Publicado por: marcelopcarvalho | maio 10, 2009

O que faz um líder

Já li muitas coisas sobre liderança, começando por traços de personalidade supostamente mais ou menos efetivos do que outros, o que, acredito hoje, não tem muito sentido (ex: pessoas mais carismáticas seriam melhores). Também, nesses anos todos tive algumas experiências que me permitem arriscar um pouco sobre o tema embora, já admito de início, não me considero um exemplo acabado do que vou escrever. Longe disso. A prática é sempre mais difícil do que a teoria.

As pessoas necessitam de liderança. Segundo Freud escreveu (Group Psychology and the Analysis of the Ego), o homem tem uma “paixão extrema pela autoridade e quer ser governado por uma força irrestrita”. Ele escreveu que essa necessidade é uma tentativa das pessoas de retornar ao mundo da infância, protegido pelos pais. Após estarem por si próprias no mundo, as pessoas perdem essa proteção e o líder tem o papel de resgatá-la. Nesse sentido, liderar tem um papel muito próximo e em várias situações de fato significa educar.

Busca-se em um líder não só proteção, mas também inspiração, desenvolvimento, orientação. Liderar é fazer as pessoas irem aonde não conseguiriam ir sozinhas. É uma definição interessante: um bom líder permite que as pessoas mudem de patamar em relação a si próprias, se superem.

Liderança é, no final, um processo solitário e de doação. Não se pode ser você mesmo: é preciso ser o que o grupo precisa que você seja. O líder precisa ser um reflexo das pretensões do grupo a fim de ter condições de se qualificar para a liderança (W.R. Bion). Nesse sentido, embora honestidade e sinceridade devam ser uma característica fundamental para dar credibilidade à liderança, eis um paradoxo: o líder acaba não sendo honesto consigo mesmo, uma vez que não pode ser ele mesmo, mas sim um instrumento para o grupo. Se as pessoas buscam proteção e inspiração, por exemplo, e o líder se mostra abatido ou desanimado, como vai querer que as pessoas se motivem? Ainda que esteja preocupado, com medo, triste, ele não pode demonstrar publicamente caso queira que sua organização supere os momentos adversos. Ele precisa ter estrutura para lidar com isso e, ainda, carregar a bagagem imposta por seus liderados.

Mas como ser um líder efetivo na prática? Será que existem comportamentos que qualificam ou desqualificam um líder, que fazem com que as pessoas identifiquem a possibilidade de proteção, inspiração e desenvolvimento em determinadas pessoas e, com isso, consigam ir mais longe?

Acredito que sim. Sem querer ser definitivo, acho que a liderança efetiva passa pelos seguintes pontos, e aí uso bastante o Jim Collins, para mim o melhor pensador de business da atualidade.

Dar o exemplo: nada pode ser menos efetivo para liderança do que falar uma coisa e fazer outra. Os valores são consolidados pela prática, e não pelo discurso. Se você fala em corte de custos em todos os níveis e de repente a diretoria aparece com carros novos e muito mais caros, as pessoas simplesmente não acreditarão que você está sendo honesto. É preciso lembrar, como disse Barry Schwartz, que a câmera está sempre ligada; tudo que é feito ou dito passa uma mensagem às pessoas. Que mensagem você pretende passar com cada fala ou com cada ação sua? Se você nunca pensou nisso, comece a pensar…

Decisão: nunca teremos todas as informações para decidir. Após reunir as informações possíveis, um líder precisa decidir (ou apoiar o grupo em uma decisão), ainda que isso implique em algum risco. Um líder que vacila nunca funcionará; decidir sem ter todas as informações é um ato de coragem e as pessoas buscam, acima de tudo, coragem na liderança.

Praticidade: o líder precisa saber simplificar as coisas, e não complicá-las. Precisa falar com objetividade, ser claro, entender o que ocorre na empresa e ser um facilitador efetivo. Um líder teórico, que as pessoas não compreendem, não funciona. Ele precisa ter proximidade com a execução e não ficar imerso nas questões estratégicas.

Humildade e honestidade: um líder precisa saber reconhecer seus erros perante o grupo. Precisa saber mudar de opinião quando as evidências indicam que está errado. Ele não pode ter a síndrome do juiz de futebol: diante das evidências de que não houve o pênalti, ele nunca volta atrás sob a pena de perder a autoridade.

O não-reconhecimento dos erros, ou a colocação da culpa em outra pessoa (como diz Homer Simpson, “a culpa é minha e a coloco em quem eu quiser!”) mina de forma definitiva a credibilidade da liderança. O reconhecimento dos erros e da culpa aproxima o líder de seus subordinados, mostra honestidade, firmeza de caráter, acessibilidade e auto-confiança, dando credibilidade e autenticidade à posição de liderança. As pessoas não querem um líder infalível e perfeito, mas sim alguém que as inspire e as ajude a superar seus próprios erros, que certamente virão. Não querem um super-homem de outro mundo, mas alguém como elas, passível de erros e que as ajude a lidar os seus.

