Publicado por: marcelopcarvalho | março 21, 2009

Bairros privativos em SP: de volta à era medieval

Na semana passada, o Estadão trouxe matéria sobre a construção de 7 novos empreendimentos “4 em 1″, unindo residência trabalho, lazer e comércio. Serão mini-cidades, muradas, anunciadas com o curioso e contraditório slogan “venha morar sem grades”.

A proposta é atrativa: em um dos empreendimentos, com seis meses de anúncio, 70% das unidades já haviam sido vendidas. É a promessa de qualidade de vida, a resposta natural a uma sociedade que, de um lado, estimula a competitividade e o acúmulo de riqueza e, de outro, não oferece as condições de segurança para que o usufruto dessa riqueza possa ser feito de forma plena, com o mínimo de riscos. O jeito, nessas condições, é criar mini-cidades onde o trânsito de pessoas é restrito, esperando-se, assim, criar as condições de vida que, lá fora, fomos incapazes de criar.

Até aí, tudo bem. Mas indo um pouco mais a fundo na questão, não há como evitar o pensamento de que tudo isso nada mais é do que uma prova do fracasso que estamos colhendo como sociedade. As cidades sempre foram o ponto de encontro das pessoas, onde o choque de diversidade e a interação freqüente ofereciam, em última análise, o combustível para novas idéias e para o desenvolvimento. O sucesso desses novos empreendimentos, que são o passo seguinte da vida em condomínios fechados, é o atestado de que, aos poucos, estamos desistindo de tentar melhorar as cidades onde vivemos. Em vez de enfrentar a situação, optamos por nos refugiar, protegidos em algo desfigurado do contexto urbanístico, mas que, ao menos, oferece aquilo que as cidades não conseguiram oferecer (além da segurança, a fuga do trânsito), apesar de estarmos no século XXI, milênios após o surgimento das primeiras aglomerações urbanas. Não deixa de ser decepcionante.

Sei que para quem já teve experiências traumáticas com a segurança, a decisão de morar em condomínio ou nesses novos bairros é compreensível; não julgo essa opção, portanto, sob o ponto de vista individual, apenas coletivo: parece-me uma irônica volta à Idade Média, quando as cidades eram protegidas por muros e o ir e vir era impedido ou em grande parte restrito. E isso, hoje, é anunciado como a “solução”. O arquiteto e urbanista Jonas Rabinovitch sintetiza essa tendência: “Se o condomínio em questão significar a criação de um gueto físico, social e econômico, isso obviamente não pode ser bom para a cidade”. Ora, o que seriam esses empreendimentos, se não guetos físicos, sociais e econômicos?

Tenho esperança de que as cidades possam vir a ser habitáveis, como a população deseja. Certamente, a mudança para condomínios fechados e bairros privativos não representam a solução, pois eliminam o problema daqueles que mais têm condições de mudar alguma coisa. Ocorre que não é possível jogar a sujeira para baixo do tapete; ela sempre estará lá, sendo acumulada, por mais que a ignoremos. Mesmo com os bairros privativos, as cidades não desaparecerão, bem como seus problemas, que tendem a se agravar caso a opção dos mais influentes seja simplesmente fugir.

A vida desse jeito, restrita a guetos de progresso e qualidade de vida, cercados por insegurança crescente e pobreza, soa-me enfim como uma grande derrota coletiva.

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Respostas

  1. Marcelo,
    Muito boa a sua analogia com os feudos medievais.
    Sim, realmente é uma derrota para toda a sociedade. E tmabém um empobrecimento cultural, pois quem vive em “guetos” perde o contato com o diferente.

    “Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
    Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
    Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
    E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.”

    (Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)


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