
Cá entre nós, que Lula seria o presidente do povo, era esperado. Que seria aclamado por grande parte do empresariado e pelos banqueiros, já foi uma surpresa singular. Mas, convenhamos, ser reconhecido em fóruns globais, a ponto de sentar-se ao lado da Rainha na reunião do G-20 e ser chamado de “the guy”, “boa pinta” e “político mais popular do mundo” pelo presidente dos Estados Unidos, aí já é demais. Pelo menos para a elite intelectual desse país – e aqui me incluo, vai – isso era impensável. Tínhamos era vergonha dos possíveis vexames do presidente que aqui dentro já era um festival de besteiras a tiracolo.
E aposto que nenhum lulista ou petista, por mais fanático que fosse imaginaria isso lá nos idos de 2002. Esse papel caberia a Fernando Henrique, esse sim letrado, culto, fino, que não faria feio (e não fez, é verdade) nas interações com os líderes mundiais. Mas não um presidente de modos toscos, que só fala português e que mal estudou, e ainda se orgulha disso. Pois é, sinal dos tempos: Lula é bem mais popular lá fora do que FHC jamais foi.
Porque Obama reverenciou Lula daquela forma? Há várias possíveis interpretações. A mais evidente, lógico, é que Lula tem grande empatia mesmo, e aí não tem classe social, raça, país. Ele tem o poder de cativar as pessoas com quem tem contato, ainda mais em final de mandato, com alta popularidade e com uma crise menor do que a que ocorre lá fora. Lula é só alegria, e nesse estado sua empatia floresce ainda mais.
Mas não é só empatia. Em se tratando de Obama, talvez possamos conjecturar que Obama e Lula são ambos excluídos que venceram. Obama, um negro nos Estados Unidos, tornando-se presidente. Lula, um nordestino com baixa formação escolar e pobre, trabalhador braçal, tornando-se presidente. Está certo que Obama formou-se em Harvard, mas, lá no fundo, ele provavelmente se identifica mais com os Lulas da vida do que com seus colegas de Harvard. Na hora do vamos ver, as raízes, a história de cada um é o que pega mesmo. E, por essa via, Obama tem uma inclinação natural a gostar de Lula. Seu pai veio do Quênia, e ponto final.
Há outro fator motivando a admiração de Obama a Lula: Obama, esse excluído, está chegando cheio de expectativas e, certamente, muitos temores. Lula, o outro excluído, está quase saindo, com inegável sucesso depois de quase oito anos no poder. Se Obama chegar ao final do mandato, ou dos mandatos, com o reconhecimento que Lula obteve, terá tido enorme sucesso. Lula, nesse ponto, é um estímulo e um benchmark para Obama. E o cara como ele que já deu certo. É a prova de que é possível. É a segunda parte do Yes we can. A parte em que a onça vai beber água. A que really matters.
Alto lá! A posição internacional atualmente vivida por Lula não é só mérito dele. O mundo desenvolvido assiste a uma troca de bastões no poderio econômico e político. Estados Unidos e União Européia terão de passar o bastão, ou ao menos dividi-lo, com novos integrantes, tão desconhecidos e ameaçadores como a Rússia, a China e a Índia. Todos com armas nucleares, isto é, com poder bélico capaz de destruir o mundo. São três enormes caixas-pretas: a Rússia, com a corrupção e as questões geográficas não resolvidas (e a imagem ainda clara da divisão EUA-URSS, ou seja, eles já tiveram enorme poder e influência); a China, o novo motor, oriental, com a ditadura extemporânea e com a qual se tem que conviver; a Índia, uma colcha de retalhos étnicos. Isso, sem contar os riscos ou, na pior das hipóteses, os incômodos diplomáticos que causam um Irã ou, para ficar mais próximo, uma Venezuela com Chavez à frente. Talvez por muitos e muitos anos.
Nesse meio todo de países emergentes surge o Brasil, o quarto poder: um país pacífico, que não ameaça ninguém, de cultura ocidental, sem surpresas. O fato é que o Brasil é “boa pinta” antes de Lula ser. Nossos problemas externos se resumem à segurança aos turistas no Rio de Janeiro e ao desmatamento da Amazônia (ok, esse tem impacto, mas compare com o Irã, a Rússia…). E, agora, ainda por cima o Brasil anda fazendo as coisas certas na esfera econômica: com todos os problemas que conhecemos e nos revoltamos, temos, na pior das hipóteses, errado menos do que os outros. E isso não é só Lula. Vem de antes, vem até do Collor, com a abertura econômica mal feita, mas que foi feita. De lá para cá, Itamar, Fernando Henrique e Lula, a linha mestra foi mantida. E continuará a ser mantida, a não ser que a crise econômica traga o caos para o país, abrindo espaço para candidaturas heterodoxas – Heloísa Helena, Ciro Gomes e – vira essa boca pra lá – Garotinho (bom, o Enéas já morreu). Caso contrário, PSDB ou PT, tanto faz. No que interessa, é a mesma coisa. A briga de egos não atinge o que realmente importa. Por isso, os Sarneys da vida hoje impactam menos do que antes. O barco segue, apesar dos políticos da velha guarda.
Mas a probabilidade do caos ocorrer é muito pequena. Começa a haver a percepção que, no frigir dos ovos, sairemos melhor desse imbróglio do que os outros países. Pipocam opiniões argumentando que, quando a situação se normalizar, em 2010 ou 2011, teremos um grande fluxo de investimentos para cá. O Brasil ainda não é, mas será a bola da vez em breve. Eu também acho.
Lula, enfim, “é o cara” por diversas razões e algumas coincidências. Mas, como dizia Nelson Rodrigues, “Deus está nas coincidências”. O mundo definitivamente dá as suas voltas! Goste ou não, “He is the Guy”. E nós talvez sejamos “the country”.

Sem intenções partidárias, ou ideológicas, sugiro a leitura deste artigo:
http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/2009/07/08/premio-de-lula-orgulha-o-pais-mas-imprensa-esconde/
Por: Nina em julho 14, 2009
às 2:41 am