Publicado por: marcelopcarvalho | fevereiro 10, 2009

O Brasil está mudando – e para melhor

Sem dúvida fatos como a eleição de José Sarney para a presidência do Senado, a política que continua como nos velhos tempos, o escândalo do corregedor da Câmara que construiu um castelo de milhões, o fisiologismo do PMDB, as escorregadas do presidente Lula, a burocracia, a carga tributária e a corrupção, entre outras mazelas, nos desanimam e nos mostram o quanto o Brasil ainda precisa evoluir.Mas apesar de tudo isso, acredito que o Brasil está mudando para melhor -principalmente em função do empresariado. Lembro-me de ter lido um artigo há alguns anos dizendo que não havia nenhuma empresa global brasileira, porque no Brasil o projeto de poder é mais forte do que o projeto econômico. Em outras palavras, é melhor ser dono de algo pequeno do que ter uma parcela de algo bem maior. O artigo, escrito há apenas alguns anos pelo guru de meu amigo Celso, estava corretíssimo: o Brasil pensava pequeno; talvez fosse o complexo de inferioridade que Nelson Rodrigues definiu, ao explicar nosso fracasso na Copa de 50, em pleno Maracanã. Se Bill Gates pensasse assim, se preferisse manter o controle da Microsoft, certamente não teria criado o império que criou – é possível que nem teria saído da garagem onde a empresa foi concebida.

Bem, de lá para cá, utilizando o exemplo futebolístico, ganhamos cinco títulos mundiais, um prenúncio aplicado à bola de que algo estaria mudando. E está. Há dez anos, o Brasil não tinha nenhuma empresa entre as cem maiores empresas dos países emergentes, as “desafiantes globais”, como cunhou a revista The Economist. No ano passado, o Brasil tinha simplesmente treze empresas entre as cem maiores, atrás apenas da China (41) e da Índia (20). O México, 7, a outrora toda poderosa, 6 e os antes temidos Tigres Asiáticos, só 5.

Assistimos empresas com a Vale, se tornando um player global; assistimos a fusões entre bancos como o Itaú e o Unibanco, que entenderam que o jogo é para os grandes. Assistimos o desenvolvimento do agronegócio brasileiro, hoje referência em muitos segmentos, como o suco de laranja (diga-se de passagem, um dos primeiros a se internacionalizar, comprando empresas no principal país concorrente, os EUA), o complexo soja e o complexo cárneo. Nele, além de Perdigão e Sadia, destacam-se empresas do segmento bovino que cresceram muito, como o Marfrig e, principalmente, o Friboi, que comprou a Swift nos EUA, dez vezes maior, e se tornou só a maior empresa de processamento de carne bovina do mundo.

Mas é na cerveja que está nosso maior exemplo de pensar grande. O trio do GP, Jorge Paulo Lehmann, Beto Sicupira e Marcel Telles, ao adquirirem a Brahma no final da década de 80, deram o tom dos novos tempos. Fundiram-se com o principal concorrente, a Antarctica, criando a AmBev, depois fundida com a Interbrew, na Bélgica, para se tornar a segunda maior cervejaria do mundo, a InBev. E a gestão, apesar de minoritários, é dos brasileiros. O símbolo máximo desses novos tempos foi a aquisição da Anheuser Busch, dona da cerveja Budweiser, um ícone americano cuja negociação até o estado do Missouri tentou evitar.

Pense nisso: uma empresa administrada por brasileiros compra um ícone centenário nos EUA, cujas cores são as mesmas da bandeira norte-americana. Já não bastasse o impacto do negócio, fica o forte simbolismo desse fato.

Aliás, acho que essa turma formada pelo trio do GP, pelo Jorge Gerdau e alguns outros, influenciados por empresas líderes globais e pelo consultor mineiro Vicente Falconi, do INDG, são os vetores dessas mudanças.

Lembro-me aqui da biografia de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, um livro essencial, escrito pelo Jorge Caldeira. Mauá, o primeiro empresário de fato que o Brasil teve, era um homem à frente do seu tempo. Tutorado por um inglês, ao longo do século XIX entendeu a lógica de se fazer negócios e de crescer, fez fortuna, enxergou longe, mas encontrou um império tacanho e mesquinho, governado por D. Pedro II e uma elite que definitivamente não favorecia o progresso, tendo que lugar a vida toda contra a estreiteza de visão. Lutamos há séculos contra essa chaga da falta de visão de longo prazo, mas acho que estamos vencendo.

