Publicado por: marcelopcarvalho | março 7, 2009

Barry Schwartz na TED 09: o resgate da moral e da virtude

Assisti online à palestra de Barry Schwartz na TED 2009 (Technology, Entertainment and Design – thanks Miguel).  Barry é autor do Paradoxo da Escolha, que resumi aqui em quatro posts sobre o assunto (Veja aqui o último e você tem o link para todos).

Ele fala sobre vários assuntos, fazendo uma real conexão entre eles: sabedoria, regras, improviso, caráter, virtude, moral, motivação, educação. Tudo isso em 20 minutos, mas com enorme impacto e fundamento. Nos faz parar para pensar, o maior objetivo de qualquer palestra ou outra forma de comunicação.

Barry mostra acima de tudo uma enorme esperança no potencial humano de melhorar o mundo, desde que nos esforcemos para tal e mudemos alguns comportamentos.

Barry Schwartz

Barry Schwartz

 

Talvez isso já esteja ocorrendo. Ele cita Barack Obama que, em seu discurso de posse, chamou pela  virtude para resolver os problemas financeiros em que os Estados Unidos (principalmente) envolveram o mundo. É uma revisão de prioridades, partindo da constatação de que o interesse financeiro foi muito longe a ponto de se perder o controle e jogar o mundo num quase caos econômico e perda generalizada de confiança. “We must ask not just if it is profitable,but if it is right,” disse Obama  (“Devemos nos perguntar não apenas se é lucrativo, mas se é correto”). O capitalismo, os países, as corporações e, no fundo, as pessoas, têm responsabilidades.

Indo na mesma linha, Barry acha que não serão mais regras e mais controles que resolverão a situação, ainda que em algum grau elas sejam necessárias – as regras de fato evitam o caos e o desastre. Mas, por outro lado, semeiam a mediocridade, em um processo de emburrecimento global em nome de uma aparente ordem.  Vejam esse exemplo:

“Um pai foi com o filho pequeno ver um jogo de futebol. No intervalo, o filho pediu uma limonada e o pai comprou o refresco. Porém, não percebeu que o produto não era exatamente uma limonada – continha 5% de álcool. O policial viu o menino bebendo a bebida alcoólica, chamou reforço policial e uma ambulância, que levou o menino diretamente para o hospital. Mesmo após constatar-se que o menino estava bem, as autoridades mantiveram a criança por 3 dias fora de sua casa e, após essa data, autorizaram o retorno desde que o pai não voltasse para casa! O pai ficou 15 dias em um hotel, impedido de retornar a sua casa – porque, inadvertidamente, comprou uma limonada que continha  5% de álcool para o filho! As autoridades reconheceram que odiavam ter de fazer aquilo – mas eram as regras, que devem ter sido criadas porque em algum momento crianças nas mesmas condições foram recolocadas em lares de fato perigosos”.

Barry diz que é preciso sabedoria prática para saber quando uma regra deve ser quebrada; quando e como aplicar a exceção. E, para fazer isso, é necessário ter habilidade moral, virtude, caráter. Mais ainda: todas as pessoas cujo trabalho é lidar com outras pessoas precisam desenvolver essas habilidades, precisam aprender a ter sabedoria, o que se consegue com exemplos  e experiência.  Mesmo trabalhos aparentemente banais, braçais (ele dá belos exemplos de faxineiros de hospital), muitas vezes envolvem, ao final das contas, cuidar de pessoas e, para isso, é preciso ter flexibilidade e entender o contexto de cada momento. Não há regra que consiga prevenir todas as situações possíveis.  “Uma pessoa sábia consegue entender quando deve usar suas habilidades morais em prol dos objetivos corretos”, disse.

Barry diz que não é preciso ser brilhante para ser sábio, mas que sem sabedoria, o brilhantismo não é suficiente e pode trazer apenas mais problemas. Ainda, ele fala que uma pessoa sábia se faz ao longo do tempo, não sendo uma característica de nascença.

O grande problema: no mundo de hoje, a própria educação, padronizada, desestimula o improviso e a criatividade, simplesmente fazendo com que as pessoas (professores incluídos) não pensem mais, apenas sigam o protocolo, a regra. Em última análise, é isso: as regras e procedimentos em excesso matam o pensamento, a análise; por isso, prevêem o desastre, mas trazem como subproduto a mediocridade generalizada.

