Tive ontem uma aula diferente e muito boa sobre Crise, no curso Crise: na Economia, na História e na Mente, na Casa do Saber (meu pai tem razão – esse nome Casa do Saber é de doer…). A aula, dada pelo filósofo Luis Felipe Pondé (Professor da PUC-SP e da Faap e professor convidado da pós-graduação da Escola Paulista de Medicina) abordou a crise na mente das pessoas.

Luiz Felipe Pondé
Ele começou citando o livro A Negação da Morte, de Ernest Becker, antropólogo que ganhou o Prêmio Pulitzer em 1974, fazendo a ponte entre Darwin e a psicanálise (isso me interessou – e já comprei o livro). “Imagine você há 100 mil anos. Um dia você acorda e é o primeiro ser humano a ter consciência de que mais cedo ou mais tarde, vai morrer”, disse. Segundo ele, a partir daí o ser humano tem que conviver com a inviabilidade de sua existência (afinal, para que viver se vai morrer?), sobre a falta de sentido da vida; caminha permanentemente à beira do abismo. Sabe que seu corpo vai durar mais do que ele e carrega esse peso a vida toda.
O ser humano sabe demais. Sabemos mais do que deveríamos, mas menos do que precisamos. Essa consciência da finitude da vida gera um estado permanente de crise na mente das pessoas. Convivemos com a crise em nosso plano estrutural. Interessante, não?

Ernest Becker

A Negação da Morte
Em seguida, ele discutiu a questão da modernidade e da pós-modernidade. O que define a modernidade é o fato de passarmos a viver (após a Revolução Francesa) de acordo com várias esferas distintas. Hoje, exercemos vários papéis que são compartimentalizados: alguém que é muito religioso, por exemplo, não vai levar essa crença para o trabalho; sabe separar. Precisa. Antes da modernidade, isso não existia. Fazíamos parte de algo único, meio místico e, importante, controlado pela religião e por Deus, seja lá qual for o seu Deus.
Na era moderna, isso mudou. Os pontos críticos dessa mudança foram i) a constatação de que o homem era melhor do que Deus para resolver as questões de justiça e ii) o desenvolvimento científico, que aumentou o conhecimento do homem a respeito de si e do ambiente em que vive, fazendo com que acreditasse mais nos seus recursos. Citando uma passagem de Goethe (Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister), ele mostra que a partir do Renascimento, o homem chama para si a responsabilidade sobre as coisas e diminui o peso do misticismo. É o início da era da competência, da técnica, em que os Estados Unidos são o exemplo mais evidente de sucesso.
O mundo hoje exige eficiência máxima, sucesso o tempo todo; segundo ele, o aumento dos índices de depressão no mundo, apesar do maior bem-estar coletivo (e melhores condições de renda) pode ser reflexo dessa pressão. Acho que aqui cabe também uma contribuição do Paradoxo da Escolha: o maior número de opções de consumo, piorando nossa capacidade de decisão, elevando as possibilidades de arrependimento e reduzindo o prazer obtido com nossas escolhas, é um fator adicional que contribui para a maior depressão.
Ocorre, porém, que sabemos que não podemos ser bem sucedidos 100% do tempo. Sabemos que fracassaremos em algum momento. E isso é fonte adicional de crise na mente. Ele lembra que a crise atual é uma crise de crédito, que vem de “crer”: perdeu-se essa confiança na onipotência do homem. Conjectura minha: talvez pelo fato da crise ter ocorrido nos Estados Unidos, país em que o culto à competência atinge níveis máximos, a dimensão psicológica da crise tenha se acentuado.
[parêntesis: achei legal que várias coisas sobre os EUA que eu tinha escrito no post Um Americano, lá no início do blog, ele também acha.]
Ele coloca que nessa busca pela competência a todo custo, forçada pelo mercado, cada vez mais competitivo, mais rápido, com mais opções de consumo, mais excludente, tendemos a nos sacrificar pelo nosso desejo, que nos controla. Nunca é suficiente, sempre precisamos de mais. No final, nos sacrificamos por nós mesmos, o que gera um sentimento de claustrofobia e de solidão. Estamos todos sós, sensação que é ampliada à medida que fica claro que as utopias modernas não se realizarão (fim do socialismo com a queda do Muro de Berlim; fim da utopia do mercado soberano com a crise atual). O narcisismo se amplia: precisamos cada vez mais da aprovação dos outros.
Ele coloca ainda que a liberdade, um dos valores fundamentais da modernidade, traz como contrapartida a autonomia e a solidão. Ser livre é não ter amarras; só não se tem amarras se somos sós (Aqui fiquei pensando se o crescimento das redes sociais não seria uma reação a esse sentimento de solidão, de fim da utopia pós-moderna).
Pondé afirma que o mundo atual nos força a focar, perdendo a capacidade de compreender todo o resto. Em um momento de crise, somos forçados a olhar para coisas que não olhávamos, somos forçados a romper com nosso foco que, afinal, não deu certo (interessante).
Por isso, a bolha econômica era, antes de tudo, uma bolha psicológica e filosófica: a crença equivocada de que o homem moderno tem recursos infinitos e resolverá sempre tudo.
A precariedade subjetiva embutida no narcisismo crescente se radicaliza quando há precariedade econômica. E, à medida que as utopias vão caindo, a precariedade subjetiva aumenta, daí o maior narcisismo.
No final, há um consolo, em Darwin. Aprendemos a conviver com a inviabilidade da vida. Fomos selecionados para tolerar esse conflito, que fica abafado em nossa consciência, caso contrário não poderíamos viver. Temos de mentir para nós mesmos (auto-engano?), a mentira mais efetiva que há. Há um ganho darwinista, mas um custo psíquico considerável, uma energia gasta para conviver com o fato de que, ao final, a vida não dará certo.
Somos a espécie adaptada a saber que a vida é inviável e sobrevivemos a isso. Não sabemos se amanhã estaremos vivos, mas acreditamos nisso e vivemos com essa “verdade”. Temos coragem de ir em frente. No final, tudo é uma questão de coragem, como já dizia Aristóteles: a coragem garante todas as outras virtudes. A propósito, como bem lembrou Pondé, o lema dos Estados Unidos: terra dos livres e lugar dos corajosos (“land of the free and the home of the brave”).
Enfim, muito bom. E Darwin para mim é o cara. A idéia de que todos os seres vivos derivaram de uma única célula é incrivelmente simples e poderosa.

