras, em Aquidauana, MS, e ficou bonita, apesar de poder ser melhor. Era final de tarde, a luz estava perfeita e os trajes do peão e do cavalo deram um colorido bonito, contrastando com a brancura do gado. Acho que defendi bem a foto, ao explicar que a produção agropecuária é feita de pessoas como esse peão, anônimas, cujos esforços somados geram a opulência e os grandes números que hoje chamamos de agronegócio e que sustentam há anos a balança comercial do país.

Apesar disso, não achei que iria ter minha foto selecionada –  e há momentos em que você questiona sua própria obra, como se tudo de repente parecesse medíocre. Estou em um desses momentos.

Três ou quatro dias depois, recebi um telefonema informando que minha foto havia sido selecionada, dentre as 425 enviadas. Decidi dividir o prêmio (R$ 2.000,00) com o peão que foi o motivo da foto. Apesar de não pretender ganhar dinheiro com a fotografia, a sensação foi interessante.

Como cedi os direitos de uso para eles, não vou publicar a foto aqui. Mas publico uma outra foto, da mesma série, que gostei até mais do que a premiada, mas que provavelmente não seria selecionada em função da temática do concurso.

Essas fotos foram tiradas com a minha câmera “antiga”, uma Canon Powershot SX 10 IS que, pelas suas limitações, me forçou a ir mais longe e compensar “na raça”; me fez aprender mais. Em outubro, comprei um belo equipamento, mas não vendi minha câmera antiga, que é muito prática e não faz feio, mesmo não sendo uma DSLR. Também, ou na verdade, não vendi porque criei laços com ela em função de ter sido minha primeira câmera com o propósito de tirar fotos de forma um pouco mais técnica.

Hoje, meu equipamento é muito melhor do que eu, fazendo-me sentir até intimidado. Subjetivamente ou não, minha produção fotográfica deu uma estagnada e cheguei a me questionar se realmente tenho algum talento ou se as pessoas mais próximas são simplesmente gentis.

O fato é que, no meio dessa entressafra fotográfica, esse prêmio, ainda que modesto sob o aspecto técnico, teve um simbolismo importante para trazer de volta um estímulo que estava bem escondido.  Andei até pensando em fazer um workshop no exterior – quem sabe algum lugar remoto da Ásia, África, ou mesmo América do Norte…

Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 2, 2009

Jornais não conseguem ir além da discussão cobrar ou não pelo conteúdo

Nessa quarta, dia 2/12, o Estadão trouxe as conclusões do 62° congresso da Associação Mundial de Jornais (WAN). A julgar pela matéria, os jornais continuarão tendo tempos turbulentos: receitas de assinaturas decrescentes e publicidade online que não cresce na mesma velocidade, e poucas alternativas de gerar renda adicional. As possibilidades de crescimento de um negócio com esse são, por consequência, muito baixas.

A internet como negócio já fez pelo menos 10 anos, mas os jornais não conseguem sair da discussão sobre cobrar ou não pelo conteúdo. Se cobrarem, correm o risco (eu diria que mais do que o risco, estarão selando seu destino) de perder uma enxurrada de visitantes online; se não cobrarem, não terão como compensar a natural perda de assinantes da versão impressa. E a publicidade online não cresce na mesma velocidade. É um dilema, sem dúvida, e nada simples de se resolver.

Como os jornais (e as demais mídias impressas também) só conseguem analisar uma única opção de viabilização de seus negócios em uma época de grandes e definitivas mudanças, surgem as mais variadas fórmulas para que a cobrança de conteúdo online seja bem sucedida. No início do ano, um expert disse que o futuro estaria nos micropagamentos: cada matéria custaria um pouquinho e caberia ao leitor pagar para lê-la, criando um veículo praticamente personalizado. A crescente facilidade e a ampliação dos sistemas de compensação online certamente viabilizariam essa estratégia, mas será mesmo que as pessoas gostariam de ter que decidir se pagariam ou não para ler cada matéria?

