Publicado por: marcelopcarvalho | agosto 17, 2010

Rock in Rio I ….lembranças de 1985

O anúncio da nova edição do Rock in Rio me resgatou velhas lembranças da adolescência. Sejamos justos: a maioria de nós tem poucos momentos que geram histórias a ser contadas para os filhos e netos. No mais das vezes, é uma existência normal, distante do que vemos em filmes e lemos nos livros. Afinal, não somos heróis. Claro, há as exceções – mas refiro-me à maioria de nós.

Se até agora eu tiver uma dezena de momentos destes, sentirei-me plenamente satisfeito. Não sei se chegam a uma dezena, mas o que envolve a primeira edição do Rock in Rio certamente é uma delas.

Início de 1985. Eu tinha 14 anos e ouvia basicamente heavy metal.  Não era metaleiro – aliás termo odioso. Simplesmente gostava da música, junto com amigos da rua e do colégio. Era o que nos unia, naquele momento de transição entre ser uma criança e o protótipo de alguém na vida. No mais, era um garoto normal, de classe média, aluno mediano, mirrado, que jogava bola e pouco mais do que isso. Não usava correntes, tinha o cabelo curto.

Mas cismei que queria ir ao Rock in Rio. E, quando cismava, era difícil me demover. Imagine, naquela época, ver ao vivo o Ozzy, Iron Maiden, AC/DC, Scorpions…era um sonho, em uma época em que não havia nem sombra de internet, em que o Brasil era periferia do mundo, como outros (muitos) países ainda o são. Ninguém vinha para cá. Os ídolos, só em revistas, a maioria importada. Era a época em que pegámos o ônibus Ceasa 6262, ou o Lapa 875C, para irmos ao centro de São Paulo comprar camisetas, buttons e discos importados na Woodstock (ainda existe? que pergunta…) ou na Baratos Afins. Era uma aventura de quase um dia todo: moleques arrumados, filhinhos de papais disfarçados de roqueiros, andando em meio a cabeludos mal encarados, com tatuagens – eram mais raras – correntes nas calças e no pescoço.

Junto comigo, alguns amigos convenceram seus pais, e lá fomos para o Rio naquele janeiro de 1985. Fiquei na casa de parentes cariocas da minha finada avó, que estrategicamente foi ao Rio comigo mas, claro, não ao festival.

Dos 9 dias, comprei ingresso para 4. Os 4 dias em que havia heavy metal, entre eles o primeiro, dia 11 de janeiro (de repente, me vem à cabeça os outros dias – 15, 16 e, o último, 19).  Aliás, não existe ex-amante de heavy metal. Ao longo da vida, você alarga seus horizontes e gostos musicais, pode até não ouvir mais, mas o sangue vai ferver quando ouvir os velhos mestres – Black Sabbath, Led Zeppelin, Iron Maiden, Judas Priest, etc, como um felino selvagem que foi supostamente domesticado. Talvez não tenha a ver com o heavy metal em si, mas com a música, qualquer que seja, que você ouvia nessa época marcante de sua vida.

Ir ao Rock in Rio foi uma insanidade. Aliás, o Rock in Rio I foi uma insanidade. Dezenas de milhares de pessoas amontoadas em uma cidade do Rock sem qualquer infra-estrutura, em que pequenas brigas ocasionavam a movimentação de manadas de pessoas aos gritos, sob o risco de pisoteamento. Depois de 9 dias, o cheiro era insuportável: urina, barro, chuva, tudo se misturava. Lembro-me de, exausto, deitar sob alguma coisa que me fez sentir minimamente protegido, e dormir um pouco, não sem antes observar dezenas de baratas e alguns ratos zanzando ao meu redor. Mas o sono era mais forte.

Mas, como muitas vezes acontece quando a prudência é abandonada por pura ingenuidade, sobrevivemos. Mesmo quando nos separávamos por variadas razões, conseguíamos nos encontrar para ir embora. Mesmo quando teimávamos em ficar a metros do palco – com a clara sensação de que, na iminência de um corre-corre, não teríamos para onde escapar -  nosso anjo da guarda esteve a postos. De fato, só muito tempo depois fui racionalizar e compreender a loucura que foi tudo aquilo. Talvez nem tenha sido tudo isso; talvez a idade, a responsabilidade, filhos, etc. vão nos infundido temor e cautela.

Mas, devaneios a parte, eu estava lá e vi meus ídolos, aqueles que só ouvia nos discos de vinil (CDs estavam apenas começando!). Porém, não era suficiente. Todos eles estavam hospedados no Copacabana Palace, em cuja entrada amontoavam-se centenas de pessoas na inútil tentativa de tirar uma foto, ou ao menos ver de relance nossos ídolos em sua rotina diária, entre shows. Lá fui eu também.

Mas para mim não era suficiente. Resolvi bolar um plano para o que era até então impossível: entrar no Copacabana Palace, ver os ídolos de perto, talvez pegar autógrafos.

Era a hora da minha avó entrar em cena. Certamente não iriam barrar a entrada de uma respeitável senhora, desejosa de tomar seu chá das cinco no Copa, acompanhada de seu também respeitável neto, cabelinho cortado e com a aparência de filhinho de papai que, comparado com os demais tipos presentes, certamente o era.

Dito e feito. Enquanto os fãs se amontoavam na porta tentando migalhas, entramos tranquilamente no Copa. Era a chance de ver os ídolos de perto – mais do que isso, confesso, o que me deixava exultante era o fato de meus amigos não poderem fazer o mesmo. Sei, é uma visão pequena e egoísta, mas explicável considerando que eu era o menor da turma, com tudo aquilo que sempre acompanha o menor da turma, ainda mais na adolescência. Era uma sutil vingança.

Aos poucos, eles foram aparecendo. O Iron Maiden já tinha ido embora, mas Angus Young, do AC/DC, estava lá; Klaus Meine, do Scorpions, estava lá; David Coverdale, do Whitesnake, estava lá.

Mas a maior surpresa foi diante do elevador do Copa. Não me lembro agora porque exatamente eu estava na porta do elevador, mas lembro-me claramente que, quando a porta se abriu, ele estava lá. Aquela figura grotesca, caricatural, assustadora: Ozzy Osbourne, meu ídolo na época, um ícone saído há poucos anos do Black Sabbath, minha banda favorita.

Meu inglês era pífio na época, e acho que mesmo que não fosse, o que eu poderia falar para alguém como o Ozzy? Simplesmente estendi o papel e a caneta, ele assinou um garrancho provavelmente pela milionésima vez na vida, certamente nem reparou em mim, mas era o suficiente: poderia agora voltar para casa com a minha história.

Uma história que ficou dormente até que ouvi ontem “se a vida começasse agora….”. É engraçado – são 25 anos, mas parece que foi ontem.

Não sei onde forar parar os autógrafos que tanto valeram na época. Provavelmente no lixo alguns anos depois, quando deixaram de significar, quando outros fatos e realidades tornaram-se mais relevantes. Mas a memória, essa fica…

You Tube…o que faríamos sem ele?

Não tem como me emocionar ainda mais ao ver esse vídeo: Ozzy Osbourne cantando Crazy Train. Eu estava lá. E foi essa a figura que vi na minha frente!