Ele faz também um paralelo com sistemas de incentivo, como bonificações (novamente o pano de fundo para os excessos do mercado financeiro). Segundo ele, embora aparentemente faça todo sentido dar um incentivo financeiro a mais para as pessoas aceitarem suas responsabilidades no trabalho, isso nem sempre dá certo.  Ele dá um exemplo da Suíça: ao perguntarem a cidadãos suíços se eles concordariam em ter perto de suas casas um depósito de lixo nuclear gerado pela própria Suíça, 50% dos entrevistados concordaram, entendendo que se tratava de um dever cívico. Para outro grupo,  a mesma questão foi colocada, adicionada da informação de que receberiam um valor em dinheiro (um salário adicional) para aceitar a “oferta”. Apenas 25% concordaram.O pagamento em dinheiro eliminou a moralidade da questão: as pessoas deixaram de perguntar o que é certo, como disse Obama.

Isso não quer dizer que as pessoas não devam receber incentivos ou que não devam ser remuneradas de acordo com o resultado de seu trabalho (ou que regras e procedimentos não sejam necessários). O que se pode depreender dessa situação é que: i) nenhum sistema de incentivo será suficiente para superar a má vontade, quando ela existe; ii) é possível ter incentivos, mas o excessos desmoraliza a atividade profissional:; as pessoas perdem estatura moral e a atividade perde moralidade. No final das contas, as pessoas de caráter ficam felizes ao fazer a coisa certa, bem feita.

Nesse sentido, Barry lembra que a coisa mais importante que as crianças precisam aprender é caráter.

Jacques Marcovitch

Jacques Marcovitch

A solução ao alcance de cada um,  é simples: devemos celebrar exemplos morais, ainda que (ou talvez especialmente) sejam exemplos de heróis ordinários, como funcionários de limpeza de um hospital que fazem mais do que simplesmente esfregar o chão seguindo os procedimentos. Certa vez, o professor Jacques Marcovitch  que sempre que passa ao lado de um policial, o cumprimenta e o agradece pelo serviço difícil e necessário que esse cidadão presta a todos. Esse vínculo, ao longo dos tempos, é que se perdeu.  

Por fim, Barry lembra que “estamos sempre ensinando; the camera is always on”. Devemos prestar atenção nos exemplos que damos, no que valorizamos no dia-a-dia. Só assim é possível realmente influenciar o mundo e mudar o que está errado. Ainda que vagarosamente.

Barry Schwartz me impressionou muito com o seu Paradoxo da Escolha; mais ainda quando trocamos alguns emails e impressões sobre o tema e, agora, definitivamente com essa palestra que, quem sabe, ajude a sinalizar novos tempos nesse repensar dos caminhos que escolhemos.

Clique abaixo para ver a palestra, em inglês. Vale a pena:

http://www.presentationzen.com/presentationzen/2009/02/barry-schwartz-at-ted-the-need-for-virtue-practical-wisdom.html


Respostas

  1. Nossa! Sinceramente eu nunca havia ouvido falar dele.

    E é mesmo, muito bom quando podemos fazer a coisa certa, quando podemos fazer algo (mesmo que só por palavras) para abrir a consciência do outro para questões tão `out´ hoje em dia. Se me deixar fico horas falando sobre o esquecimento do caráter das pessoas, da falta do senso do comum, da preferência pela alienação, etc.

    Enfim, ninguém é perfeito, muito menos eu, mas me sinto feliz e realizada ao colaborar para a reflexão das pessoas sobre isso e vejo retorno também em outros meios. É isto que me atrai nos blogs! =)

    Como dizem as pesquisas, somente de 1 a 4% dos leitores contribuem ou geram algum tipo de valor após o contato com a informação, mas mesmo assim já vale a pena não é? Como Barry diz: “Ainda que vagarosamente.”. Em minhas palavras, tijolinho por tijolinho! Rs!

    Parabéns pelo resumo da palestra, Marcelo, adorei!
    Um abraço!

  2. [...] O Visitante (The Visitor, 2007 – Thomas McCarthy). O último que vi. Uma história bem atual,  que trata de dois temas. Primeiro, a imigração e a situação dos imigrantes nos EUA pós-11 de setembro; Segundo, da solidão, do propósito da vida e da coragem de tentar mudar as coisas. Um belo filme, bem kafkiano, em que o ator principal, Richard Jenkins, faz a diferença.  Lembrei do texto que escrevi sobre a palestra do Barry Schwartz na TED. [...]


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