Charles Darwin

Marcelo, muito bom. Fiquei com vontade de ter feito esse curso apenas por essa aula.
As duas passagens que mais gostei:
- Ele lembra que a crise atual é uma crise de crédito, que vem de “crer”: perdeu-se essa confiança na onipotência do homem.
- Nunca é suficiente, sempre precisamos de mais. No final, nos sacrificamos por nós mesmos, o que gera um sentimento de claustrofobia e de solidão.
Abs, Miguel
PS: E o comentário do seu pai sobre o nome é fenomenal…
Por: Miguel Cavalcanti em janeiro 28, 2009
às 10:03 pm
“Tendemos a nos sacrificar pelo nosso desejo que nos controla” Então, feliz daquele que já superou seus desejos e é capaz de se sentir tranquilo diante de tudo. “E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”.
Por: Sônia Marques em janeiro 28, 2009
às 10:20 pm
Prezado Marcelo,
Há algum tenho acompanhado os seus posts.
A cada publicação, tenho me surpreendido mais com a sua capacidade de síntese.
Este post foi o melhor dos que tive acesso.
Ao refletir sobre várias afirmações deste texto, percebemos que, realmente, são uma leitura de nós seres humanos frente aos vários fenômenos conteporâneos.
Obrigado pela aula.
Abraço.
Elessandro Santos
Alfenas/MG
Por: Elessandro Santos em janeiro 30, 2009
às 12:24 am
Olá Elessandro,
Obrigado pelo mensagem, pelos elogios e por prestigiar esse espaço. No caso deste post, ficou fácil escrever depois da aula que tivemos!
Abraço,
Marcelo
Por: marcelopcarvalho em janeiro 30, 2009
às 12:28 am
Belo post, mesmo. E o nome, ah, pensei q só eu implicasse com ele. rs
Por: eduardo em janeiro 30, 2009
às 1:14 am
Marcelo,
lembrei deste post ao ler a entrevista da filósofa e psicanalista Viviane Mosé. O assunto é sobre aprender a lidar com a dor e excessos do mundo contemporâneo. Acho que vai gostar.
Está no site do Café Filosófico da TV Cultura. Pena foi eu ter perdido o programa neste dia.
http://www.cpflcultura.com.br/post/cafe-filosofico-entrevista-com-viviane-mose
Abraço.
Por: Elessandro Santos em fevereiro 7, 2009
às 10:47 pm