Publicado por: marcelopcarvalho | março 29, 2009

A dificuldade de desfrutar plenamente o sucesso

Alguns dias de inatividade no blog – a velha combinação de certa falta de inspiração e muito trabalho – nessa semana, realizamos um evento para 700 pessoas que, como sempre, mobiliza todos os esforços e energia, sobrando pouca coisa para o resto.

É o décimo grande congresso que realizamos nos últimos oito anos. A realização de um evento de porte é um teste em vários sentidos. Primeiro, a concepção  e o planejamento, que antecedem em pelo menos meio ano a sua efetiva realização. Depois, os inúmeros detalhes que fazem a diferença entre o sucesso e o fracasso; tantos detalhes que seria enfadonho e pouco produtivo enumerá-los. Ainda, os diversos imprevistos que sempre vão ocorrer, por melhores que tenham sido feitas as etapas anteriores. Por fim, o evento em si, a conclusão de um trabalho minucioso que não aparece, que mobiliza bastante gente e muito fostato.

Fazendo um balanço, posso dizer que os dez eventos tiveram sucesso, o que é motivo de satisfação e análise. Os dois últimos foram especialmente desafiadores. O da semana passada, pela época complicada e pela região em que realizamos, onde eventos desse porte e com o formato adotado não são exatamente a regra. Era um risco e que superou as melhores expectativas.

O objetivo aqui não é ufanizar. Pelo contrário. Analisando as razões pelas quais tivemos sucesso, não posso deixar de concluir que a principal delas é o medo do fracasso. Como disse certa vez Spielberg, “me preparo para o fracasso e acabo sempre sendo surpreendido pelo sucesso”. É mais garantido ser pessimista na análise e otimista na ação, do que vice-versa.

Porém, o foco em minimizar as chances de fracasso tem seu preço. A partir de certo momento, torna-se difícil identificar o prazer nisso tudo. A preocupação (talvez excessiva?) com os detalhes, a antecipação de possíveis falhas, o sentido de sempre se estar alerta, de um lado favorece o sucesso, mas de outro inibe o seu desfrute. Há um meio termo? É possível ter ambos? Hoje, não posso dar essa resposta.

Claro que o sentimento de tarefa bem realizada dá prazer. As pessoas vêm te elogiar com sinceridade, você percebe que proporcionou algo significativo, talvez tenha feito a diferença. Claro que o sucesso à luz dos holofotes massageia o ego, aumenta a confiança, estimula. Mas tudo isso conta cada vez menos quando o conforto substitui o prazer de realmente inovar, de se superar. Talvez seja mesmo sempre assim, em tudo.

Mas talvez não em todo mundo. Características pessoais talvez tenham sua parcela de culpa. O velho inconformismo, a coceira que dá quando uma conquista passa a ser corriqueira, o desafio que já não é tão grande assim, ainda que, quando de sua concepção, era algo arriscado.

No extremo, cabe a poesia de Chacal, que minha irmã publicou no blog dela:

O OUTRO
só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível
não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível
só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível
não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível
eu quero
o outro

Fica, enfim, a dúvida: o que impede o desfrute pleno do prazer são o comportamento e os procedimentos que conduzem ao sucesso e que anestesiam a percepção da realização (afinal, alguém tem que ter o stress), ou uma característica pessoal, em que o que realmente conta é o impossível, o improvável, o salto no escuro?

Talvez ambos. Cresce, de qualquer forma, a sensação da necessidade cada vez mais próxima de novos vôos, de novos desafios, de novos testes e saltos no escuro, que demandem concepções inovadoras, planejamento e formas de execução mais desafiadoras.


Respostas

  1. U-hu ! Vamos lá:

    - acho que fazer bem feito é uma manifestação do tipo que pessoa que se é. Vc fará bem feito porque este é o seu jeito de ser e de se manifestar – o quê se faz pode ser mais ou menos desafiador, não importa. O tema é o sujeito e não o objeto.

    - dado que é inescapável fazer bem feito, a arte é relaxar e se divertir, o que não significa descuidar, em absoluto. Relaxar implica esforço e atenção, especialmente quando se é perfeccionista. Precisa-se mudar a forma de encarar a situação. Em uma comparação simplória, é como se fosse optar por achar que o copo está metade cheio ou metade vazio.

    - como vc bem colocou, o preço pode ser alto. É o risco de se fechar para as pequenas graças e ver o prazer da realização indo embora. Churchill (justo ele) sofria de anti-clímax, não é incrível ??

    - certos egos, mesmo massageados, jamais deixarão de buscar desafios, não se preocupe… A força que os move não dá muita bola para conforto…

    - fazer bem feito é processo, desafio é ponto de partida, eles se encadeam e não se substituem. O processo terá momentos com mais ou menos graça; o desafio terá a graça que vc quiser dar.

    Não sei se fui clara, mas é por aí… O poema é perfeito ;-)


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