Mais uma canja: AC/DC em Highway to Hell, no Rock in Rio 1985:

E (não consigo parar), Iron Maiden, com The Number of the Beast, idem:

Publicado por: marcelopcarvalho | julho 15, 2010

Toalhas ao chão e enganação

Não tenho dúvida de que os hotéis são a categoria mais preocupada com o aquecimento global e com a preservação dos recursos naturais. A que outra conclusão poderia chegar diante da constatação de que em todos os hotéis que já passei nos últimos anos está lá aquela famigerada mensagem falando para reutilizarmos as toalhas sob o risco de acabar com o planeta?

Tanto faz se é em um hotel com diária de R$ 30,00 em Campos Altos, no interior de Minas Gerais, ou no Plaza em Madri, o teor da mensagem é o mesmo: ajude o hotel a reduzir o uso de água e detergentes., e a natureza agradece.

Nada contra essa prática – de fato, lavar as toalhas após um dia de uso é algo fora de propósito, com ou sem aquecimento global ou escassez de água. O que não é certo é a utilização de uma mensagem que sugere responsabilidade social quando o verdadeiro motivo é a economia gerada para o estabelecimento. Aliás, o mundo hoje está cheio de práticas disfarçadas de responsabilidade social – e alardeadas aos quatro cantos – que nada mais são do que “good management practices”. Um exemplo é o Wal-Mart dizer que trocou todas as suas lâmpadas, utilizando tipos que consomem menos energia e, consequentemente, geram custos menores às lojas. O que é isso se não uma boa prática gerencial pura e simplesmente que, claro, gera um benefício adicional ao meio-ambiente? Outro exemplo de prática tida como de responsabilidade social que nada mais é do que prática que gera resultados às empresas: oferecer boas condições de trabalho aos colaboradores.

O que me surpreende é que a frase nos banheiros dos hotéis não respeita região, valor da diária ou qualquer outro critério. Indistintamente, considera todos os hóspedes uns otários. Caiu como um luva, seja nas grandes cadeias de hotéis, ou em pequenos estabelecimentos locais, que às vezes tentam inovar na mensagem, ficando até engraçado.

Outro dia, em Gramado (RS), o aviso começava mais ou menos assim: “nós, do hotel XYZ (não lembro o nome), estamos preocupados com o aquecimento global que está se instalando em nosso planeta”. Ainda bem que avisaram que o aquecimento global está se instalando em nosso planeta. Aquecimento global virou um termo só. Essa semana, deu um aquecimento global aqui e o resultado foi a frente fria que chegou.

Já há algum tempo penso em escrever sobre isso. Não que seja um tema relevante em si. Talvez seja se enveredarmos por essa questão do uso indevido da imagem da responsabilidade social, travestindo de boas intenções práticas que geram melhor desempenho à empresa (e qual afinal seria o problema de gerar melhor desempenho?). Ou, ainda, se pensarmos na falta de percepção das empresas em tratar seu cliente de forma honesta e transparente, não considerando-o um simples ingênuo. Outra vertente de análise seria o fato de que gerar maior lucro é um pecado a ponto da solicitação de reciclar as toalhas ter de usar uma mentirinha cômoda para ganhar a simpatia dos hóspedes.

Mas esse texto não é para ser tão sério, então deixo o leitor pensar nessas análises mais profundas; eu fico do lado do cômico – penso até em colecionar essas frases. Mas, voltando à ideia do texto, só resolvi mesmo escrever ontem à noite, depois de receber um email de um amigo puxando minha orelha por estar há quase 2 meses sem escrever. E, claro, depois de me deparar com essa mensagem no banheiro do Ritz de Juiz de Fora (qualquer semelhança com os Ritz mundo afora é realmente mera coincidência, posso garantir):

“Caro Hóspede, você pode imaginar quantas toneladas de toalhas são lavadas desnecessariamente todos os dias em todos os hotéis do mundo inteiro; e a extraordinária quantidade de sabão em pó que é necessária para essa lavagem, e que, deste modo, polui nossa água? Gentilmente considere: toalhas deixadas dentro do chuveiro significa: por favor troque-as. Toalhas recolocadas no cabide ou esticadas no box significa: vou usá-las novamente. Em consideração ao nosso meio ambiente.”

Uau. Essa ganhou. Colocou em cima do pobre hóspede o peso de toneladas de toalhas lavadas à toa, mais tanto sabão em pó que logo me veio à cabeça a imagem daquelas placas de espuma que vira e mexe são fotografadas no Tietê. E o final, então, é definitivo. Não posso negar que foi efetivo. Posso ser cínico em excesso, mas visualizo alguém bolando esse texto e rindo, rindo…

Se eu tivesse um hotel, algo que definitivamente não pretendo, eu colocaria a seguinte mensagem:

Caro Hóspede,

“Sabemos que, por frequentar nosso estabelecimento, você é alguém diferenciado, que espera de nós nada menos do que um serviço de alto nível e uma comunicação transparente. Levando isso em conta, solicitamos que, se possível, reutilize as toalhas, evitando que gastemos uma quantidade desnecessária de água e detergentes. Parte dessa economia será revertida em aprimoramento de nossos serviços e das instalações, retornando em benefícios aos nossos hóspedes. E, como você já sabe caso tenha frequentado outros hotéis, de quebra ainda reduzimos os danos ambientais, resultando em uma prática ganha-ganha.”

Quem sabe algum dia veremos uma mensagem parecida com essa? Enquanto isso, toalhas ao chão, para acabar com a enganação!

Publicado por: marcelopcarvalho | maio 25, 2010

Dica pra Pira: exposição Ora Bolas

Em clima de Copa do Mundo,  quem está em Piracicaba precisa ir ver a exposição “Ora Bolas, o Futebol no Mundo”, no Engenho Central, que apresenta fotos de pessoas jogando bola nos locais mais improváveis, como Antártida, Iraque, Vietnã e outros. São belas imagens e, através delas, é possível perceber um pouco do que o futebol representa. É a linguagem esportiva universal. Eu sei o que é isso na pele e já escrevi sobre a inusitada pelada que joguei na China.

A única coisa que lamento é que não há menção aos fotógrafos que fizeram as imagens. Quer dizer, há, mas não se identifica cada foto. Entre os fotógrafos, está o Caio Vilela, do Futebol sem Fronteiras e velho amigo do ginásio e colegial no Santa Cruz.

Entre as fotos, uma imagem chama a atenção, logo na entrada. A foto da primeira casa do Maradona, paupérrima. Dá o que pensar, até para entender os caminhos escolhidos por ele depois do fim. Sou fã do Maradona, cheio dos erros que os mortais cometem. E com erros, acima de tudo, por ser um cara decente.

Abaixo, algumas imagens que fiz sobre as fotos.

Primeira casa de Maradona

Essa é minha mesmo

Publicado por: marcelopcarvalho | maio 19, 2010

Quando éramos reis

Você nunca sabe aonde as conversas de bar podem nos levar. A rigor, você nunca sabe aonde qualquer conversa vai nos levar, mas se for para ir a algum lugar inesperado, as de bar saem sempre na frente porque, via de regra, são acompanhadas de bebidas, e bebidas têm esse poder mais do que qualquer outra coisa.

Outro dia, plena segunda-feira em São Paulo, um inocente happy hour com amigos e amigos dos amigos me levou ao passado, ao início da minha trajetória profissional. Um dos amigos foi meu primeiro sócio em uma outra empresa, quando eu não tinha nem um ano de formado; olhando fotos antigas daquela época, me assusto de ver minha cara de moleque já achando que poderia ganhar a vida como gente grande.

