
Finalmente li esse livro, que conta a história de uma paixão quase surreal, que dura décadas, entre um bom moço, Ricardo, e a menina má, que adquire diversos nomes e personagens ao longo da história.
A menina má é ambiciosa, fria, sem escrúpulos. A partir de uma infância supostamente pobre, resolve ascender na vida e, para isso, não mede esforços: sedutora e envolvente, casa sucessivamente com homens ricos, nos mais variados lugares, sempre fugindo e deixando para trás encrencas e às vezes, dor.
O pobre Ricardo, nada ambicioso, previsível, só queria ser feliz ao lado dela, um projeto de vida incompatível com aquele levado por ela. Para a menina má, ele era um joão-ninguém, apesar de amá-la. Ricardo nutre, ao longo da vida, uma paixão não correspondida, ou melhor, não demonstrada, pela menina má, que de tempos em tempos aparecia para ele, deixava-se seduzir, para depois, sem aviso, fugir novamente, deixando Ricardo no mais profundo desespero. Ele, a entrega total, incondicional; ela, a ausência total de entrega Ele não consegue se livrar dessa paixão, apesar de, racionalmente, saber que consumiria sua vida nessa espera impossível.
Lembro-me agora dos versos de Jean e Paulo Garfunkel, na música “Contumaz” (aliás, depois coloco a letra inteira, que é bonita):
“Se a lucidez me cega,
A cegueira me faz ver.
Quanto mais a vida nega,
Mais vontade de viver.”
Cego nessa loucura que talvez se possa chamar de amor, Ricardo encontra a luz, a razão de ser de sua vida vazia. Quanto mais a vida lhe negava, mas envolvido ele ficava, mesmo sem querer.
O final é surpreendente e comovente (não vou contar). Ricardo diz que não se arrepende de nada e que ela lhe deu extrema felicidade nos momentos em que ficaram juntos. Já ela, com suas escolhas pautadas pelo dinheiro e status, teve uma vida triste, machucada e infeliz. No fundo, o livro é um tributo ao amor, ainda que de uma forma pouco convencional.
Relacionamentos assim realmente existem? Temo que sim, por mais absurdo e irracional que possa parecer. Claro, não é o território da razão, definitivamente. É difícil e doloroso, ainda, entender que mesmo havendo amor (admitindo que o que existe nesse caso é amor, e não uma patologia, uma loucura qualquer), não se consiga traduzi-lo em uma vida a dois, como se espera. Na narrativa de Vargas, o amor não é suficiente, o que abala nossas mais profundas crenças.
Obs: essa passagem do Eduardo Carvalho na praia, comentando o livro, é ótima!
