Publicado por: marcelopcarvalho | dezembro 7, 2008

O lado menos nobre da liderança

Um dos temas mais estudados no mundo dos negócios e das relações humanas e, mesmo assim, ainda mais nebulosos, refere-se à liderança. No passado, alguns autores afirmavam que era  possível identificar até características físicas que poderiam ser atribuídas aos líderes. Isso se verificou um erro – Malcolm Gladwell, em Blink, por exemplo, mostra que pessoas mais altas têm mais chances de chegar a posições de destaque do que pessoas de menor estatura, sem que isso tivesse qualquer relação com competência para a função.

Diversos autores procuraram analisar características comportamentais que pudessem estar relacionadas à liderança, muitos deles se tornando best-sellers, com teorias extremamente eficazes do ponto-de-vista mercadológico (afinal, muita gente gostaria de ser um verdadeiro líder). James Hunter, com seu Líder Servidor, em que o verdadeiro líder é aquele que serve aos outros. Jim Collins, com seu Líder Nível 5 , mostrando que os líderes-celebridade, carismáticos ou super-homens são menos eficazes do que líderes mais humildes, que raramente aparecem, que são apaixonados pela empresa (e não por si) e que são altamente focados nos resultados. É uma teoria que se choca com aquilo que se imagina: líderes carismáticos (os Nível 4, segundo Collins), que atraem as pessoas como imã,  em nosso imaginário tendem a ser os mais eficazes. Tenho certa dificuldade em aceitar que os líderes Nível  5 não são ambiciosos quanto ao sucesso. Acredito que o sejam, e muito, embora o reconhecimento que queiram ter talvez seja interno. Mas tudo bem, de qualquer forma quem não leu ainda, deve ler “Feitas para Vencer” que com certeza não perderá seu tempo.

Embora seja provável que os líderes efetivos devam partilhar de certas características comuns, talvez o perfil de liderança ideal seja impossível de se determinar. Primeiro, é possível haver várias maneiras distintas de se chegar lá, isto é, de obter alta performance de sua equipe. Segundo, dependendo do momento, um determinado perfil pode ser mais adequado do que outro.

Trago aqui, porém, uma faceta diferente da liderança, raramente abordada nos livros de negócios (e você vai saber o porquê). Para obtê-la, recorri à literatura. Trata-se de um diálogo entre dois personagens, tio e sobrinho (já crescido), do livro Desvarios no Brooklin, de Paul Auster.

No diálogo, Nathan, o tio, comenta com o sobrinho que os malandros e espertos tendem a liderar o mundo:

 “(…)Vigaristas e trapaceiros governam o mundo. O planeta é dos malandros. E sabe por quê?”

“Diga-me, Mestre. Sou todo ouvidos.”

“Porque eles têm mais fome do que nós. Porque eles sabem o que querem. Porque eles acreditam mais na vida do que nós.” (…)

“Pense em Esaú e Jacó. Lembra deles?”

“Ah, sei. Certo. Agora está começando a fazer sentido.”

“É uma história horrenda, você concorda?”

“Claro que sim. Tenebrosa. Tive problemas com ela, quando criança, que não acabava mais. Eu era um sujeitinho tão moralista, tão certinho, na época. Eu não mentia nunca, não roubava nunca, não colava, não dizia uma palavra para ofender ninguém. E lá estava Esaú, um baita de um palerma como eu. A se acreditar no que é certo, todas as bênçãos de Isaac deveriam ir para ele. Mas Jacó monta um embuste para que assim não seja – e com a ajuda da mãe, ainda por cima.”

“Pior, meu caro, porque Deus parece aprovar esse arranjo. O desonesto, o trapaceiro Jacó vai ser o líder dos judeus e Esaú é largado para trás, um homem esquecido, um ninguém sem o menor valor”.

(….)”O mau vence e Deus não o pune. Não me pareceu certo. Continua não me parecendo certo.”

“Mas claro que é. Jacó tinha a centelha da vida dentro de si, ao passo que Esaú era um bocó. Um coração de ouro, é verdade, mas um bocó. E, se você precisa escolher um deles para liderar seu povo, vai optar por aquele que luta, por aquele que sabe lançar mão de estratagemas, pelo esperto, pelo que tem energia para superar os reveses e dar a volta por cima. Você sempre escolhe o forte e o inteligente, nunca o fraco e o bondoso.

“Isso é de uma brutalidade ímpar, Nathan. Leve seu argumento um pouco mais adiante e daqui a pouco estará me dizendo que Stalin deveria ser venerado como um grande homem.”