Tínhamos todos os sonhos do mundo e a ingenuidade de achar que poderíamos realizá-los. Não que hoje não tenhamos os mesmos sonhos, quer dizer,  alguns dos mesmos e outros ainda, mas hoje já olhamos com certa desconfiança para nossa capacidade de realização, bem menor do que a de sonhar, que continua a mesma… Sabemos, pela experiência desses 15 e poucos anos vividos desde então, que somos bons, mas não tanto quanto achávamos que fôssemos. E aprendemos que há limites, que nem cinco vidas seriam suficientes para fazer tudo aquilo que queremos.

Mas não há como olhar para trás com algum sentimento de vitória, de realização. Naquela época, não sabíamos nada mas criamos um mercado que não existia. Tudo bem, se não fôssemos nós, seriam outros depois, mas o que interessa é que fomos nós que fizemos. Não descobrimos nenhuma teoria da relatividade, não propusemos nenhuma origem das espécies, não ficamos famosos, mas fizemos história, ainda que no nosso micro-mundo de então. Claro, muita gente foi muito mais longe com muito menos, mas também um monte de gente (muito mais, aliás), não foi a lugar nenhum com muito mais. E, afinal, foi o que conseguimos. E, mais importante, aprendemos que podemos.

Lembro-me do investimento inicial, do grande passo que, achava, seria suficiente para permitir todo o resto. Pedi um dinheiro emprestado para o meu pai: 150 URVs, que depois virou Reais, para comprar 1/3 de fax, que seria o que eu precisava para fazer a minha vida. Lembro-me até hoje desse momento. R$ 450,00 foi o investimento dos três sócios para o bem mais precioso que precisávamos: um velho aparelho de fax, através do qual, por uma tecnologia que até hoje me assombra, enviávamos pedidos escritos a mão para a empresa que nos fornecia o produto dourado como ouro e que ninguém conhecia aqui no Brasil.

E esse investimento que estava fora do meu alcance como recém-formado, que andava por aí a bordo de um chevette 86, foi mesmo o bastante para todo o resto, talvez pela única razão de acreditar nessa tolice improvável e simplesmente ir em frente.

Lembramos e rimos do início, quando após 2 meses de insucessos, desistimos. Estávamos em um feriado de outubro em Ubatuba, discutindo na praia o que havia dado de errado. Dois moleques (ele um pouco mais velho) tentando dissecar o insucesso daquilo que era para ser um grande estouro. Onde erramos? O produto não era bom? Não era competitivo? Por que os clientes não compravam? Naquela época, não sabíamos ainda que as coisas não são tão óbvias e diretas assim, e que precisa mais do que essas coisas, ou às vezes muito menos, para se ter sucesso.

Na praia, eu pensava o que faria depois. Sempre aquela cobrança exagerada e que, com o tempo, vai sendo aplainada, o que não sei se é bom ou ruim. Por mais de uma vez nesse período considerava que havia feito escolhas erradas, desde a faculdade até o que nela fiz, e que havia jogado fora as oportunidades que me foram dadas, como a melhor escola, vivência no exterior e um ambiente culto. Aos 23 anos, considerei algumas vezes que as cartas todas estavam na mesa e que eu havia feito as jogadas erradas; só me restaria esperar pelo final da partida e assimilar o prejuízo total. Aos 23 anos…

Chegando em casa do feriado, olhei o fax e a secretária eletrônica piscava, com 5 recados. Estranho, quase ninguém me ligava. Ouvi os recados e, para minha surpresa, eram 5 potenciais clientes querendo comprar nosso produto! Liguei para meus sócios e dei a notícia inesperada: estávamos vivos; era prudente tentar mais um pouco e ver aonde aquilo ia dar. O resto, como se diz, é história. Uma história que não foi fácil, mas que foi e vem sendo escrita desde então.

Lembro-me de um outro período, já com um escritório e uma secretária de 18 anos contratada em 5 minutos, candidata única à vaga, e que ficou conosco por 6 anos….No ano seguinte, vendendo como nunca, a empresa que nos fornecia o produto cancelou todas as vendas e deixamos todos os clientes sem produto. Recordo-me de ter dispensado a secretária naquela tarde, tirado o telefone do gancho, sentado no canto da sala, e chorado. Era, decididamente, o fim. No dia seguinte, a Telefónica me ligou dizendo que havia algum problema com nossa linha, porque havíamos recebido cerca de 500 ligações não completadas em uma tarde…

Pensando bem, acho que naquela época era tudo mais fácil. O mundo girava a uma velocidade menor, a pressão não era tão grande como hoje, não tinha internet nivelando as informações para quase todo mundo. Mas talvez esteja apenas sendo saudosista. Talvez o mundo esteja só diferente, mas as oportunidades continuam existindo, só que um jeito novo. Não sei. Devo mesmo estar errado.

É sempre bom olhar para trás e tirar desse exercício uma série de lições. A primeira é nunca esquecer as bases, a origem, as dificuldades que já foram maiores do que são hoje mas que, naquela época, pareciam mais contornáveis do que as atuais. Éramos mais irresponsáveis, mais corajosos, com menos daquele ceticismo que as porradas da vida acabam nos infundindo. E, por isso, podíamos realizar mais do que hoje. Essa é a segunda lição: com o tempo, nós nos tornamos os principais obstáculos de nós mesmos. Ficamos menos permeáveis, nos acomodamos, aprendemos a respeitar as dificuldades (às vezes mais do que deveríamos), sabemos que não somos infalíveis e os melhores do mundo. Ficamos, enfim, com um certo medo e acovardados. E assim reduzimos o nosso horizonte.

A principal lição, creio, é a relativização das dificuldades. Tantas vezes morri e tantas vezes renasci, que simplesmente aprendi a não temer. Sei que estou sendo contraditório, mas como disse Walt Whitman, “me contradigo? Pois bem, então me contradigo!”: por um lado, lá atrás achávamos que tudo podíamos; hoje, sabemos que pouco podemos, ou pelo menos bem menos do que gostaríamos; por outro, naquela época as intempéries eram tidas como o apocalipse; hoje, são apenas contratempos, que, no final, serão de alguma forma contornadas. Vai saber….

Publicado por: marcelopcarvalho | maio 9, 2010

Para que mesmo você tem o seu negócio?

Em San Francisco, conheci na penúltima vez que fui um pequeno estabelecimento (não sei classificá-lo de outra forma: Açougue? Mercado? Restaurante? Bar?) que serve frutos do mar frescos. Trata-se de um espaço de não mais do que 4 metros de largura por uns 10 de comprimento, em que cerca de 20 pessoas ficam sentadas lado a lado, meio espremidas, de frente para um longo balcão atrás do qual os 4 ou 5 funcionários trabalham freneticamente. A decoração é sui generis e o ambiente é meio caótico, como a foto abaixo mostra.

A localização não é das melhores (fica em Nob Hill e a vizinhança é meio barra pesada), não aceita cartões de crédito – um sacrilégio quanto se pensa em Estados Unidos e o conforto, bem… Para se chegar aos banheiros, passa-se por caixotes de peixes em um corredor escuro, onde é possível perceber pôsters de mulheres nas paredes. Não tem sala de espera – quem quiser esperar fica enfileirado na rua mesmo, faça chuva ou faça sol. O atendimento aos clientes que querem um lugar no balcão é feito junto com quem vai lá para comprar e levar frutos do mar frescos – não esqueça que o lugar é antes de tudo um mercado de peixes. Ah, e não é exatamente barato: eu gastei US$ 60 sem muitos excessos.

A entrada é isso aí. E fila na porta...mas você pode tomar um vinho ou uma cerveja enquanto espera.

