
Vi o vídeo da tal Susan Boyle, a gordinha de 47 anos, feia, desajeitada e confusa que vai a um programa de calouros na Inglaterra e, para surpresa de todos, arrasa com uma voz potente e de altíssima qualidade.
O vídeo permite algumas reflexões interessantes. Primeiro, a mais óbvia, é que julgamos pelas aparências. Aquilo que foge ao padrão que consideramos belo carrega um ônus de preconceito. O mundo é carregado deles, sendo os mais evidentes, sem dúvida, os raciais, mas não só eles. Sabe-se, por exemplo, que pessoas altas têm mais chances de alcançar posições de liderança em empresas sem que isso esteja relacionado à sua real capacidade para tal.
O vídeo expõe, assim, a questão do preconceito em relação à (ausência da) beleza, tão entranhado na sociedade atual e que é demonstrado pelo crescimento da indústria da aparência, do qual fazem parte segmentos altamente lucrativos como os de cosméticos, cirurgias plásticas e tratamentos de pele, entre outros. Quem foge ao estereótipo precisa de muito mais para mostrar seu valor. É sempre difícil nadar contra a corrente. É cruel, mas é a realidade.
Mas não é só isso. O vídeo mostra também como o ser humano pode ser maldoso, especialmente quando acobertado pela força e pelo anonimato da multidão. No início do vídeo, tanto os apresentadores quanto a platéia não se envergonham de demonstrar sua descrença em relação à capacidade da candidata. Daí para o escárnio cínico coletivo é um simples passo. O ser humano é mesmo pródigo em crucificar aquilo que choca, que coloca em cheque suas verdades.
Para a maior parte dos mortais, essa provação seria demais e, por mais que houvesse talento ali, ele nunca brotaria. Porém, contra tudo e contra todos, meio ao estilo Forest Gump (e talvez apenas por isso), ela não dá a mínima para as aparências, vai lá e prova que estava certa quanto ao seu talento. E o mundo, errado.
Eis que, diante do sucesso arrebatador e inegável, tudo muda! Todos, sem exceção, passam a cultuar Susan Boyle. De aberração ela passa, em 7 minutos, a ídolo inconteste, talvez em parte pela consciência pesada e sentimento de culpa de todos por terem feito um julgamento prévio tão equivocado. E, afinal, falhas como essa sempre nos trazem certa dose de humildade que, normalmente, não dura muito. Me pareceu especialmente contudente a participação da jurada loira, belíssima, que deve ter pensado, por alguns segundos, diante da feiosa talentosa, o quanto de seu sucesso é devido a sua aparência e o quanto é devido realmente à sua competência.
O fato é que o ser humano é, acima de tudo, um político: todos querem jogar no time que está ganhando. A ele, tudo; aos perdedores, absolutamente nada. Precisamos, enfim, de nossos heróis, ainda que sejam as Susan Boyles da vida.
Essa é a análise, digamos, mais pessimista. Há, evidentemente, o outro lado da questão, mais otimista quanto ao nosso potencial como sociedade. O reconhecimento do talento quando ele existe, a gratidão, o arrependimento confessado e, mais do que isso, a devoção ao sucesso de pessoas improváveis como quase todo mundo é.
Nesses tempos de descrença generalizada, de choque de valores e de solidão, comprometendo nossa identidade, Susan Boyle dá um sopro de esperança. É o torto que deu certo, a prova de que o sucesso pode alcançar a todos. Ela faz parte da estirpe dos jogadores pobres de futebol que viraram ídolos, do personagem do filme “Quem quer ser um milionário?”, e daí por diante. Isso explica o frenesi em torno de seu sucesso: quando vi o vídeo, ele havia sido acessado mais de 46 milhões de vezes. 46 milhões! Claro que o inusitado da situação é também combustível para toda essa audiência, mas certamente o acontecimento vai fundo na psicologia humana e disso decorre esse “sucesso”.
É isso aí. O vídeo de apenas 7 minutos envolvendo a performance de Susan Boyle é um exemplo do comportamento humano em toda a sua intensidade, para o mal e para o bem. Abaixo, o vídeo.

Caro Marcelo, até a própria jurada confessa seu cinismo diante de Susan. (Mas nesse ponto a platéia já havia dado o seu veredito e ela não teria coragem de ir contra.)
Todos nós temos esses viéses de atribuição de valor na primeira impressão, de forma quase inconsciente. Confesse que você também deu uma risadinha maldosa quando viu o vídeo pela primeira vez…
Mas às vezes ocorre o inverso: o feinho e o pobrinho angariam simpatia mais por sua condição do que por seu talento, numa inversão robinhoodiana.
Só o tempo dirá o que será de Susan…
(http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2009/04/do-sucesso-efemero-de-susan-boyle-a-jose-carreras.html).
Abraço, Rodolfo.
Por: Rodolfo Araújo em abril 29, 2009
às 6:22 pm
E no ano anterior não foi diferente… Esse cara foi o vencedor de 2007
Por: Hariane em abril 29, 2009
às 9:55 pm
Como não dá para ver, procurem por Paul Potts no Youtube. A primeira apresentação no programa é um vídeo de 4’10.
A situação é exatamente a mesma: pessoa com uma aparência fora do padrão, agravada pela baixa confiança (ao contrário da Susan) e com uma voz que, novamente, calou a todos.
A mim, ele emocionou muito mais, por todos os motivos…
Por: Hariane em abril 30, 2009
às 11:52 am
Não sei porque, mas achei tbém o episódio do Paul mais emocionante. Talvez pelo fato do episódio Suzan Boyle ter sido a reinciência do caso Pots.
Por: Elessandro em maio 26, 2009
às 11:41 pm