Publicado por: marcelopcarvalho | abril 5, 2009

Filme: Não estou lá (I am not there, 2007), biografia de Bob Dylan

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Retratar a vida de Bob Dylan não é tarefa fácil. Ele é indefinível, uma metamorfose ambulante, para usar a expressão do Raul Seixas, na falta de uma melhor. Por isso, é o que é: um gênio, inclassificável. Sim, gênio, porque alguém que produziu o que ele vem produzindo há décadas, em quantidade e qualidade, só pode ser classificado como um gênio (você já percebeu que minha análise não é isenta).

Por tudo isso, o desafio de fazer um filme biográfico de Dylan é considerável. Para dar conta do recado, o diretor Todd Haynes utiliza seis atores diferentes para retratar o artista em suas diferentes fases, cada um com um nome diferente, sendo um deles um garoto negro de 11 anos (Marcus Carl Franklin) e uma mulher (Cate Blanchett, simplesmente fantástica e sem dúvida o melhor Dylan). Integram ainda o elenco de primeira Richard Gere, Heath Ledger, Christian Bale, Ben Whishaw (os demais Dylans) e Julianne Moore, no papel de Joan Baez, ela também com outro nome no filme. A trilha sonora, como não poderia deixar de ser, é puro Dylan, ainda que vários clássicos não tenham sido incluídos, até porque o filme precisaria ter umas 4 horas para uma boa amostra de sua obra.

O filme não tenta explicar ou caricaturar Bob Dylan – apenas traz, de forma interposta, às vezes meio caótica (no bom sentido), os vários Dylans: poeta, músico de protesto, pai de família, meio marginal, iconoclasta, religioso, recluso. Há alucinações, sonhos e uma morte simbólica do músico, logo no começo. Mostra, também, como a imprensa, o público e a sociedade tentam, de forma infrutífera, rotulá-lo. Bob não está nem aí para os rótulos: tem sido capaz de se reinventar, abandonando o que deu certo em troca de fazer o que acha certo, o que acha melhor para si naquele momento.

Dylan, no início

Dylan, no início

Contraditório, subversivo, melancólico, distante, politicamente incorreto (quando não existia o termo), cético, irônico, por isso às vezes arrogante, Bob Dylan é, acima de tudo, independente. Não deve satisfação a ninguém, algo raro para quem tem fama e está sempre nos holofotes, viciando-se no sucesso. Aliás, Bob Dylan parece renegar o sucesso – parece não se importar com a aceitação de sua obra pelo público ou pela crítica. O filme retrata alguns episódios em que seus fãs o vaiaram em shows por mudar seu estilo, e ele demonstra não se importar, como se dissesse que é maior do que tudo isso ou, ao menos, não faz parte de tudo isso. Essa postura não convencional, que talvez irrite e sempre surpreenda, é sem dúvida combustível adicional para o seu sucesso.

Aqui, um parêntesis. No ano passado, fui ao show dele no Via Funchal. A expectativa era enorme e a platéia, composta por fãs que pagaram várias centenas de reais pelo privilégio, esperava “o velho Dylan” (de novo, os rótulos). Com um som pesado (embora de qualidade, com uma banda fenomenal), praticamente sem interação, cantando quase de costas para o público, ele desfigurou diversas músicas a ponto de várias delas se tornarem irreconhecíveis. Não sei se é uma provocação, ou se ele é assim mesmo: faz parte do seu show.

Fico pensando se há alguma relação entre essa independência e a qualidade da obra, o quanto ela consegue tocar as pessoas justamente por buscar lá dentro, sem interferências externas e outras preocupações, a sua inspiração. Apesar da enorme exposição, Dylan não sucumbe e consegue ser sempre ele mesmo, seja lá o que isso signifique (nem ele sabe e não faz questão de saber).

Lembro-me agora de outra figura parecida, e que também exerce fascínio e influência, apesar de viver recluso há 40 anos. Trata-se de J.D. Salinger, que escreveu em 1951 “O Apanhador no Campo de Centeio”, o livro mais vendido no mundo depois da Bíblia e que, ainda hoje, vende 250.000 exemplares por ano. Dizendo que escreve para si mesmo e para o seu prazer, Salinger é outro que renegou o sucesso, de forma muito mais radical do que Dylan, claro: hoje, aos 90 anos, vive isolado, não concede entrevistas e não se deixa fotografar. E não publica nada há décadas.

J.D. Salinger

J.D. Salinger

Talvez Dylan e Salinger sejam dois melancólicos, incrédulos. O melancólico é incurável, porque sabe a verdade sobre si mesmo (Freud?). É possível que nesse conhecimento da verdade esteja o real motivo para o sucesso de ambos: eles sabem como ninguém colocar o dedo na ferida que, até por instinto de sobrevivência, tendemos a evitar.

Recomendo o filme, mesmo se você não for fã de Dylan.

O Apanhador no Campo de Centeio

O Apanhador no Campo de Centeio


Respostas

  1. E eu recomento o livro, sempre!
    Aliás, acabo de dá-lo de presente.


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