“Stalin foi um bandido, um assassino psicótico. Eu estou falando a respeito do instinto de sobrevivência, Tom, sobre a vontade de viver. Eu prefiro um malandro ardiloso a um caxias consciencioso a qualquer hora do dia ou da noite. Talvez o malandro não jogue segundo as regras, mas ao menos tem espírito. E onde houver homens com espírito, haverá esperança para o mundo.

Polêmico, não? Acredito que as pessoas prefiram de ser lideradas por pessoas de espírito, que querem chegar mais longe, que são mais espertas (se você acha que não, pense no Geraldo Alckmin – correto, competente, mas…). Auster, claro, usa o exagero para que o leitor reflita. Se não é exatamente da forma que Nathan coloca, ao menos algum fundo de verdade existe. Pensem nas empresas. Quem não conhece líderes  espertos, em algum grau ardilosos, que chegaram lá pela ambição e, nesse caminho,  pela utilização de métodos não exatamente leais? E que, por essa vontade desmedida, acabam atraindo as pessoas?

É, sem dúvida, um terreno pantanoso. O que, nesse comportamento, é aceitável ou o que passa dos limites? Em outras palavras, até que ponto a ambição, a “centelha da vida”, “o espírito” mencionado por Nathan é um fator positivo, mobilizador, e quando deixa de ser tudo isso para ser considerado anti-ético e condenável?

Há limites – como a lenda de Ícaro que, dotado de asas feitas com penas de pássaros, se aproximou demais do sol, que as derreteu, jogando-o ao mar. Qual seria o limite? Difícil determinar, mas ele certamente existe.

Esse espaço não teria razão de ser se não fosse utilizado para trazer visões distintas daquilo que constitui o lugar comum. Se analisarmos com isenção, as características retratadas no livro de Paul Auster estão presentes em muitos dos líderes que conhecemos e que, curiosamente, são pouco discutidas ou mesmo mencionadas na literatura sobre o assunto.

 

 

 


Respostas

  1. [...] do que o Luxa.  Talvez seja pelo fato dos “malandros” quererem mais da vida, como já escrevi citando Paul Auster no ótimo Desvarios no Brooklin. Na hora do vamos ver, as pessoas preferem os malandros que vão [...]

  2. Deu show!

    Em se tratando de Brasil, é muito simples identificar que os líderes carismáticos são muito mais aceitos, não só organizacionalmente, mas na sociedade em geral: os “malandros”, aqueles simpáticos possuidores do “jeitinho brasileiro” tornam-se referência. O tipo “Zé Carioca” da rua, sempre vai ter mais seguidores do que o tipo “Nerd”, inteligentíssimo, mas bocó, a que você se referiu, mas isto deve-se ao valor a que o povo brasileiro dá às relações pessoais, quem tem mais lábia leva a fama. Um sujeito técnico-impessoal não tem muito ibope por aqui.

    Existe alguém mais cara-de-pau que o Maluf?!?!? Rs! Pois é, ele tem milhares de seguidores ferrenhos por toda a parte! Nosso belo exemplo de liderança que “rouba mas faz”! :/

    Esta aceitação é marca registrada e mais que estampada na cara de nossa sociedade, infelizmente.

    Enfim, malandragem à parte, para conhecer um verdadeiro líder, não há receita pronta, só tem um jeito, como já diziam os sábios antigos: “Se quiseres conhecer verdadeiramente alguém, dê-lhe poder”.

    Um abraço!
    Naira

    • Oi Naira,

      Obrigado!! Acho que o Maluf cai mesmo para o lado de lá, é aquele limite tênue entre a esperteza-querer-algo-a-mais e a esperteza-desonesta. O apoio que ele tem é fruto da descrença geral no sistema, na falta de cidadania. Mas lembre-se que há anos ele não ganha eleição importante nenhuma, e sequer passa dos 10%. Ou seja, seu séquito está diminuindo. Há esperança…

      Não sei se o que é preciso é o carisma. Acho, hoje, até que não é. O que precisa é coragem, isso é que influencia as pessoas. Mas é uma looonga conversa, né?

      Abraço,

      Marcelo

  3. [...] conta é o resultado, não o processo. Lembrei aqui de um post antigo que escrevi sobre liderança (O lado menos nobre da liderança), em que menciono um trecho que gosto muito em um dos livros do Paul Auster, falando justamente [...]


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