Ontem (19/12) fizemos a reunião de final de ano na empresa. Ao contrário dos outros anos, fizemos uma reunião relativamente rápida, objetiva, sem aquela montanha de informações e planos que se costuma apresentar nessas ocasiões. É uma evolução: ao invés de produzir bíblias inúteis de promessas que se perdem logo na virada do ano, optamos por comentar como foi 2008, nossos acertos, nossas vitórias, nossos erros, e também falar sobre alguns projetos para 2009. Sem muito detalhamento; resolvemos trabalhar mais e nos reunir menos!
Outra mudança foi terminar a reunião com um exemplo do mundo real que pudesse nos servir de inspiração. O exemplo desse ano foi o ouro de Maurren Maggi em Pequim, no salto em distância. Confesso que, na ocasião, não dei a devida importância a essa conquista – lógico, um ouro olímpico, etc. Na verdade, não a vi saltar. Estava no aeroporto embarcando para o exterior e também não acompanhei a repercussão. Outro dia, vendo Maurren ser premiada como atleta olímpica do ano, fui chamado à realidade. É o melhor exemplo de superação, dedicação, disciplina, metas elevadas (e um pouco de sorte também) que tivemos em 2008. Mais do que isso: é um exemplo de que é possível bem fazer mais do que pensamos.
No auge da carreira, aos 26 anos, em 2003, Maurren foi flagrada em um exame anti-doping e fui suspensa por 2 anos das competições. Ela havia utilizado um creme pós-depilação, que continha uma substância proibida. Uma repórter comprovou: utilizou o mesmo creme e deu positivo também. Pelas regras, não interessa se houve dolo ou não; o atleta é responsável pelo que é encontrado eu seu organismo e Maurren pagou o preço.
Para um atleta desse nível, um episódio como esse é praticamente o fim da carreira – pelo menos da carreira a qual busca o seleto grupo dos melhores do mundo. Nesse período, Maurren teve uma filha e se separou do marido (o ex-piloto de fórmula 1 Antônio Pizzonia).
Casamento desfeito, filha para criar, carreira interrompida. Um pesadelo. Aos 29 anos, em uma idade em que os atletas começam a se preparar para pendurar as chuteiras, ela decidiu o improvável: recomeçar. Ninguém acreditava. Em alguns momentos, nem ela. Mas foi assim mesmo.
Pequim, agosto de 2008. Maurren conquista o ouro olímpico, tornando-se a primeira brasileira na história a conquistar o ouro em esportes individuais. Ela salta 7,04 m, 1 cm a mais do que a segunda colocada (aí entra a sorte, pois, convenhamos, a russa poderia ter saltado 7,05 cm).
Pare para refletir. Sempre celebramos todos os atletas que conseguem um pódio. O ouro, então, nem se fala. Mas o que dizer de uma vitória produzida por biografia como essas? É algo extraordinário. Talvez a principal lição desse episódio, justamente a que procurei passar para nosso pessoal, é que os limites podem estar bem além do que vemos. Muitas vezes, nós mesmos nos colocamos limites próximos, e nos contentamos em alcançá-los. Maurren mostrou que é possível ter metas elevadas, é possível reverter situações desfavoráveis, dar voltas por cima inimagináveis.
É possível querer mais. Acreditar. Essa é a lição que ela nos proporcionou. Talvez ela tenha se “auto-enganado”. Racionalmente, talvez não fosse possível escrever a história da forma que foi escrita. Mas, onde estaríamos hoje se, ao longo de toda nossa história, as pessoas não tivessem se “auto-enganado”, não tivessem acreditado no improvável? Quantas inovações não teriam sido produzidas? A evolução certamente passa por rupturas, por fatos improváveis que se tornam realidade pela obstinação e “loucura” de alguns. Que ela então tenha se “auto-enganado”. O “auto-engano” é que nos dá a esperança de realizar mais do que o previsível.
Selecionei um vídeo no You Tube que mostra a vitória de Maurren. A qualidade não está boa, mas veja até o final.
A cena do hino no pódio é muito emocionante. É interessante perceber como suas emoções caminham lado a lado com a musicalidade do hino. No início, em que o hino é duro, parecendo um hino de guerra, Maurren se posta como guerreira, acompanhando a letra. À medida que o hino avança, ganha musicalidade, suavidade, emoção. E também ela. Quando o hino se escancara, no “Terra Adorada”, Maurren não agüenta e desaba em lágrimas. É como se o hino fosse minando sua resistência, trazendo à tona, naquele momento, todo o filme de sua vida.
Para mim, a vitória de Maurren é um dos momentos especiais de 2008. Hoje, com tantos compromissos, pressões e preocupações, acabamos perdendo pouco a pouco a capacidade de parar para admirar e refletir grandes momentos. É como se tudo fosse uma grande lista de emails, sem qualquer prioridade. Que possamos, agora, nesse final de ano, parar para reverenciar essa conquista. Que a vitória de Maurren nos renove para 2009.
PS: O Vitor Birner mandou muito bem ao dizer que, mesmo coma vitória, ela se manteve humilde e não lançou mão daqueles discursos de vingança, justiça, etc, que apequenam as conquistas e que são muitas vezes utilizados por gente que deu a volta por cima – mas sem digerir o passado. Mais um ponto para ela.

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Por: Retrospectiva 2009: meus 10 textos preferidos « O que der e vier em dezembro 27, 2009
às 12:34 am