
Acabei de ler Crowdsourcing, de Jeff Howe, traduzido aqui com o duvidoso título “O Poder das Multidões”.
É mais um livro na linha do Wikonomics, publicado há alguns anos, e que tenta desvendar essa nova era dos negócios em que o chamado “esforço coletivo” remodela os negócios, turbinado pela massificação da internet e de softwares de colaboração em massa.
Howe tem credenciais para essa tarefa. É editor da revista Wired, foi editor-sênior da Inside.com e colaborador da Village Voice. Além disso, foi quem criou o termo Crowdsourcing (que, justiça seja feita, é de difícil tradução). Porém, ao final do livro, que sem dúvida é interessante, traz insights e exemplos ilustrativos de como novos negócios estão sendo moldados, fica a sensação de que é mais uma publicação sobre o tema escrita por alguém que, usando o feliz termo que ele mesmo criou, é um imigrante digital e não um nativo digital, de forma que a visão muitas vezes parece de um outsider (talvez não tenha como ser de outro jeito ainda; como ele mesmo diz, o fenômeno está engatinhando e não sabemos que bicho vai dar). Mas o livro é bom para quem gosta da área e para quem precisa conhecer esse novo contexto. Na verdade, acho que todo mundo precisa!
A argumentação central do livro é que a utilização da sabedoria coletiva por parte das empresas abre um horizonte totalmente novo e cheio de oportunidades. Há inúmeras organizações cuja força de trabalho está quase que totalmente fora dela, seja na captação do talento de pessoas que não estão na folha de pagamento, seja pelo conteúdo gerado pelos usuários, que é transformado em negócio. Howe argumenta que o número de pessoas com educação superior e que não trabalha em sua profissão é significativo, o que gera uma capacidade intelectual disposta a se dedicar parcialmente e colaborar com iniciativas em suas áreas de formação, dando mais significado ao trabalho. Além disso, as pessoas têm necessidade de participar de comunidades, interagir, ter status, ganhar reputação, especialmente à medida que as comunidades, como fenômeno social, renascem, após o declínio do final do século passado.
A exploração da diversidade em uma comunidade é um conceito-chave. Citando outro livro e alguns exemplos, ele lembra que um grupo de especialistas normalmente é homogêneo, têm a mesma formação e, portanto, busca soluções equivalentes. “Duas cabeças não pensam melhor do que uma quando juntas formam uma única cabeça“, disse Scott Page. Já em um grupo heterogêneo – possível de se obter em uma comunidade aberta – perfis complementares melhoram substancialmente a capacidade de resolução de problemas. Ele complementa: a comunidade coleta o conhecimento coletivo, disperso em cada cidadão. A multidão é mais sábia do que seus indivíduos mais inteligentes.
Há, ainda a questão da quantidade: por mais que você tenha bons funcionários, as melhores pessoas trabalharão fora de sua empresa (é uma questão estatística: a Procter & Gamble, por exemplo, tem 8.500 pesquisadores e descobriu na multidão 1,5 milhão de pessoas com qualificações interessantes).
Crowdsourcing não tem a densidade de Wikonomics, mas avança em alguns pontos. Um deles é o reconhecimento de que modelos de negócios com forte participação da coletividade gerando conteúdo dificilmente se sustentarão sem alguma contrapartida financeira aos colaboradores, especialmente se seu objetivo for ganhar dinheiro. Se essa for sua intenção, diz ele, é bom pensar em formas de dividir os ganhos com a comunidade que gera conteúdo relevante. Sobre conteúdo, ele cita a Lei de Sturgeon: 90% do que é produzido na rede é lixo (alguns acham essa projeção otimista). Outro dado interessante: a relação 1-10-89 – 1% gera conteúdo, 10% avalia/comenta, 89% consomem.
Outro avanço, natural até pelo fato de vir alguns anos depois de Wikonomics, é a caracterização de modelos de negócios que dão certo utilizando a coletividade. Que me lembre – e confesso que preciso reler este livro – Wikonomics mostrava com clareza como a internet e a colaboração da massa destruía valor (Wikipedia x Britannica, etc), mas era muito pouco farta em exemplos de sucesso. Mesmo assim, Crowdsourcing não traz informações financeiras suficientes que permitam uma análise mais minuciosa das empresas.