Acho válido testar, sem dúvida, afinal estamos em águas inexploradas (parafraseando Alan Greenspan), onde tudo é possível encontrar, até monstros marinhos até então presentes apenas em nossa imaginação.  Mas me parece perigoso basear um plano de negócios a partir dessa premissa. As pessoas já precisam tomar inúmeras decisões diariamente em suas vidas. A era da escolha, a despeito do evidente benefício, traz também o ônus da decisão onipresente. É um peso, e talvez as pessoas simplesmente não queiram ter de decidir se devem ou não ler cada notícia ou matéria. E falta tempo para isso.

Além disso, com a facilidade de cópia e distribuição da informação e do enorme número de sites, fatalmente a informação paga aparecerá gratuitamente em algum outro lugar. Claro, talvez seja possível criar um policiamento global e um arcabouço jurídico para evitar pirataria; mesmo que isso seja possível, seria irresponsável do ponto de vista empresarial depositar nessa possibilidade a viabilização de seu negócio.

E, mais ainda, talvez isso vá contra a própria natureza da internet.  Não que não exista espaço para conteúdo pago – certamente existirá – mas acho difícil que qualquer negócio em web (deve haver exceções, mas exceções são sempre exceções) seja baseado nesse conteúdo como fonte principal de renda.

Seth Godin, o guru de marketing, escreveu outro dia um artigo dizendo que “para quem é martelo, tudo que vê pela frente é prego”.  Esse ditado serve muito bem aos jornais e às demais formas de mídia tradicional. Foram martelo a vida inteira, estruturaram seus negócios a partir do martelo, e tudo que conseguem ver pela frente são pregos. Só que, para sua infelicidade, há bem mais que pregos e, pior, os pregos estão cada vez mais raros.

O que os jornais não percebem é que não estão mais no negócio de informação, mas sim no negócio de atração de leitores. A diferença é considerável: enquanto no primeiro caso – na visão tradicional – seu produto-fim é a informação, no segundo – que deveria ser a visão atual – a informação é apenas um meio para atrair usuários e formar comunidades. E, pelo seu expertise, podem ser obviamente bons nessa missão de atrair leitores via informação de qualidade.

Se eu fosse um jornal online,  consideraria estratégico atrair leitores e criaria uma divisão autônoma para estudar possíveis formas de monetizar estes usuários, indo bem além da venda de informação pura e simples. A gama de potenciais serviços ofertados é enorme (inclusive relacionados a informação), mas só poderá ser efetivamente explorada sem os vícios do passado, utilizando pessoas que possam usar mais ferramentas e não somente o martelo.

É claro que não é algo fácil, como qualquer mudança radical de modelo de negócios. É evidente que o pirateamento da informação continuará,  o que demandará a criação rápida de outros serviços para prender (ou fidelizar, para usar um termo mais politicamente correto) os leitores.

Dificil ou não, é a realidade, contra a qual me parece inócuo lutar. O fato é que os jornais vivem um momento de ruptura em seus modelos de negócio. É isso, ou talvez fechar as portas. O uso de internet só crescerá, assim como a fragmentação das mídias, tornando o problema atual ainda mais grave.

É irônico e emblemático que, após 62 congressos, a associação mundial de jornais não encare esta realidade que afeta e coloca em risco seu modelo tradicional de negócios. Isto é compreensível; afinal, 62 anos sugerem um setor maduro, que soube desenvolver martelos altamente eficazes e identificar pregos de todos os formatos e tamanhos. Resta saber se, apesar disso, terá condições de se reinventar em um cenário em que os pregos escassearão e os martelos serão cada vez menos necessários.

Publicado por: marcelopcarvalho | Dezembro 1, 2009

O Brasileirão e a ética do brasileiro

O Campeonato Brasileiro, apesar do baixo nível técnico e da ausência de times e mesmo jogadores que empolguem, chega ao final com grandes expectativas. Em parte, essas expectativas derivam da possibilidade de diversas equipes ganharem o torneio,  alternando-se na liderança a cada rodada, tornando risíveis as probabilidades matemáticas, sempre publicadas pelos jornais após os jogos.

Afora essa saudável disputa, a outra razão pela qual o campeonato termina carregado de expectativas é o inusitado fato de que, se o Grêmio vencer o Flamengo no Rio de Janeiro, muito provavelmente dará o título a seu arqui-rival, o Internacional. Que situação! Deverá o Grêmio entregar o jogo ao Flamengo, evitando o triunfo de seu maior inimigo?

