Publicado por: marcelopcarvalho | janeiro 24, 2009

Ensaio sobre o esqui. Mais precisamente, sobre o ski lift

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Muita gente não gosta daquele tempo perdido no ski lift, subindo vagarosamente até o ponto em que reside a verdadeira razão de se estar ali. É uma espera inútil, o preço que se paga para a diversão que se seguirá.

Discordo. Aquele momento no ski lift é o que torna especial a esperada descida que o sucede. A começar pelo mais evidente: a demora, a lentidão do processo valoriza a etapa seguinte, o prazer proporcionado pelo esqui. Não se pode apressar essa etapa, nem evitá-la. Não é possível ir para o céu sem antes morrer… paciência!

Mas o mais evidente nesse caso nem é o principal. Ganhando altura, no silêncio, às vezes com neve, às vezes com chuva. Quase sempre com o frio batendo na cara, sem que nada se possa fazer. Esperar e refletir. Emoções opostas: de um lado, a satisfação pela decisão tomada: mudar de patamar, arriscar-se. De outro, o temor natural que o desconhecido nos causa, a cada instante mais próximo. Para chegar ali, já medimos a montanha; medimos aqueles que subiram antes de nós. Será que são como nós, ou melhores? Olhamos para dentro. De alguma forma, julgamos que poderíamos dar aquele passo. Nem sempre damos. Ainda bem que temos várias horas, com sorte vários dias, para medir a montanha e compará-la a nossa capacidade. Ou a nossa coragem, que em grande parte define até onde podemos ir.

Mesmo quando o destino são pistas já conhecidas, o ski lift tem esse significado. Mesmo pistas conhecidas podem apresentar novos desafios, pode-se descer mais rápido, com mais técnica, de um jeito diferente. É possível nunca haver repetição e sempre haver algum novo desafio.

Mas o verdadeiro sentido do ski lift se mostra quando se decide subir até onde só há pistas desafiadoras para o seu nível. O trajeto para o topo é normalmente solitário. Um número relativamente pequeno de pessoas escolhe esse caminho (como na vida? não, na vida não há topo; se há, quem pode definir?). Mesmo que tenha mais gente subindo, é um momento de introspecção. De enfrentamento de nossos medos. Ali, é preciso acumular o que falta de coragem para a próxima etapa, agora inevitável: a escolha já foi feita. O topo é o lugar dos experts ou de gente que se arrisca a fazer mais do que deveria e, com surpresa, acaba fazendo e descobrindo que pode ir mais longe. Em topo que se preze, as pistas são sempre difíceis ou muito difíceis. O tempo via de regra castiga e é instável; a visibilidade tende a ser ruim. Tudo conspira contra. E mesmo assim…

Em uma ocasião, subi com um casal de argentinos, mais velho. O esqui não tem idade. Não se via mais do que 5 metros. Mesmo assim, era possível sentir que estávamos no topo. O mundo ficara lá embaixo. O argentino, percebendo minha apreensão diante daquela cegueira branca, me disse para segui-lo: “Quando você passar pela placa número 9, coloque os esquis paralelos, apontando para baixo, e ganhe toda a velocidade possível, mesmo sem ver nada, caso contrário você não conseguirá subir; depois, a pista tem uma forte elevação”. É preciso aprender a confiar sem ver.

Em direção ao topo faz-se amizades verdadeiramente sinceras que duram não mais do que dez minutos, entre pessoas improváveis, que nunca teriam qualquer proximidade caso pudessem escolher. Certa vez subi com um carioca, snowboarder, que era minha absoluta antítese. O único ponto em comum que tínhamos era estar ali. Pensando bem, era o suficiente para que houvesse uma conexão: longe de tudo, no frio, naquela pista, naquele exato momento, indo atrás das mesmas coisas. Ou de coisas distintas, mas usando os mesmos meios. Dá no mesmo. Talvez não fôssemos tão diferentes assim naquilo que realmente importava.

Chegamos ao topo, deserto. Eu e o carioca. Ventava forte. Descemos do ski lift em silêncio, assimilando aquele momento, até que alguém perguntou: “Você vai para onde?” Havia duas possibilidades de descer. Logo percebemos: iríamos para lados opostos, como faríamos em tudo o mais na vida, exceto naquele breve momento em que dividimos a subida e compartilhamos as mesmas expectativas. “Boa sorte”, falou. Desejar boa sorte era a medida exata do que enfrentaríamos. Desejei o mesmo a ele, com toda sinceridade possível. Éramos solidários no desafio e o desejo de boa sorte, de alguma forma, aumentava nossa confiança. Pelo menos, a minha.

Virei-me e fui lentamente para o início de minha descida, fitei as placas pretas (lamentei não serem de qualquer outra cor!) indicando a pista, encarei o precipício que tentava me convencer a partir. Olhei para os lados, ninguém. Não havia alternativa, pensei. Até havia, mas não poderia me trair. Naquele instante em que os pensamentos e temores se perdem, dando lugar a um breve vácuo, coube a coragem. Parti, sabendo que não seria mais o mesmo ao chegar ao ponto final.

(Quantas vezes não buscamos o precipício e da matéria resultante disso nos fortalecemos e moldamos nossa trajetória? O esqui é a metáfora da vida. O ski lift é o caminho já tomado, o ponto sem volta. Com suas incertezas e medos; com suas expectativas e esperanças).

“Ninguém descobre novas terras sem consentir em perder de vista a costa por um longo tempo.” André Gide

Obs: você pode acessar minhas fotos no Flickr e ver algumas fotos selecionadas que tirei em estações de esqui e redondezas no álbum Meus lugares no mundo.

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  1. [...] Ensaio sobre o ski. Mais precisamente, sobre o ski lift. Refletindo um estado de espírito e uma expectativa…como talvez todo o [...]


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