Quem em sã consciência iria a um lugar desses? A julgar pela fila constante e pelas ótimas avaliações dos guias de viagem (ex: Frommers), muita gente. De fato, o Swan Oyster Depot é uma das jóias de San Francisco, cuja história se confunde com a da própria cidade. Em 2012, completará 100 anos. Hoje, quem toca o estabelecimento são os filhos e netos de Sal Sancimino, que o comprou em 1946 para torná-lo uma referência na cidade.

Qual é o segredo do sucesso? Fui 2 vezes ao local (a segunda foi nessa última viagem, direto do aeroporto!) e acho que já dá para explicar. Primeiro, a comida é excelente. Apesar de simples, tudo ali é de primeiríssima qualidade, desde o pão e a manteiga até as ostras, a salada de carangueijo, o carpaccio de vieiras, os molhos, os vinhos, a cerveja. É uma experiência gastronômica completa para quem gosta de comer (e beber bem). Quem está ali está para celebrar a vida através da comida, tanto que é praticamente impossível você não se socializar com quem está a seu lado: você acaba querendo comentar com alguém e esse alguém também quer comentar sua experiência.

Todas as características negativas colocadas acima servem para filtrar quem vai e quem não vai. Servem para definir o perfil de cliente que eles querem atender. Vai quem está disposto a enfrentar as limitações e desfrutar da comida e da atmosfera. Vai quem conhece. Como me disse uma mulher, os touristas freqüentam o Fishermen’s wharf (local na Costa, cheio de restaurantes para turistas); nós freqüentamos o Swan Oyster Depot.”

Mas pouco adiantaria a comida ser boa se o atendimento fosse ruim, ou mesmo distante ou falsamente interessado, como geralmente ocorre. Percebe-se claramente que a família gosta do que faz, e quer fazer bem feito. E isso faz toda a diferença para criar a atmosfera positiva que combina com a ótima comida.

Os proprietários, que fazem todo o serviço (essa foto eu peguei da comunidade no Facebook)

Comida boa, atendimento nota dez. O terceiro aspecto que explica o sucesso do lugar é justamente a escassez, aliada à peculiaridade própria do estabelecimento. São apenas 20 lugares, e só ali. Certamente, alguém já deve ter pensado em expandir, em criar franquias, etc., em fazer dinheiro realmente a partir dessa proposta de valor bem sucedida. Porém, a unicidade do lugar é parte importante dessa proposta de valor. Não é algo facilmente replicável.

A imagem que me veio à cabeça ao pensar no Swan Oyster Depot é a da primeira loja da Starbucks, descrita no livro do Howard Schultz (aliás, recomendo esse livro para todo mundo que pensa em começar um negócio). Apesar da Starbucks tentar ter essa proximidade com o cliente, não consegue mais. São muitas lojas, muitos funcionários, culturas diferentes, capital aberto, pressão por resultados. Os valores são se perdendo ao longo dessa cadeia complexa.

E, provavelmente, o que a família quer é ficar ali mesmo, curtindo o trabalho, vendo a satisfação dos clientes e ganhando a vida assim.

Nessa última vez, uma japonesa do meu lado, ao saber que eu era do Brasil, disse que havia visto o filme Orfeu Negro e adorado. Esse filme deve ter uns 50 anos! Onde mais essa conversa improvável poderia ocorrer, que não no balcão de um lugar como o Swan Oyster Depot? Do outro lado, um gordão, daqueles que dá gosto ver comer, me recomendou a crab salad. Ao final, lembrei-me do carpaccio de vieiras, que não é exposto no cardápio. Vendo minha situação – não aguentaria uma porção inteira – o atendente disse que eu não poderia voltar para o Brasil sem comer esse prato, e que iria fazer uma porção pequena para mim. O gordão também pediu e quase me agradeceu ajoelhado! E no final, quando pedi para fechar a conta, o atendente simplesmente perguntou o que eu tinha consumido e fez umas contas rápidas num pedaço de papel. É assim.

Tudo isso cria um diferencial que faz com que você considere o local como seu. Esse é talvez o fator mais importante para se criar uma tribo, uma comunidade. E, nessa altura, talvez a comida não seja nem tão exclusiva assim – mas você a vê como tal. E isso é difícil de copiar.

O Swan Oyster Depot criou, de fato, uma tribo (tem inclusive comunidade no Facebook – a Swan Oyster Depot Afficionados) que vai atrás dessa proposta de valor: lugar único, com história, comida excelente, atendimento caloroso, personalização e exclusividade. É também, de certa forma, um bastião de resistência à massificação e à padronização, o que é algo significativo ao se pensar em Estados Unidos, onde tudo é feito para crescer, se multiplicar e dar lucros.

Acho que o exemplo desse pequeno mercado-açougue-restaurante-bar serve para empreendimentos que estão sendo planejados e também para quem já está no mercado. Qual é o público que você quer servir? E quem você não quer servir? Porque as pessoas irão continuamente ao seu estabelecimento? Qual é a sua proposta de valor? Vale a pena crescer? É possível crescer, mantendo a proposta de valor? Porque, afinal, você tem o seu negócio? São questões importantes que um pequeno local na Polk Street nos ensina a pensar.

O carpaccio de vieiras: finamente cortadas, cebola roxa, alcaparras, pimenta do reino e uma outra, tudo no melhor azeite.

Publicado por: marcelopcarvalho | maio 8, 2010

Como Shackleton contratava

O irlandês Ernest Shackleton é considerado um dos maiores líderes que já existiu, apesar de não ter conseguido conquistar quase nenhum dos objetivos a que se propôs. A sua fama mundial ocorreu após a malsucedida viagem do barco Endurance a Antártida, quando ele e sua tripulação sobreviveram durante dois anos, de 1914 a 1916, nos confins gelados do pólo sul, quando o navio foi esmagado pelo gelo e naufragou.

O incrível é que todos os membros da tripulação sobreviveram, não só em boas condições físicas, mas também emocionais. Longe de casa, sob um frio intenso e a 2 mil quilômetros da civilização, a chance do grupo esmorecer ou se dividir eram significativas – quase uma certeza diante de tanto stress e desafio.

Mas havia Shackleton. Para ele, o cuidado com o bem-estar da equipe era essencial, exigindo em troca a lealdade e o trabalho. Essas informações estão no livro Shackleton – Uma lição de coragem, que disseca o estilo de liderança do explorador e que estou lendo. O livro clássico sobre a expedição do Endurance é  A incrível viagem de Shackleton, de Alfred Lansing. Um detalhe interessante é que a expedição, cujo objetivo era cruzar o continente antártico, já que o pólo já havia sido atingido por Amundsen, contava com o fotógrafo Frank Hurley, que documentou de forma brilhante a viagem que tinha tudo para ser trágica. O registro fotográfico dá alma e materializa as impressões que são passadas pelos livros. Neste site, há um belo registro das fotos da expedição.

Shackleton

Entre os aspectos que explicam o sucesso diante de tanta adversidade está o processo de contratação de Shackleton, que era, no mínimo, pouco convencional, embora criterioso: Shackleton dava uma importância enorme para ter pessoas excepcionais em sua equipe, mesclando experiência com juventude, mas sempre tendo o caráter como qualidade eliminatória.

