A tarde estava ensolarada e quente, e o gramado, amplo e quase deserto, rodeado de árvores, conferia um pouco da tranqüilidade que o momento demandava. Ela falava quase sem parar assuntos sem importância, evitando enfrentar o motivo que os levava ali. Na verdade, nem sabiam ao certo porque se encontravam. Talvez apenas pela vontade de estar. Havia entre eles, ainda, uma proximidade difícil de explicar, uma cumplicidade, uma sensação de conforto mútuo. Lembranças do que viveram; gratidão? Talvez. Amor? Não importa.
A beleza triste de uma alma-de-gato preencheu o ambiente. Olha o bicho, exclamou ela. A mesma simplicidade espontânea e alegre, ingênua, cheia de vida, que o tinha conquistado desde que se conheceram. Ela, a própria síntese da vida, que pouco sabia além de simplesmente viver. Ela, que era mestre no que realmente importava. Não foi suficiente. O que seria suficiente? A vida não era óbvia, ele suspirou. Se fosse, nunca teriam vivido o que viveram. Consolou-se. Resignou-se. Vai passar.
Poderiam ficar uma vida inteira naquele gramado. Qualquer assunto, por mais insignificante, seria imensamente interessante. Estranhos os caminhos que inconscientemente escolhemos. Tiveram a vida para falar, para traçar os planos de um futuro feliz, e agora, tudo perdido, conseguiam tocar um pouco da harmonia que antes tanto faltara. Porque só agora?, ela lamentou, com incompreensão. Porque não conseguimos quando a felicidade estava ali, desprevenida…
A tarde caía e os mosquitos os fizeram lembrar que era hora de ir. Uma vida inteira ali não traria as respostas nem restituiria o passado. O trajeto até os carros foi tenso como o início. Ele queria abraçá-la, mas para quê? Seria tão pouco, perto de tudo que haviam vivido juntos, que era melhor não ter abraço, nem nada mais… Nem o encontro deveria ter tido. Para que, afinal, estavam ali? Para um final feliz? É possível haver finais muito infelizes, mas final feliz, por definição, não pode haver. Estavam ali, não há outra explicação, simplesmente porque queriam estar, o mesmo impulso que os havia aproximado, pouco a pouco, sem pedir permissão. O sopro final. Abraçaram-se como velhos amigos. A vida, definitivamente, não é óbvia.
Quem sabe se veriam de novo algum dia? Será que a chama ainda existia ou, como as estrelas no céu, aquilo era apenas o brilho do passado? Será que seriam pelo menos amigos? Ela sabia que não. Suas vidas e suas carências se cruzaram, até se enroscaram, mas seguiram seus rumos como deveriam seguir. A distância só se faria aumentar. Restariam, enfim, as lembranças e as transformações, como a luz de estrelas que aconteceram em algum momento distante, mas que sempre estarão à vista, como uma recordação viva do que passou e que precisa ser confirmada a cada noite.
Não havia mais o que dizer ou fazer. Ela, sempre ela, sorriu e se foi. Por alguns instantes, ele ficou parado, para logo então fazer o mesmo.


Muito bonito esse texto. Você é um excelente escritor.
Por: Nina em setembro 27, 2009
às 10:40 pm