Publicado por: marcelopcarvalho | maio 8, 2009

Toledo, de El Greco, sobre o mítico Tejo, de Caiero

Toledo ou Segóvia? Difícil escolha. Tinha apenas um dia, só uma das duas cidades espanholas poderia ser visitada. Segóvia, do aqueduto romano, da catedral gótica e do Alcazár que mais parece um castelo de conto de fadas. Toledo, cidade medieval no topo de uma colina, rodeada pelo principal rio da Península Ibérica.

A possibilidade de conhecer o mítico Tejo (ou Tajo, como é conhecido na Espanha) falou mais alto. Fui para Toledo.  

A vontade de ver o Tejo nasceu do poema de Fernando Pessoa, em que o Tejo não é exatamente o protagonista. Esse belíssimo poema, talvez meu favorito por representar tanta coisa de uma forma absolutamente simples e definitiva, escrito sob o heterônimo Alberto Caiero, que Pessoa chamou de seu mestre, me acompanha há muito tempo: sua primeira estrofe foi o tema do vestibular da Fuvest, vinte e tantos anos atrás. Lembro-me como se fosse hoje, como todos os momentos importantes em nossas vidas.

Depois de meia hora no trem de alta velocidade, tomado na estação Atocha (que sofreu os atentados terroristas em 2004), estava eu ali, cruzando a ponte sobre o Tejo de meu imaginário.

Toledo, essa pequena cidade de ruelas entrelaçadas, em que se sobressaltam o Alcazár e a imponente e impressionante catedral. Toledo, em que as culturas espanhola, árabe e judia se interpuseram dando um resultado único. Toledo, emoldurada pelo Tejo que corre manso ao pé da montanha.

Parêntesis: descobri que Alberto Caiero, o primeiro heterônimo de Fernando Pessoa, surgiu em 8 de março de 1914, quando o poeta português, em uma espécie de êxtase, escreveu diversos poemas do “seu mestre”. Curioso descobrir que a parição do primeiro heterônimo surgiu no dia do meu aniversário.

Abaixo, o belo Tejo e algumas fotos de Toledo. A seguir, o poema de Caiero. Em Toledo, não deixe de visitar a Categral, a Igreja de San Tomé, com a obra-prima de El Greco, o Museo de Santa Cruz, a Igreja de los Jesuitas, o Monasterio de San Juan de los Reyes e a Igreja visigoda de San Román. E ande pela cidade, meio sem rumo, para descobrir seus segredos.

Eis o Tejo

Eis o Tejo

Uma ruela de Toledo

Uma ruela de Toledo

Igreja de los Jesuitas, que tem a melhor vista de Toledo

Igreja de los Jesuitas, que tem a melhor vista de Toledo

Monasterio de los Reyes

Monasterio de los Reyes

Um muro árabe se descortina

Um muro árabe se descortina

XX – de O Guardador de Rebanhos

    O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
    Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
    Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

    O Tejo tem grandes navios
    E navega nele ainda,
    Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
    A memória das naus.

    O Tejo desce de Espanha
    E o Tejo entra no mar em Portugal.  
    Toda a gente sabe isso.
    Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
    E para onde ele vai
    E donde ele vem.
    E por isso porque pertence a menos gente, 
    É mais livre e maior o rio da minha aldeia.  

    Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
    Para além do Tejo há a América
    E a fortuna daqueles que a encontram.  
    Ninguém nunca pensou no que há para além
    Do rio da minha aldeia.

    O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.  
    Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caiero


Respostas

  1. Oi poderia ter seu email pessoal, gostaria muito de tirar um dúvida com vc.

    Espero resposta!

    ana.julia272@gmail.com


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