Vários comentaristas e as pessoas em geral consideram normal o torcedor gremista pedir que seu time entregue o jogo; afinal, para o Grêmio é só mais um jogo, facilmente cambiável pela alegria de ver a perda do título colorado. Mais do que isso: por ser o protagonista dessa perda, não interessa por que meios. O que não pode, concordam cheios de pudor e aparente decência, é a diretoria pedir para o time entregar o jogo. Isso sim seria anti-ético.

Engraçado. Não me parece “normal” que o torcedor peça para o time entregar o jogo para evitar mal maior. Uma coisa é torcer contra o inimigo; outra, bem diferente, é prejudicar a si próprio, se vender (sim, é uma venda, não monetária, mas uma venda) em troca de ver o tropeço alheio.

Onde anda o tal “fair-play”, o reconhecimento de que existem limites e aspectos éticos mais importantes do que o título em si, ou, no caso, o triunfo do concorrente? É claro que o gremista não ficaria de qualquer forma satisfeito com a (improvável) vitória do Inter, mas mil vezes agüentar as gozações e aceitar a derrota, aceitar que o rival foi mais competente e, caso ganhasse, ganharia licitamente, do que trocar a consciência tranqüila pela alegria de poder prejudicar o rival, sem qualquer vantagem adicional que não saborear a tristeza alheia. Mesmo porquê, nesse raciocínio, amanhã pode ser a sua vez de estar na posição colorada (ou na posição säopaulina, corinthianos!).

Vivo em Marte, dirão. Sim, devo viver, afinal esse comportamento de levar vantagem em tudo está entranhado em nossa consciência. Paro de escrever por um momento: acabo de ver matéria sobre esse mesmo tema no Jornal Nacional: o tratamento não é que se trata de absurdo, de um deslize moral, mas sim de algo “pitoresco”, fruto da rivalidade, até “saudável”. Nem uma entrevista sequer de alguém chamando para a questão básica: qual é o papel do esporte, onde está o ideal Olímpico? Claro, o futebol deixou de ser um esporte há muito, e nunca flertou muito bem com as Olimpíadas. Talvez por isso.

Mas o problema não é só do futebol. Esse esporte é um símbolo do Brasil e do brasileiro. Sua ética, em maior ou menor grau, representa a nossa ética. Fico pensando com que autoridade nos assombramos com os Arrudas da vida, quando achamos normal que o torcedor gremista queira que sua equipe entregue o jogo. Achamos até legal, correto esse comportamento, quando essa simples possibilidade já soaria absurda caso houvesse valores decentes e alguma ética.

Na semana passada, o mundo viu Thierry Henry colocar escandalosamente a mão na bola, resultando no gol salvador bem no final do jogo contra Irlanda,  colocando a França na Copa e eliminando injustamente os irlandeses. O que fez Henry após a partida? Pediu desculpas aos irlandeses e disse que a solução mais justa seria a realização de uma nova partida. Pode-se dizer que ele poderia não ter colocado a mão na bola, que agora é fácil justificar e sair de bom moço. Qualquer um que já jogou algum esporte minimamente a sério sabe que há reações instintivas ligadas a sobrevivência – simplesmente não há tempo de se raciocinar – quanto mais quando o que está em jogo é a garantia da participação em uma Copa do Mundo que ia inacreditavelmente escapando a forte e tradicional França. Qual seria a reação do jogador brasileiro médio, em uma situação dessas, após colocar a mão na bola? Será que pediria uma nova partida e pediria desculpas ao adversário ainda no campo? Será que a imprensa e as pessoas em geral o considerariam majoritariamente desonesto, ou “esperto”? Tenho dúvidas, mas temo que a maioria consideraria um ato de esperteza, como la Mano de Dios de Maradona, na Copa de 86. E, claro, quando falo do jogador brasileiro “médio”, estou falando do brasileiro “médio.

É irônico que o Brasileirão termine dessa forma, caprichosamente expondo nossas fraturas éticas futebolísticas, que tão bem podem ser extrapoladas para nossa própria sociedade. A rigor, nessas alturas, se o Grêmio vai entregar o jogo para o Flamengo, nem interessa muito (curiosamente, parece que o Grêmio escalará uma “equipe mista”: os diretores, assim, lavam as mãos). Com esse episódio, já perdemos, e de goleada, o jogo da ética e dos valores que moldam uma sociedade decente.

