Em abril, tive a oportunidade de visitar a Costa Rica, por conta de um evento profissional. Cheguei um final de semana antes de meu compromisso e, como de costume, procurei algum programa diferente, que me permitisse conhecer um pouco da natureza desse pequeno e bem sucedido país da América Latina.
Decidi fazer um rafting no Rio Pacuare que, segundo me foi informado por locais (os costarriquenhos aprenderam a vender muito bem o seu país), estava entre os 5 melhores rios do mundo para a prática desse esporte.
Lá fui eu. Depois de 3 horas sacolejando em uma van, chegamos às margens do rio turbulento que, pelas próximas 4 horas, seria nossa estrada. Nunca tinha feito rafting, mas no momento de subir no bote, logo sentei na primeira fila (se é para fazer, que seja da forma mais plena possível!).
Do meu lado, sentou um americano de uns 50 anos, que já havia descido rios pelo mundo afora, incluindo o perigoso Zambeze, na África, teoricamente um dos mais difíceis. Fiquei ao mesmo tempo tranqüilo e impaciente; tranqüilo, por ter a meu lado um expert que, de fato, me ajudou bastante; impaciente pela responsabilidade de ter como par alguém que entendia do negócio.
Como não me lembro de seu nome, vou chamá-lo de Jeff. A descida do rio foi bem sucedida e, de qualquer forma, esse texto não é sobre rafting ou aventuras. É sobre Jeff e os americanos. Nos poucos momentos de calmaria na travessia, Jeff me relatou que era casado, tinha dois filhos, e que, nos últimos 4 anos, havia feito duas voltas ao mundo, de mais ou menos 1 ano e meio cada. Os filhos, pequenos, estudavam por correspondência. Jeff não era um rico excêntrico. Quando o questionei sobre dinheiro, trabalho, essas coisas que sempre nos prendem à nossa vida normal, até medíocre perto da dele, Jeff simplesmente respondeu que arrumar trabalho nunca fora difícil (bem, talvez agora seja…rs).
As voltas ao mundo de Jeff não eram convencionais. Ele ficava 3 ou 4 meses em países como Nepal, Índia, ou no meio da África. Ia e ficava meio que de acordo com o que encontrava. Isso tudo com dois filhos pequenos e a esposa. Definitivamente, não fazia o circuito Europa-Austrália-América do Norte, mas sim um que, mesmo para nós, soaria amedrontador. Ele me disse que, por essa experiência, seus filhos tinham uma visão completamente diferente do mundo, quando comparados aos americanos médios (que, depreende-se pela sua fala, mal sabem onde ficam o México e o Canadá).
Na hora, senti uma certa inveja de Jeff. Não por querer e não poder fazer esse tipo de coisa, mas pela liberdade que aquele americano de fala tranqüila havia conquistado para si. Mais do que isso: havia escolhido esse caminho.
Não há muitas pessoas assim no mundo. Conheci um outro americano, professor universitário e que havia morado por alguns meses no Chade (no norte da África) que, em uma viagem pelo interior do Brasil, preferira comer nas espeluncas onde o grosso da população comia, do que nos restaurantes das classes mais abastadas. Ele queria ver como era ser brasileiro. Outro americano nada típico.
Parei para pensar se havia muitos americanos com essa filosofia de vida, tão oposto ao estereótipo do americano médio que, segundo se alega, tem pouca curiosidade e conhecimento a respeito do resto do mundo. Questionei-me se esse estereótipo não seria exagerado, ou se, em outros países, a proporção de cidadãos globalizados e sensíveis às diferenças não seria também reduzida. Aqui, por exemplo, quando alguém leva a vida que Jeff leva, vira best-seller e consultor empresarial (Família Schürmann).
Em seu bom livro The Post-American World (já lançado por aqui), Fareed Zakaria, indiano radicado nos Estados Unidos e editor da Newsweek International, argumenta que os americanos terão sérios problemas de se integrar em um mundo globalizado e que terá uma divisão mais clara do poder econômico e político: em algumas décadas das 4 maiores economias mundiais, 3 serão asiáticas. Ele diz que por terem permanecidos isolados pelos oceanos e focados em uma economia interna muito robusta, os americanos “se esqueceram” do mundo que, agora, terão de lidar de forma mais integrada e cooperativa. Só falam uma língua, conhecem pouco de geografia e história mundiais, e por aí vai.
Essa, aliás, é a visão dominante de quem analisa esse contexto. Acredito, porém, que essa unanimidade pode esconder uma miopia. Primeiro, os americanos são extremamente pragmáticos e competitivos. Aprenderão rapidamente as regras do novo jogo, ainda que saiam atrás. Além disso, há os Jeffs esclarecidos que compõem a elite intelectual do país. Podem não ser maioria (aonde são?), mas certamente exercem um poder de influência significativo.
Depois da conversa com o Jeff, saí desconfiado de que os americanos ainda podem surpreender. Poucos meses depois, a confirmação: Barack Obama é eleito presidente dos Estados Unidos, a multidão vai às ruas, com grande comoção. Tudo bem, os críticos dirão que foi a crise, a incompetência de Bush e a apatia do McCain, mas acho que não. A eleição de um presidente negro, imigrante e cujo nome, ironicamente, é parecido com o do inimigo número 1 dos Estados Unidos, talvez represente o começo da adaptação do país a essa nova realidade. Não devemos subestimar os americanos.



Marcelo, interessante como de um encontro casual podemos aprender e analisar algumas das varias facetas do mundo.
A tendencia do ser humano moderno é se acomodar, mas o Jeff parece ser um ponto fora da curva. Como tudo na vida escolher é também desistir. No mundo de hoje não é fácil desistir, pelo contrário o que vale é ter tudo. Algo impossível, mesmo para os mais afortunados.
Obrigado pelo momento de reflexão.
abraço
Paulo
MBA Turma 26
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