Para a expedição do Endurance,  ele recebeu nada menos do que 5.000 pedidos de interessados, para selecionar cerca de 30 pessoas. A pré-seleção foi feita por Frank Wild, que já havia estado com ele na expedição do Nimrod, que quase havia chegado ao pólo. Wild separou inicialmente os candidatos em “loucos”, “fora de questão” e “possíveis”. Shackleton então analisava a pilha dos possíveis e entrevistava os que achava que tinham potencial. Como ele organizava sua equipe?

  • Formava um núcleo de profissionais experientes: eram confiáveis, faziam o trabalho pesado quando a coisa apertava e criavam uma atmosfera profissional. Shackleton buscou quem ele conhecia, além de recomendações de outros exploradores. Procurava pessoas que exerceriam uma influência benéfica sobre os mais jovens, especialmente nos momento críticos. Um dos homens nessa posição era Tom Crean, que fizera parte da expedição de Scott, salvando a vida de um tenente. Crean tivera uma carreira irregular na Marinha, com rebaixamentos por embriaguês e comportamento inadequado. Com Scott, era apenas marinheiro, mas Shackleton colocou-o como segundo oficial de náutica.
  • Tinha um substituto confiável e leal, que partilhava de suas noções de liderança.  Frank Wild era esse homem. Para Shackleton, Wild tinha tudo que precisava em um número 2: lealdade, bom humor, honradez, força e experiência. Um dos marinheiros disse sobre Wild: “é nosso segundo homem e de longe o mais popular (com exceção de nosso chefe) entre nós”.
  • Buscava pessoas que compartilhavam de sua visão e entusiasmo pela exploração. Nesse sentido, ele queria para o Endurance um comandante meio fanfarrão. Frank Worsley foi o selecionado – era ousado e excêntrico, meio doido até. Mas gostava de uma boa piada e de conversa, o que era importante para atravessar situações difíceis.
  • Fazia entrevistas pouco convencionais para identificar o que queria. Shackleton procurava, acima de tudo, avaliar personalidades. Mantinha conversas descontraídas, em que buscava detectar entusiasmo, otimismo e capacidade de fazer parte de uma equipe. Para um dos candidatos, Raymond Priestley, ele perguntou se sabia cantar e se saberia reconhecer ouro caso o visse. O candidato, surpreso, disse que não, mas foi contratado mesmo assim, apesar de terem diversas pessoas com qualificações maiores do que a dele.  Shackleton viu nele algo que gostava e, de fato, Priestley se revelou um dos membros mais valiosos do grupo.
  • Buscava pessoas otimistas, que tinham maior propensão para o trabalho em equipe. Um dos seus objetivos era encontrar pessoas felizes. Durante a entrevista de Hussey, ele ficou andando de um lado para o outro, parecendo não prestar muita atenção. Depois, disse: “Você serve”.  Hussey disse que o Chefe (como era conhecido) havia dito depois que o contratara porque ele parecia engraçado…De fato, mostrou-se incrivelmente engraçado, tocava banjo e foi importantíssimo para manter o moral elevado durante os piores momentos (além de ter talento, pois vinha de uma expedição ao Sudão).
  • Contratava pessoas que realmente queriam o emprego. Alguns candidatos haviam recebido um telegrama na tarde anterior, pedindo para encontrar-se com Shackleton na manhã seguinte. Dois deles não foram e, de repente, o terceiro apareceu todo molhado, dizendo que estava em outra cidade, tomara vários trens e ali estava. Foi contratado na hora.
  • Buscava gente que trabalhava duro, independentemente da hierarquia. Não havia passageiros no Endurance, todo mundo mais ou menos dividia as tarefas. Médicos ajudavam na cozinha, todo mundo era de utilidade pública. Não havia espaço para prima donnas. Quando podia, testava as pessoas em trabalhos árduos antes de contratar.
  • Contratava quem tinha conhecimentos que lhe faltavam, como cientistas altamente qualificados. No Endurance, tinha um grande fotógrafo (Hurley), um biólogo experiente, um físico de Cambridge, etc.
  • Certificava-se de que todos sabiam o que deles era esperado e, para isso, era muito claro na comunicação, inclusive escrita. Nunca iludia ninguém com falsas promessas, especificava as tarefas, o pagamento, etc.
  • Equipava a equipe com o que tinha de melhor em relação a equipamentos. Sabia que um equipamento ruim poderia colocar a vida das pessoas em risco. Para ele, instrumentos ordinários desperdiçavam tempo e dinheiro. Tudo no Endurance era do que tinha de melhor na época.

Gostei bastante dessas dicas, especialmente em relação às características que valorizava nas pessoas: visão compartilhada, otimismo e entusiasmo, vontade de trabalhar, facilidade de trabalhar em equipe e conhecimento.

O Endurance aprisionado no gelo

Essa foto foi tirada por Frans Lanting, no exato local em que o grupo de 6 pessoas liderado por Shackleton saiu em busca de ajuda em um pequeno bote. No primeiro plano, a foto desse momento, tirada por Hurley.

Publicado por: marcelopcarvalho | maio 5, 2010

Porque Dunga não vai convocar Neymar e Ganso

Esse texto nasce com alguma probabilidade de ser anulado na semana que vem, dependendo da lista dos selecionados a ser divulgada pelo técnico Dunga no próximo dia 11. Quem acompanha futebol sabe que o Santos é disparado o time de melhor futebol e Neymar e Ganso surgiram como há muito não se via no futebol brasileiro. Como Copa do Mundo é momento, como atestam Kléberson, Josimar e muitos outros que apareceram quase que apenas em Copas, é possível que Dunga convoque ambos, além de Robinho, recriando, ainda que na reserva, o trio matador do Peixe. Mais do que possível, seria esperado.

Mas arrisco dizer que não vai acontecer. Não os dois. Talvez um. Mais provavelmente, nenhum. Dunga não é exatamente afeito a manifestações da imprensa e da torcida. Tem sua lógica própria, bem alicerçada em seu sucesso, que sempre fora um sucesso só dele, solitário.

Dunga cunhou uma era – a era Dunga – caracterizada de formas distintas dependendo do ângulo: um futebol feio, defensivo, sonolento, difícil de torcer, que foge ao que o mundo conhece como futebol brasileiro, desconfigurando-o; ou um futebol moderno, físico, eficiente – de resultados, acima de tudo. E ambas as visões estão corretas, como atesta nossa percepção e a própria história.

O atual técnico da seleção é o produto mais bem acabado do trauma de 82. A tragédia do Sarriá, em que um Brasil aparentemente imbatível, um Mike Tison em plena forma, sucumbiu diante da até então opaca Itália, calando a todos nós e marcando uma geração de craques como uma geração de perdedores, cuja frustração muitos de seus protagonistas carregam até hoje (Sócrates é o principal exemplo).

No meio do futebol, a derrota de 82 causou um efeito pendular semelhante a alguém que tem uma enorme desilusão amorosa e decide que o amor não compensa. O futebol casou com a seleção de 82, que o traiu. Após Telê Santana, com uma derradeira tentativa em 86, todos os técnicos que levaram o país a Copas do mundo são frutos dessa desilusão. Tínhamos de imitar os vencedores, os italianos, os alemães, o futebol força que – 82 provou de forma definitiva – prevalecia nesses novos técnicos que comandaram, ano após ano, a seleção brasileira.

E Dunga, sob o comando de Parreira, foi o xerife que nos levou ao esperado tetra, em 94, com um time chato de se ver, mas que – não esqueçamos – tinha Romário e Bebeto em grande forma (Romário convocado no final das eliminatórias, quando o risco do Brasil não ir à Copa assombrava Parreira e a pressão popular era insustentável).

