
Vanderley Luxemburgo
Estava há tempos querendo escrever sobre os dois técnicos mais vitoriosos do futebol brasileiro nos últimos
anos, o Muricy Ramalho e o Vanderley Luxemburgo. Pensei em analisar como são diametralmente opostos, inspirando sentimentos igualmente distintos. E, mesmo assim, vencedores. Cada um a sua maneira.
O empurrão que faltava para escrever veio, por acaso, do programa Bem Amigos da última segunda-feira, em que Vanderley desfilava suas habituais arrogância e empáfia para os telespectadores e jornalistas que, como de costume, ficaram anestesiados, olhando fascinados para aquela figura que vive para ser o herói de si mesmo.
Vanderley é o típico malandro, no sentido de malícia, e não disfarça (não vou julgar eventuais acusações que pesam contra o técnico palmeirense, e que podem ou não derivar dessa característica). Com o ego exposto, do tamanho do mundo, se acha o tal e não tem vergonha de dizê-lo a quem cruzar seu caminho. Desperta amor e ódio, talvez das mesmas pessoas.
Já Muricy transita no espectro oposto. É humilde, acanhado, chega a ser sem graça. Não tem nada da prepotência do outro. Atribui seu sucesso ao trabalho duro, aos jogadores, ao clube. É o exemplo a ser seguido (será que alguém realmente segue?). Raramente – a rigor, não me lembro de nenhuma vez – joga para si a responsabilidade da vitória. Já Vanderley… Apesar desse comportamento, e talvez por ele, Muricy é respeitado, mas não exerce o que se pode chamar de fascínio. Não é o tipo de pessoa que vira conversa de bar, fonte de debates acalorados. É alguém que consegue resultados, e nada mais.
Isso é interessante. Luxemburgo, com todo o seu egocentrismo explícito, atrai mais do que Muricy, com toda a sua correção inatacável. Peguei-me a pensar o porquê disso. Em uma análise racional e seca, Muricy deveria ser muito mais admirado do que o Luxa. Talvez seja pelo fato dos “malandros” quererem mais da vida, como já escrevi citando Paul Auster no ótimo Desvarios no Brooklin. Na hora do vamos ver, as pessoas preferem os malandros que vão mais longe do que os certinhos que hesitam. Os malandros, segundo o livro de Auster, têm mais fome de vida, e são esses que escolhemos como líderes.
Mas achei em Ernest Becker uma possível resposta, mais embasada. Ele diz que somos narcisistas e que quando nos preocupamos com alguém, em geral é conosco. O próprio corpo evoluiu para se bastar, tanto que o principal risco de um transplante salvador é a rejeição do organismo que justamente necessita do novo órgão. Ele diz ainda que ”no homem, um nível prático de narcisismo é inseparável da auto-estima, de um sentimento básico de valorização de si mesmo”.
Becker coloca que, na infância, a luta pelo amor-próprio encontra-se na fase menos disfarçada. A criança não tem vergonha daquilo que mais precisa e mais quer. É o âmago do ser, o desejo de se destacar, de ser algo na criação, ser um herói, dar a maior contribuição possível para a vida finita, mostrar que vale mais do que qualquer coisa ou pessoa. Ele lembra que, na sociedade atual, disfarçamos essa busca pelo heroísmo, que é motivo de crítica e vergonha (como disse o Caetano Veloso, “Vaca profana, põe teus cornos, Pra fora e acima da manada…”), tendo mais dinheiro, um carro melhor, uma casa maior.
Posto isso, será que Muricy é mais honesto, psicologicamente falando, do que Vanderley? Será que é realmente essa pessoa humilde e desprovida de ego como aparenta ser? Ou sua vontade de se destacar é tão grande quanto a do outro, mas está disfarçada numa politicamente correta humildade?
Becker diz que a ânsia pelo heroísmo é natural, e admiti-la é um gesto de honestidade. Nesse sentido, por mais paradoxal que seja, Luxemburgo é mais honesto do que Muricy, com toda a sua correção. Por isso, creio, ele é motivo de ira e, ao mesmo tempo, de fascínio. Ele incomoda. De certa forma, ele expõe nossos instintos mais autênticos, aquilo que efetivamente somos, para o bem (sim, o heroísmo, claro, tem seu lado iluminado) e para o mal. Luxemburgo é o ser humano em sua essência, ao passo que Muricy é o produto da sociedade que reprime.
Em tempo: acho o Luxemburgo um tanto repugnante, sou sampaulino e muito satisfeito com o trabalho do Muricy. Mas, admito agora, ele é mais humano do que Muricy, com tudo de bom e de mal que isso possa significar.
- Muricy Ramalho

Bem legal o post.
Lendo, me lembrei de uma frase mais ou menos assim:
“tome cuidado com homens que não bebem nem fumam…”
Abs, Miguel
Por: Miguel Cavalcanti em fevereiro 15, 2009
às 5:18 pm