Em Madri, fiquei no Palace, um dos dois hotéis (o outro foi o Ritz) construídos no início do século XX porque o rei Afonso XIII ficou envergonhado ao constatar que a cidade não dispunha de hotéis luxuosos para os convidados de seu casamento.
Na noite em que cheguei, a atmosfera me contagiou e resolvi comemorar a contento. Tarde da noite, meia noite ou mais, resolvi jantar no hotel, embalado por um Herdeiros do Marqués de Riscal Elciego Álava 2003 Reserva, um vinho e tanto.
Eis que, no cardápio, um maigret de pato. Não resisti e pedi o prato, feito com esmero, com mel e framboesas. Sempre que posso, peço pato. Gosto da iguaria e, na verdade, quero desafiar meu pato preferido, o preparado pelo Patagônia, a 30 minutos de casa, na improvável Águas de São Pedro. Até agora, não achei nenhum superior ao pato com molho de laranja e cuscuz marroquino preparado por esse simples restaurante que, há anos, freqüento, junto com outros poucos privilegiados.
O pato do refinado Palace estava ótimo mas, como já esperava, bastante inferior ao do singelo Patagônia do interior de São Paulo, mesmo turbinado pelo grande vinho. Fui dormir feliz, menos pela bela refeição e mais pela sensação de vitória secreta: afinal, poucos têm acesso ao que eu tinha, na pacata Águas de São Pedro, no restaurante do chef argentino (bem, nada é perfeito…).
Lembrei-me, porém, que havia meses que não ia ao meu restaurante favorito. Uma falha grave, pois me sentia de certa forma responsável por manter vivo aquele lugar pertencente a tão poucos e que, receava, poderia não durar para sempre.
De volta ao Brasil, recebo, de passagem, a notícia. “Sabe o Patagônia? Fechou. Até a casa está à venda”. Choque. É como receber posteriormente a notícia da morte de alguém que você gosta muito, mas que por razões inexplicáveis, não vê há tempos. Fica a sensação da perda e da culpa. De que você poderia ter feito alguma coisa e não fez.
Aquele lugar, em que nunca consegui pedir nada além do pato, apesar de, por diversas vezes, ter entrado com o firme propósito de pedir alguma outra coisa do cardápio (mas não conseguia). Aquele lugar, em que, no meu aniversário, ganhei um bolo com direito a parabéns e tudo mais. Aquele lugar, que carrega tantas memórias boas e nenhuma ruim, coisa rara em um restaurante freqüentado tantas e tantas vezes. Aquele lugar, fechado para sempre. Até a casa à venda.
Pensando bem, até que foi bom. De nada adianta ficar ouvindo as vozes do que ficou para trás. E o Patagônia com seu pato estupendo era cheio dessas vozes que já se foram, mas que teimam em ecoar. Melhor assim. Outros patos certamente virão. Talvez ainda melhores do que aquele.

O Palace, em Madri, no Paseo del Prado, de frente para a Fonte de Netuno

Marcelo, que pena que acabou o Patagonia! O que fará o proprietário? É sempre triste quando um bom estabelecimento fecha as portas… Espero que você logo encontre outro restaurante favorito. E quem sabe o argentino te dá a receita do pato? um abraço,
stella
Por: stella daudt em maio 1, 2009
às 12:54 pm
Marcelo, eu procurava o telefone do Patagônia, porque pertencia a uma amiga de infância que se casou com o argentino (nada é perfeito, como vc diz…)
Sabe como posso encontrá-los??? Perdi o contato há alguns anos e morro de saudades dela…
Obrigada,
Analu
Por: Analu em dezembro 31, 2009
às 8:19 pm