O sucesso particular de Dunga, contestado mesmo diante de sua evidência, criou no atual treinador uma couraça, tornando-o inflexível, arisco e refratário a sugestões e críticas. O treinador criou, praticamente sozinho, a sua fórmula de sucesso, cuja essência é, de um lado, ter jogadores combativos, fisicamente fortes e leais e, de outro, fechar os olhos e ouvidos para sugestões daqueles (torcida e imprensa) que sempre o criticaram: ele já deu certo assim e, em sua forma de raciocinar, é a única maneira de dar certo. E Dunga trabalha com padrões aprendidos e aplicados com afinco; não é alguém que tira os pés do chão para, quem sabe, alçar vôos mais altos. Vai passo a passo, tendo a certeza do que vê pela frente. Não é afeito a surpresas; aprende, planeja e executa. “E se…” não existe em seu vocabulário.

Essa é a coerência de que tanto fala. A coerência de seguir o seu roteiro, que já se provou eficiente para o objetivo em questão – ganhar o Mundial – sempre contra tudo e contra todos, o que certamente reforça suas certezas mais íntimas. Às favas o que os outros pensam; farei do meu jeito e, se não conseguir, que me critiquem depois, já disse mais de uma vez.

Mais do que ser coerente com um trabalho realizado ao longo de anos, o que Dunga busca é ser coerente consigo mesmo, sob o risco de perder-se a si próprio caso ceda a apelos de terceiros, ainda que potencialmente corretos. Não quer correr o risco de entrar em um terreno pantanoso e de repente deixar de ser Dunga. E isso reflete-se em seus atos. Parece ter uma objeção pronta antes de vir qualquer sugestão; tem um ataque elaborado antes mesmo de receber a crítica; está quase sempre de mau humor, irritado, irônico e cínico, mesmo diante (talvez principalmente) das vitórias, como se o sucesso fosse mesmo só dele, não cabendo a ninguém mais desfrutá-lo.

Nesse sentido, talvez a forma mais fácil de ter Neymar e Ganso seja justamente não pedir pela convocação de ambos: Dunga, fique com Grafite e Júlio Batista, são muito melhores! Talvez assim Dunga os convocasse; seria coerente com sua postura de herói solitário e injustiçado.

No caso de Neymar e Ganso, provavelmente há ainda o efeito 82. Imagino Dunga vendo Santos e Santo André e revivendo o Brasil e Itália de 82, que lhe ensinou que o título residia na maneira oposta de se jogar. Até o placar dos dois jogos foi igual – 3×2! Não fosse o primeiro jogo, a final do Paulista teria sido de uma assustadora semelhança ao trágico jogo que teve o poder de definir a forma de jogarmos futebol desde então.

Imagino Dunga reforçando suas teses – na hora do “vamos ver”, é preciso defender, é preciso ter jogadores fortes e disciplina, de nada adianta extrema habilidade se nada disso existir. E, claro, Neymar e Ganso, e mais Robinho, são o que mais se parece com 82 nas últimas duas décadas: habilidade, improvisação, extrema auto-confiança, irreverência e até insubordinação, como quando Ganso se recusou a deixar o campo quando ia ser substituído.  E, em sua lógica tosca mas legítima, isso não é nada bom – para Dunga, o sinônimo disso tudo é irresponsabilidade.

Dunga tem dificuldades de entender que há algo até mais importante do que o título, ou ao menos algo que o precede; criar uma equipe que seja de fato a querida pela torcida, aquela que a represente, aquela que valha a pena torcer. Ocorre que ninguém nunca realmente torceu por Dunga; tivemos de engoli-lo, assim como aos técnicos Parreira e Zagalo, além de muitos jogadores que vestiram a camisa amarela nas últimas Copas.

Por todas essas razões, Dunga não deve convocar os astros santistas. Não faria sentido para ele. Mas…

Mas Dunga é, acima de tudo, jogador de futebol. Deve ter tido seus ídolos na infância, que devem ter sido os craques do passado. Deve saber, lá no íntimo, que sem um Romário em estado de graça ou um Ronaldo dando uma volta por cima que ninguém esperava, fica difícil fazer um time de guerreiros brasileiros ser vencedor. Talvez seja, por fim, um amante do futebol, a ponto de jogar suas convicções para o alto e fazer o óbvio, convocando os jogadores que mais estão se destacando no momento. Talvez seja injustiçado como diz; talvez, enfim, seja melhor do que achamos que seja. Essa é a esperança que resta, sob o risco de termos de torcer para um time formado quase que por onze Dungas, agora disfarçados de Felipes Melo, Michéis Bastos, Josués, Júlios Batista, Adrianos, Klébersons, Elanos, Gilbertos Silva e muitos outros.

foto: http://varandablog.wordpress.com

Publicado por: marcelopcarvalho | abril 29, 2010

Certezas e incertezas, presente e futuro

Dando continuidade ao post anterior, eis a minha história, apresentada como trabalho de conclusão do workshop de fotografia que fiz na Califórnia. O trabalho era apresentar uma história a partir de 5 a 7 fotos tiradas durante o workshop. Tema livre, fotos livres. Um desafio, portanto.

Procurei trabalhar com quatro conceitos: presente e futuro, certezas e incertezas. Na verdade, sobre as mudanças pelas quais todos nós passamos, e que nos afetam, demandando um novo equilíbrio, que nem sempre vem imediatamente. Nas fotos, o primeiro plano representa o presente, o horizonte ou segundo plano representa o futuro. O foco representa as certezas, o fora de foco representa as incertezas.

Há momentos em que temos certeza de tudo. Tudo é claro, brilhante, quase perfeito. Não há dúvidas, não há preocupação com o futuro. O presente ocupa todos os espaços e parece eterno. Podemos tudo, somos imortais, o instante parece eterno. Sim, há momentos ou fases como essa, e a foto que usei para expressar isso foi essa:

Mas as coisas não são assim. O mundo se movimenta, os fatos se apressam, tudo, no final, tende à desordem. O nível de entropia sempre cresce, define a física. E contra a física, não adianta teimar. Por vezes, navegamos em águas turbulentas, que nos levarão a lugares inesperados e a princípio indesejáveis. A mudança é inerente à vida, mas como a tememos…A foto que usei para expressar a mudança foi essa:

E então começamos a nos confundir, a perder as referências. O futuro já é não tão claro como antes. O que vem por aí? As certezas do início, de repente, se perdem e o futuro assusta. Perde-se a harmonia e tudo parece vir em alta velocidade, um redemoinho inesperado e sem saída:

A mudança, enfim, nos atordoa. Nem presente nem futuro ficam claros, as referências são perdidas de vez e nos vemos à deriva, longe de encontrar um porto seguro. O que deu errado? Como perdemos o chão, se estávamos tão ancorados? Tudo era perfeito – ou, aos olhos de agora, pareciam… Nesse momento, tudo se mistura de forma caótica, e o que vemos é apenas uma imagem do que deve ser a realidade:

Ainda, o temor persiste, algo tenebroso, escuro. Mas a harmonia começa a voltar, começamos a vislumbrar onde estamos, é o início da transição: (observação: o Frans Lanting achou que essa imagem poderia ser suprimida, apesar de belíssima; mas como eu era o dono da história e queria incluir de qualquer jeito, ele deixou…rs).