PS: nada contra o Grêmio ou os gremistas; qualquer grande time e torcida provavelmente protanizaria o mesmo papelão, caso estive em posição semelhante.

Publicado por: marcelopcarvalho | Novembro 30, 2009

Um ano de “O que der e vier”

Hoje, o blog fez um ano. Em 30/11/08, escrevi “Nothing ventured, nothing gained”, o primeiro de 132 posts, o que dá uma média de um a cada 3 dias, ou um pouco menos.

É como um filho: você bota no mundo, cria expectativas, até tentar moldar, mas ele adquire vida própria e vira alguma coisa diferente do que você imaginava.

No caso do blog, isso é até natural (do filho também, mas obviamente por outras razões). Afinal, o blog é um reflexo de seu autor, e seu autor não é o mesmo ao longo do tempo. Muda e, com ele, muda também o blog. Um paradoxo: o blog cria vida própria em certo sentido, mas estará sempre subjugado a seu criador. Talvez sejamos nós mesmos que criamos vida própria, diferente do que achamos que somos.

Gostaria de presentear esse companheiro de horas críticas, que sempre aceitou tudo, sem reclamar com um momento mais criativo de minha parte. Nesses últimos meses, como já escrevi recentemente, a inspiração me tem faltado, junto com outras coisas mais, como tempo e dedicação. E talvez certa angústia, que sempre é uma artista poderosa. Mas essas coisas não escolhem hora para aparecer e voltar a sumir sem aviso prévio. Paciência, ele há de se acostumar, caso sobreviva por muito mais tempo.

Nesse período, ele me proporcionou bons momentos. Escrevi algumas coisas das quais gostei; mas nunca revisitei os textos, principalmente os mais pessoais, talvez por medo do que poderia vir a encontrar, medo de ter exagerado na exposição pessoal que um exercício dessa natureza sempre exige, medo de ver como eu era e o que pensava em determinados momentos. É até possível que me surpreendesse positivamente.

Como um filho, o parto não foi fácil; como o parto, teve um bocado de dor em sua origem, até que seu autor, meio que aos trancos e barrancos, fosse se adaptando aos novos tempos.

No primeiro texto que escrevi fui sincero ao avisar que seria um projeto pessoal, de mim para mim mesmo, o que em parte foi mesmo verdade, mas claro só em parte. Nunca tive o interesse de ter milhares de acessos, a responsabilidade seria muito grande e a exposição, idem. Quem fosse para acessar, acabaria acessando. Os que gostassem, voltariam.

Mas acho que, nesse projeto pessoal, ao longo do trajeto, sobrou algo para outras pessoas, que buscaram algum conhecimento, ideias, apoio e talvez até entretenimento em um ou outro post. Algumas dessas pessoas eu nem conhecia – em especial a Ana, a Márcia, e o Rodolfo, todos blogueiros e que, graças a esse negócio de tecnologia que eu meti  o pau alguns posts atrás, pude conhecer. E há, claro, muitos outros que já conhecia, ou que conheci pessoalmente nesse ano, e que também gastaram parte do seu tempo livre visitando meus textos.

O blog inicia seu segundo ano com expectativas, mas sem ao certo saber como vai se desenvolver, que rumos tomará, como servirá ao seu autor. A incerteza, afinal, já nasceu com ele, pelo próprio título. Seja para exposição de ideias quaisquer; seja para discorrer sobre gestão e empreendedorismo; seja para comentar fatos do dia-a-dia, filmes, livros,  música, vinhos e comida;  seja para comentar e publicar fotografias, o hobby que finalmente resolvi encarar; seja para dividir com os leitores minhas experiências de viagem (nos últimos 2 anos, foram 10 viagens internacionais!!); seja para dar vazão a questões mais pessoais que precisam ganhar o papel para, quem sabe, serem melhor compreendidas. O que der e vier está aí para tudo isso.

Anais Nin, que gosto de citar e ainda vou ler, disse “escrevo para um mundo onde se possa viver”. Não tenho essa pretensão; escrevo, no máximo, para um mundo onde eu possa viver. Já está bom demais, não?

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