Publicado por: marcelopcarvalho | fevereiro 20, 2009

Borges e o milagre do futebol

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Ontem fui ao Morumbi, assistir ao jogo de estréia do São Paulo na Taça Libertadores (desculpe Santander Libertadores), contra o Independiente de Medellín, da Colômbia.  Vou muito pouco ao estádio, duas vezes nos últimos dois anos, até porque não moro em São Paulo. Por coincidência, estava lá ontem e, em um ato heróico, fui com meu irmão conferir in loco o início da campanha do tetra (vamos ser otimistas).

De início, chamou-me a atenção a enorme e alegre torcida do Independiente, identificada por uma grande faixa onde se lia “Torcida Independente”. Gentis, os colombianos: até traduziram o nome do time para o português.

Bem, acho melhor falar do jogo. Logo na entrada, achei meio deprimente aquele monte de pessoas espremidas, entoando de forma animada os primitivos gritos de guerra – que unicamente servem para ofender a língua portuguesa e os ouvidos – como se fôssemos assistir a um time estrelado por Pelé e Maradona, e não por Hugo, Zé Luis, Jorge Vagner e Renato Silva (quem?). Peguei-me constrangido e distante daquelas pessoas. Quase me arrependi de ter ido. Mas, vamos em frente, tentar analisar de outra forma tudo isso.  No fundo, deve ser a necessidade das pessoas de buscar alguma diversão, uma válvula de escape diante das pressões do trabalho, da família, da sociedade cada vez mais competitiva e excludente. Na falta de outra opção, que seja o jogo do medíocre time do São Paulo (está certo, é o campeão brasileiro) contra o fortíssimo – sim, porque na Taça Libertadores todos se tornam fortíssimos – Independiente de Medellín, em plena quarta-feira, em uma jornada que iniciada às 10 horas da noite, um verdadeiro acinte.

O jogo transcorreu como previsto, para quem é realista: modorrento, poucas jogadas de efeito, todas as esperanças nos pés do camisa 10, o Hernanes, tido como o melhor jogador em atividade no país. Sinal dos tempos… É interessante como os torcedores, à medida que o jogo transcorre, vão substituindo a esperança de ver um improvável show pela crua realidade: um time aplicado, esforçado, e nada além disso.  Começam as gozações e ironias e, claro, os xingamentos.

A vítima principal é o meia Hugo, tenho certeza que mais por ser o mais negro do ataque tricolor do que pela sua ruindade, que em nada difere da dos demais jogadores: Dagoberto, Washington, Jorge Vagner, etc. A certa altura, diante da insistência da torcida, Muricy, em um lance de gênio, tira Hugo e coloca Dagoberto. A torcida delira, como delirava antes do jogo, na esperança de ver um massacre. Agora sim! Mal Dagoberto toca na bola, um torcedor espirituoso comemora: “é outro time!” para, em sua primeira falha, gritar com ironia: “Hugoooo….”.  Outro torcedor prefere o tempo todo xingar o técnico, lá do alto da arquibancada. Prevendo a incredulidade dos seus vizinhos diante da manifestação inútil, ele fala meio que para si e para quem quiser ouvir: “Tenho certeza que ele escuta…”.

O jogo vai se aproximando do final, assim como a paciência do torcedor, nesse momento absolutamente ciente da limitação da equipe. Em um momento profético, um torcedor reclama que o time só começaria a jogar após tomar um gol. O que parecia impossível ocorreu quase no final da partida: gol do Independiente (engraçado, a grande torcida colombiana se calou).

A partir daí, o desespero total, explícito, quando Muricy coloca em campo o matador André Lima (quem?). O assistente levanta a placa de 4 minutos extras.  Os torcedores se revoltam: “como só 4 minutos?” É claro que nesses momentos não interessa se a equipe não conseguiu fazer nada em 90 minutos.

A real situação do futebol brasileiro ali se mostrava inteira. O campeão brasileiro sem condições técnicas de, em casa, ganhar de um time qualquer da Colômbia. Eis que, nesse momento, um milagre resgatou a magia: aos 48 minutos do segundo tempo, Borges escreveu uma poesia ao dar uma meia bicicleta rápida, precisa, plasticamente perfeita, finalmente fulminando o goleiro adversário. Era o empate. “A arte opta sempre pelo individual, pelo concreto. A arte nunca é platônica”, escreveu um outro Borges. O Borges do futebol foi mais longe: mostrou que a arte pode ser ao mesmo tempo platônica e concreta. Pelo menos, a arte do futebol.

Borges fez um golaço. Um gol como nos velhos tempos. (Aliás, fisicamente ele parece dos velhos tempos: mulato, franzino, atemporal). Um gol digno dos maiores craques da história, não só pela beleza da jogada, mas pela circunstância: era a última chance.

Borges

Borges

Estranho, o mundo do futebol. Que mistérios fazem brotar, em meio a um mar de mediocridade, um momento genial como esse, produzido por um jogador que está longe de ser um gênio? Diante desse gol, de repente a esperança daquelas pessoas, os gritos de guerra aparentemente descontextualizados, o sacrifício de ir ao estádio tarde da noite, tudo passou a se justificar.

O outro Borges

O outro Borges

 

Saí do estádio não satisfeito com o resultado, claro, mas aliviado e renovado por ter presenciado aquele instante mágico. Surpreendentemente, me senti muito próximo a todas aquelas pessoas.

 Veja abaixo o vídeo do gol do Borges, que logo já estava no You Tube.


Respostas

  1. Marcelo o Xicco gostou muito deste texto eu tb bjs

  2. Ai, adorei seu post! (pra variaaar!)

    Fiquei me lembrando de quando meu pai me levava aos estádios quando eu era adolescente, (contrariado claro), e eu sei exatamente como você se sentiu, próximo a tantos outros torcedores, que afinal, estavam ali com o mesmo propósito. Futebol é cultura: um dicionário ao vivo de palavras de baixo calão… deixa pra lá! Rs!

    Deixando o contexto brasileiro de lado, pra quem gosta é uma emoção e tanto! =)

    Um abraço!
    Naira

  3. [...] Borges e o milagre do futebol. Um texto legal de escrever, e que ficou mesmo [...]


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