De repente, aos poucos, tudo começa a se encaixar. Um novo equilíbrio se estabelece. O presente volta a ser belo e harmônico. E o futuro, embora distante e, então aprendemos, incerto, será uma sequência natural do presente:

Enfim, é preciso entender que tudo flui, tanto os melhores como os piores momentos. E que o segredo é não complicar aquilo que, no fundo, pode ser simples:

Foi mais ou menos isso que apresentei, levando em conta as dificuldades de apresentar isso em inglês. Tenho a impressão que foi a que mais repercutiu, assim, nas pessoas. Afinal, todo mundo já passou por processos difíceis, seja no aspecto pessoal, profissional, ou na família. Todo mundo perdeu o chão, para depois recuperar lá na frente, de uma forma diferente e, não raro, melhor do que antes.

Publicado por: marcelopcarvalho | abril 28, 2010

Every picture tells a story

Na semana passada, participei de um workshop avançado de fotografia ministrado pelo Frans Lanting, em Santa Cruz, Califórnia. Para dar uma referência, Frans Lanting é um dos maiores fotógrafos de natureza da história, um dos ícones da National Geographic. Ele faz com que cada imagem passe uma mensagem muito mais ampla do que simplesmente um belo registro. Por trás de cada foto, uma história – o tema do workshop.

Abaixo, um exemplo disso. Em uma manhã com neblina em uma das ilhas de Galápagos, ele conseguiu criar uma foto que remete nosso imaginário ao tempo em que os répteis dominavam o planeta, uma ligação direta com o que Galápagos representa para a evolução das espécies (além de ser uma imagem belíssima por si). Isso é fazer arte a partir da natureza – a essência da fotografia de paisagem ou de natureza.

Fui, junto com outras 14 pessoas, atrás de um pouco dessa visão poética, da estética perfeita e da técnica refinada, sem saber ao certo o que iria encontrar, até porque sou novo nesse negócio, ainda mais com alguém desse nível. Chegando lá, vi que os alunos eram também muito bons: vários fotógrafos profissionais, bem como amadores bem sérios, com grande experiência, muito talento e recursos. Um grupo heterogêneo: um norueguês, uma alemã que mora na Namíbia, um chileno e um indiano que moram nos EUA, um americano que mora na Costa Rica, e o restante norte-americanos mesmo.

Vendo a qualidade do pessoal, não tive como não me sentir  meio intimidado; afinal, quer queira, quer não, está todo mundo ali para dar o seu melhor. Há uma certa competição inerente ao comportamento humano e o medo de fazer feio. E eu era um dos únicos para quem a fotografia é hobby, além de ser um dos que tinha menos experiência, afinal fotografo há um ano apenas, nas poucas horas vagas. Essa tensão inclusive foi tema da apresentação final feita por uma das participantes que, emocionada, mostrou seus temores e sua evolução ao longo do workshop, comparando-o a uma batalha.

E foi mesmo, a começar pela intensidade: foram quatro dias das 5 da manhã às 8 da noite, sem intervalo (o almoço era um sanduíche ingerido na frente do computador, bem ao estilo americano). Sessão de fotos na praia, na floresta, no jardim botânico, palestras, edição das fotos no computador,  revisão e análise das imagens, mais sessão de fotos, etc. Todo mundo esgotado fisicamente e também mentalmente – uma verdadeira batalha!

Batalha também no sentido de tentar saltar de nível, que é o que um workshop desses se propõe: logo no primeiro dia, depois da primeira sessão de fotos, mostrei ao Frans uma das fotos que tirei e que gostei. Ele me olhou e disse: “well…yes…very basic. You have to raise your standards”.  Era uma mostra do que viria pela frente.

De início, um certo desânimo. Você perde um pouco suas referências. O que é bom e o que nao é? De repente você está ali tentando ser tão bom como o instrutor, tirar fotos como as melhores que ele já tirou e que estão expostas em suas galeria, sem se lembrar que aquilo é o supra-sumo de décadas de trabalho de alguém que é extremamente competente no que faz. De repente, você esquece que tem um olho próprio, um estilo, e começa a querer ser como o professor (talvez para buscar aprovação).

Também, tem a questão dos equipamentos. Refletores, difusores, flashes, gels, filtros, etc. que fazem com que você fique se perguntando se conseguirá produzir alguma coisa somente com a câmera na mão. Eu particularmente não conhecia nada disso e vi como uma boa produção às vezes é fundamental para fazer uma foto realmente diferenciada, como transformar uma imagem em obra de arte.

Aos poucos, as coisas começaram a ficar mais claras. Frans e seus três assistentes, Paul, Kevin e Jason, todos fotógrafos, nos dão o apoio necessário, olham nossas imagens, dão sugestões, e elogiam quando conseguimos um bom resultado. Intuitivamente, começamos a perceber nosso estilo, e Frans nos auxilia nesse sentido, sem querer impor a sua forma de ver as coisas, mas nos fazendo ir mais longe.

Começa a fazer sentido o tema do workshop: Every picture tells a story. Frans nos mostra como contextualizar as fotos, como fazer com que as imagens contem uma história impactante. A fotografia, no final, é uma linguagem visual, tem a missão de passar uma mensagem. Uma foto isolada pode ser apenas uma bela imagem; um conjunto de fotos cria uma história. Nem sempre as melhores fotos fazem parte da história. Conversando com Frans, ele me mostra um quadro com uma foto belíssima de elevantes ao por-do-sol, na África. Ele diz que essa foto nunca foi publicada em nenhum lugar, apesar de uma imagem incrível; simplesmente não encaixou em nenhuma história. “That’s why I have it here in my wall”, brincou ele. Há também o oposto: uma foto somente ok pode vir  a se encaixar perfeitamente em uma história. Tudo depende do contexto.

Enfim, a prova final: cada um de nós teve de montar uma história, com 5 a 7 fotos no máximo, a ser apresentada por 5 minutos ao final do workshop. A partir do segundo dia, tínhamos um olho nas fotos e outro na história.

Fiquei surpreso com a qualidade de tudo o que foi apresentado, inclusive do que eu apresentei, que acho que impactou os participantes de alguma forma. Ao final, todo mundo havia mudado de nível, não só na contextualização, mas no emprego de técnicas pouco convencionais, que fogem do lugar comum. O objetivo do Frans era nos fazer pensar fora da caixa. Tudo pode na concepção criativa, dependendo do que você vai querer passar com a imagem.

Ao final, uma imagem como essa!

Por fim, algumas percepções adicionais que levo para casa:

-       Como qualquer forma de arte, é preciso talento, mas acima de tudo prática, paciência e busca da excelência. O suficientemente bom não serve. Vi gente 2 ou 3 horas fotografando uma única imagem nesse curso, até ficar 100%. Devo ter tirado umas 2 mil fotos; se consegui 30 muito boas para o meu padrão, está ótimo. Em um dos dias, um sub-grupo do curso ficou até 9:00 da noite em umas pedras em uma praia gelada do Pacífico, até obter o que queria.

-       E, claro, é preciso às vezes um pouco de sorte para estar no lugar certo na hora certa.

-       Equipamento extra pode ajudar às vezes, mas obviamente muitas boas imagens são produzidas sem grandes aparatos. Mas os brinquedinhos são bem legais….:-)

-       A pós-edição das imagens pode ser muito importante para passar de forma mais efetiva uma mensagem, ou para deixá-la esteticamente mais atraente. É como o processo de revelação do filme. Há um preconceito com Photoshop, etc, até justificável porque muitas vezes se foi longe demais com isso, deixando a imagem “fotoshopada”. Mas programa algum vai corrigir uma composição que não funciona, com uma luz ruim ou que esteja sem foco. E pequenos ajustes podem realmente fazer uma boa imagem ficar excelente. É como lapidar um diamante.