Apesar de se colocar como um observador externo, em alguns momentos Howe é parcial. Na parte mais complicada, ele argumenta que a comunidade está sempre certa, o que é perigosamente equivocado. “Tome uma atitude prática e democrática, permitindo que a multidão garimpe a fim de encontrar os diamantes melhores e mais brilhantes”, conclui. Talvez não seja sempre assim. O “efeito manada”, por exemplo, pode resultar em desastres, e Howe, parecendo encantado com aquilo que de fato a comunidade pode fazer, ignora isso. Apesar dele citar o livro Cult of the Amateur, de Andrew Keen, que argumenta que estamos vivendo uma era de mediocridade, em que amadores substituem profissionais e são valorizados pela multidão, não explorou muito esse assunto – ficando a impressão de que ele defende a inteligência da multidão, mas não tem argumentos para contrapor o risco do “efeito manada” e da supremacia da mediocridade que, em muitos casos, ocorre.
Entre os exemplos legais citados no livro, destaco:
www.threadless.com: uma empresa que faz camisetas utilizando de forma muito bem sucedida a rede de usuários. Os usuários podem enviar estampas que, se aprovadas, são produzidas pela empresa. Os vencedores recebem camisetas gratuitamente e um prêmio em dinheiro, embora o maior benefício seja a reputação. Quem faz a seleção inicial são os próprios usuários do site, de forma que a empresa acaba se convertendo em um grande focus group, com pouquíssima chance de criar produtos que venham a encalhar. A empresa recebe semanalmente cerca de 1.000 desenhos que são votados pelos 600.000 participantes, que escolhem as 100 melhores. Destas, a empresa escolhe 9 camisetas para impressão. Vendia, à época do livro, 90 mil camisetas mensais com margens de lucro muito altas. A Threadless é, na verdade, uma empresa que vende Comunidade e não Camisetas. Conceito interessante.
www.istockphoto.com: uma empresa que vende imagens enviadas por usuários da comunidade, com uma qualidade um pouco inferior às fotos vendidas pelos bancos de imagens profissionais, mas a uma fração do preço. A iStockphoto reduziu o faturamento dos grandes bancos de imagem em 99% e acabou sendo comprada por um deles, a Getty Images, vendendo 18 milhões de fotos e faturando US$ 72 milhões por ano.
www.innocentive.com: essa é das mais interessantes, já tendo sido comentada no Wikonomics. É uma rede de cientistas em diversas áreas que podem resolver problemas ou desenvolver soluções para empresas. Hoje, são mais de 160.000 pesquisadores em todo o mundo. Quando a equipe de P&D de uma empresa empaca na solução de um problema, joga na rede. Se alguém resolver, ganha um valor em dinheiro, mantendo a propriedade intelectual. Um aspecto legal da lógica desse negócio é que, na rede, a empresa acessa profissionais com perfil diferente daquele existente internamente. Dessa forma, alguém com uma formação distinta, aplicando uma solução heterodoxa, pode resolver um problema ou trazer uma solução relevante. É o Teorema da Capacidade de Superação da Diversidade, de Scott Page: as pessoas que você menos esperaria que pudessem resolver um problema são exatamente as que têm mais chances de solucioná-lo.
Seria interessante termos dados financeiros sobre ela, mas o livro não os traz.
SETI@home: é uma iniciativa da Universidade de Berkeley, na Califórnia, cujo objetivo é varrer dados captados por grandes telescópios que são analisados por computadores de 3 milhões de usuários. Como isso é feito? Você instala um protetor de tela em seu micro e ajuda a tentar descobrir se há vida fora da Terra. É um exemplo de compartilhamento de recursos ociosos (no caso a capacidade de processamento de computadores pessoais) e da importância de se conseguir quebrar uma tarefa em pequenas partes, aspecto essencial do trabalho coletivo via internet.
www.topcoder.com: essa empresa começou fazendo concursos de programação para programadores de computador, em que os melhores recebiam prêmios em dinheiro, patrocinados por grandes empresas do setor, que assim identificariam novos talentos. No início de 2006, a empresa tinha 70.000 programadores cadastrados, reunindo provavelmente os melhores programadores jovens do mundo. Com isso, começou a oferecer serviços de programação, em que a tarefa era quebrada em pequenos blocos e juntada depois. Os programas da TopCoder têm 0,98 bug a cada 100 mil linhas, ao passo que a média do setor é de 6,além de ser feitos muito mais rapidamente.
Há ainda cases como a Wikipedia, Google, Netflix, Digg.com, Marketocracy, Current TV, IdeaStorm, American Idol, Kiva, SellaBand e outros.

Jeff Howe