São tempos passados. O ponto-chave é que, apesar dos Sarneys da vida, o empresariado vem mudando sua forma de pensar – passou a pensar grande. Aliado a isso, dois fatores importantes: primeiro, o governo reduziu o seu peso na regulamentação e mesmo no tamanho da economia, principalmente após as privatizações; e – é fundamental admitir – o governo tem acertado naquilo que é importante. Tem mantido uma política econômica ortodoxa, tem sido pragmático e parece ter entendido que há certos princípios de mercado que estão acima de questões ideológicas.

Parece pouco, mas não é. A Argentina, por exemplo, seguiu por outro caminho, pagou o preço e ainda vai pagar. O Brasil é sem dúvida o país emergente que hoje mais encanta o mercado internacional. A eleição de Lula e os temores por ela provocados se mostraram infundados. A democracia estava consolidada e o ambiente institucional dava provas de que havia de fato mudado.

Está certo que o mundo passou por momentos de ouro nos últimos anos, o que certamente ajudou. Está certo de que poderíamos ter feito muito mais, principalmente as reformas. Mesmo assim, o que foi feito não é desprezível. Não é à toa que o Brasil é o B da sigla “BRIC”, que reúne ainda Rússia, Índia e China. Não é à toa que o relatório da CIA, sobre cenários para 2020, coloca o Brasil como um importante pivô regional, integrado ás maiores economias mundiais. Finalmente, o Brasil parece caminhar para ocupar seu lugar de “país do futuro”.

Apesar da crise e dos problemas endêmicos que ainda temos, sou otimista quanto ao futuro e acho que o Brasil já é e continuará sendo um dos melhores lugares para se fazer negócios no mundo.


Respostas

  1. [...] Ele também fala do B do BRIC, de Visconde de Mauá, do Sarney e cita um artigo antigo do Stephen Kanitz. Leia na íntegra no blog pessoal dele, acessando O Brasil está mudando – e para melhor. [...]

  2. MARAVILHOSO!!!!
    Concordo em gênero, número e grau!!!
    Como vocês escrevem bem…! E melhor: escrevem aquilo que EU gostaria de escrever (em arquitetura, como dizia nosso saudoso Claudio Bernardes, quando o cliente diz que ele é que foi o autor do projeto, elogio maior impossível!).
    PARABÉNS!
    Já vou repassar…
    Abs
    Malu

  3. O Brasil esta desfrutando o que Fernando Henrique plantou economicamente. O resto, a sujeira, roubalheira, desestruturação de nossas empresas, desflorestamento da Amazônia etc, está tudo muito pior. Quem elege essa mula para presidente não é patriota e o querido Brasil virou terra de pistoleiro e bandidos. Das favelas ao Congresso Brasileiro. Nosso povo é inculto e não sabe seus direitos, faz arruaça no lugar de lutar pelo melhor para ele. A retórica é hipócrita, bem brasileira, já que não há nenhum sistema funcionando no Brasil com honestidade. Verdade mesmo é que nosso povo se acomoda, gosta de futebol, praia e boa vida…O resto é para a outra geração, sempre foi assim: só que as mudancas são para pior e se agravam a cada dia mais. Não há mais estudantes lutando, não há sindicatos honestos, não há nada que defenda o povo e quem vai ajudar é para ver se tira um bom troco. Essa é nossa finalidade. Sempre tirar vantagem em tudo. É ou não é assim???? Ninguém fala na íntegra do enriquecimento do filho do Lula, do irmão oportunista etc. Brasil, quem sair por último apague a luz…..

  4. “há certos princípios de mercado que estão acima de questões ideológicas.”

    A corrupção desvairada e impune incentiva e leva a tudo de ruim que acontece em nossa terra. Confesso que o governo atual me exaspera ao fazer nada de relevante na educação e pela saúde dos brasileiros. É um consolo que mantenham pelo menos os princípios de mercado e as orientações econômicas do governo anterior.

    O passo seguinte depende de nós. Como disse o senador Pedro Simon no programa “Entre Aspas”, no canal Globonews: Se depender de Brasília, nada vai mudar. A mudança tem que vir do povo, do Brasil. Como foi nas Diretas Já.

    A classe média anda desanimada, é um fato. Brasília parece mais longe do que nunca. Mas vamos usar a internet, os e-mails, e despejar em cima do Congresso e dos governantes. É uma força que temos usado pouco.

    As empresas modernas são sensíveis à opinião do consumidor. Não serão os políticos a ficarem surdos. Eles também precisam de nós.

  5. [...] Brasil já é visto como potência Há algum tempo escrevi um post dizendo que o Brasil estava mudando para melhor e começava a adquirir o status de economia dinâmica e de grande futuro. Falei que havia uma [...]

  6. ola td bem gostei muito do seu progama todo sabado eu a asisto beijosss♥♥♥


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