-       Às vezes um lugar aparentemente banal rende imagens incríveis.

-       Cada foto conta uma história, e cada pessoa faz uma foto diferente. Todo mundo no mesmo lugar, na mesma hora, e cada uma vinha com uma imagem distinta. Não existe o certo ou errado, desde que funcione como imagem. Eu olhava as fotos que os colegas tiravam e pensava: uau, nunca vou conseguir tirar uma foto dessas – maravilhosa! Mas comecei a perceber que eles olhavam as minhas e também se impressionavam; talvez pensassem o mesmo. Ali, vi que tinha meu estilo, que não era melhor nem pior do que os demais. Todos tinham coisas muito boas, mas muito diferentes entre si (ok, como em qualquer forma de arte, alguns estavam realmente acima dos outros).

Ao final, a sensação de evolução, de mudança de patamar, de ver a fotografia com novos olhos. Acho que todos saíram com essa sensação. Frans Lanting, além de grande fotógrafo, é um grande mestre. E nada mais recompensador quando um grande mestre olha algumas de suas imagens e diz: ”this image is gorgeous; congratulations, it was beautifully done!”

Publicado por: marcelopcarvalho | março 28, 2010

Sobre fins e recomeços

No final de semana passado, fui para Tiradentes, em Minas Gerais, descansar e fotografar. Acho que não conhecia Tiradentes – talvez já tenha ido em uma excursão do colegial, mas se fui, estava certamente interessado à época em outras coisas – e minha vontade de conhecê-la cresceu depois que li um dos livros do Eduardo Giannetti, todos escritos em longos retiros feitos na vila colonial, hospedando-se no antigo Solar da Ponte.

Solar da Ponte

Um conjunto de circustâncias me fez ir para lá e, claro, fiquei hospedado no mesmo Solar da Ponte, uma casarão histórico localizado perto do centrinho e que prima pela exclusividade e pelo bom gosto. Cada quarto (a pousada possui 18) é decorado de um jeito diferente e pude entender perfeitamente porque o Giannetti hiberna nesse lugar para escrever seus ensaios. Talvez em me sinta também inspirado por lugares como esse, guardadas as devidas proporções.

Como você pode ter percebido, não tenho escrito muito, nem fotografado. Essas coisas – a inspiração, a vontade de escrever ou fotografar, a auto-avaliação favorável do trabalho, a ponto de se permitir expor – vêm em ondas, e em parte fui para Tiradentes em busca de uma nova onda.

Tiradentes de noite, com chuva, vazia

Tiradentes é uma espécie de Paraty das montanhas, porém menos badalada. Mas não é sobre Tiradentes que quero escrever – há montes de textos na internet, e minhas fotos aqui, no Facebook e no Flickr falarão melhor do que minhas palavras.

Quero escrever sobre uma mesa. Uma mesa grande, rústica, de peroba maciça com pés de braúna carregados de história. E que agora me acompanhará, seja onde for.

No domingo, andando meio que sem rumo definido pela cidade, fui atraído por um atelier (o único que entrei, tanto lá quanto na vila vizinha de Bichinho) faceado por um belo gramado com árvores, na lateral mais escondida do Solar. Vendo minha indecisão (entro ou não entro? Afinal, definitivamente não vou comprar nada. Não, o momento não é de comprar nada. Ando gastando muito já, estamos investindo na empresa, os desafios deste 2010 são grandes e, ainda por cima, nem sei ainda onde vou morar, já que supostamente estou de mudança de cidade), a proprietária me convidou dizendo que não custava nada entrar.

A casa/atelier à direita, atrás das árvores

Entrei. Tocava MPB, e o atelier, que na verdade era a casa da artista, abria para um jardim muito integrado com a casa antiga, com piso de madeira e diversos móveis o objetos: tudo à venda. Ela me explicou: estavam de mudança para Portugal, decidiram partir e vendiam tudo – móveis, objetos de arte, utensílios, muita coisa antiga, garimpada nos lugares  mais improváveis: uma luminária italiana adquirida em uma estação ferroviária a ser demolida, por exemplo, e daí por diante.

Em um dos cômodos, a mesa. Olhei para ela, fizemos um comentário qualquer, e continuei andando, percorrendo a casa e me perguntando porquê partiriam, porquê sairiam daquele lugar que parecia perfeito, para que ir a Portugal começar tudo de novo? A necessidade de recomeçar não respeita esse tipo de coisa, pensei.

Capela, de noite

Depois de percorrer toda a casa, perguntei o preço da mesa. Não sei porque perguntei – afinal não havia a menor chance de comprá-la, pelos motivos já expostos. Pelo que era, não parecia caro, ainda mais depois de saber que os pés de braúna vieram de uma ponte construída por Juscelino Kubitschek em sua cidade natal – Diamantina – quando este fora governador de Minas Gerais (início da década de 50), e que ela havia comprado quando a ponte foi demolida.

Saí, nem telefone peguei. Afinal, se não iria comprar a mesa, para que perder tempo ou gerar expectativas nela e em mim? Fui embora, voltei para BH, onde tinha um congresso.

Foi quando as coisas começaram a mudar. Comentei com alguém sobre a mesa de Tiradentes e fui recebido com um “você tem que comprar essa mesa!”. E o pior é que eu sabia que tinha. Na verdade, já tinha comprado no mesmo momento em que a vi. O resto todo foi só o processo de adaptação ao fato, talvez a tentativa de resistir a algo que, a princípio, não teria qualquer sentido de ser.

Liguei para o Solar e pedi para irem até lá pegar o telefone. A proprietária sabia de quem se tratava assim que o pessoal foi lá – talvez ela também já soubesse (Fechei o negócio nesse domingo à noite. Ela me disse que já vendera 60% e que provavelmente iria adiantar a partida. Havia reservado a mesa para mim até essa segunda. Fiz uma boa compra, ela disse. Por estar enganado, mas acho que ela gostou de “eu” ter comprado a mesa. Conforta dar um bom destino mesmo para o que não nos serve mais.).

Não sei exatamente porque comprei a tal mesa. Racionalmente, me convenci de que se tratava de um bom investimento. Uma mesa dessas em São Paulo custa bem mais caro – a artista mesmo me disse isso. Pronto, estava justificado o investimento. Mas obviamente não foi isso que me motivou, afinal há inúmeros investimentos bem mais simples de se fazer do que comprar uma mesa de 2,38m sem ao certo saber para onde levá-la.

Tiradentes

Estranhas essas coisas, essas vidas que se cruzam ou se tocam sem razão aparente, e deixam alguma coisa uma para a outra. A artista, por razões que não sei e nunca vou saber, decidiu recomeçar em outro lugar, despindo-se dos pertences que não mais lhe são úteis, ou que lhe trazem lembranças que convém ser esquecidas, vai saber. Entre esses despojos, uma mesa que, por alguma razão que igualmente desconheço, elegi meio que ao acaso como símbolo de um recomeço qualquer, vai saber. Os restos que representam um fim para uns é a matéria-prima da reconstrução para outros. O que descobriu mesmo Lavoisier?

Olhando para frente, vejo mais dúvidas do que certezas. Ainda não sei onde vou morar, mas sei que onde for haverá comigo uma mesa centenária, uma peça única, uma obra de arte, carregando as marcas do tempo, ancorada em pés fortes de braúna que lhe darão a sustentação necessária, tal qual suas raízes um dia lhe deram.

A mesa

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