E sobre os acertos? Um líder eficiente não fica com todos os créditos dos acertos para si. Harry Truman, um dos melhores presidentes que os Estados Unidos já teve, dizia que algo assim: “você pode fazer conseguir coisa na vida, desde que não se preocupe em levar os créditos”. É uma frase muito precisa e verdadeira.

Habilidades hard/soft: aqui uso o Jim Collins. Dar feedback é fundamental, mas poucos líderes o fazem e, quando o fazem, é normalmente negativo, isto é, quando as pessoas erram. É preciso dar feedback positivo com constância (desde que genuíno, não apesar por dar), mas é preciso também saber falar quando o desempenho não está bom. É difícil dar feedback negativo sem desmotivar ainda mais a pessoa. Acredito que nem todo mundo tem essa capacidade, mas um bom líder a tem: vai na ferida, sem desmontar as pessoas. E, ao fim, elas serão eternamente gratas, ainda que sofram naquele momento. É difícil ouvir as verdades, mas as pessoas precisam disso. Lembremos: as pessoas buscam no líder uma possibilidade de desenvolvimento.  O Feedback demonstra zelo e preocupação com as pessoas e com o papel da organização para com elas.

É preciso, também, saber quando apertar e quando aliviar. Às vezes, diante de um erro importante, as pessoas já estão se martirizando o suficiente; elas já fizeram esse trabalho por você e o que precisam é de apoio para sair do buraco.   

Delegar, mas estar atento aos detalhes: está aí uma potencial contradição. Um líder precisa saber delegar as decisões do dia-a-dia, se preocupar com a visão e com as questões estratégicas, mas deve mostrar que está atento aos detalhes. E isso não significa microgestão, isto é, ficar se envolvendo nos mínimos aspectos da organização, engessando-a e mostrando falta de confiança nas pessoas. Significa que você reconhece que o sucesso da organização não está nas grandes decisões, mas na execução diária daquilo que não aparece. “Enquanto Deus está nas grandes coisas, o Diabo está nos detalhes”. É mais ou menos isso. Ao dar importância aos detalhes, você sinaliza como quer que a organização funcione. O resultado final é fruto da forma como os detalhes são executados.

Foco e comunicação: um líder precisa ser claro em relação ao que espera das pessoas e da empresa. O que precisa ser feito? O que é prioridade? Drucker dizia: “defina as prioridades, e esqueça o resto”. Porque simplesmente não vai dar tempo. As pessoas precisam saber o que se espera delas e o que é importante para a organização. Aqui, é preciso comunicar formal e informalmente, sempre que possível. Jim Collins recomenda usar analogias que possam ser úteis para explicar situações que possam não ser tão claras para todos.

Percepção em relação ao ambiente: o líder precisa sentir o ambiente constantemente. O que hoje está em harmonia, amanhã pode não estar. Se o líder tiver essa percepção bem calibrada, pode corrigir eventuais problemas que podem ser insustentáveis mais à frente.

Busca pela excelência e altos padrões: acredito que a grande maioria das pessoas sente orgulho de fazer algo bem feito (se você tem pessoas que não são assim em sua empresa, está com as pessoas erradas). Um líder que não valoriza a qualidade e os altos padrões simplesmente não vai utilizar todo o potencial das pessoas. As pessoas querem ser desafiadas e isso contribui para que evoluam, se desenvolvam. Um líder que inspira a busca de altos padrões mostra também confiança que as pessoas podem atingi-los. Assumir erros e ser acessível não significa ser tolerante a baixo desempenho.

Otimismo e energia: mesmo diante de uma situação difícil, o líder precisa sempre demonstrar otimismo e acreditar na possibilidade de reversão, por mais preocupado que esteja. Isso não significa subdimensionar a situação, isto é, ver tudo cor de rosa quando as pessoas sabem que não é assim. Significa reconhecer a realidade, ser o mais honesto possível quanto a ela, mas acreditar e ajudar as pessoas a superar a situação.  

Certamente, há outras práticas e comportamentos que contribuem para a liderança efetiva. Essas são as que considero mais importantes. Você concorda com elas? Se você tiver comentários ou ou sugestões, agradeço!


Respostas

  1. [...] “Estratégia é gerir detalhes” (leia meu post anterior sobre liderança) [...]

  2. Marcelo, gostei muito desse artigo, aqui fala várias coisas que conversamos ho je a tarde.
    Líder para mim, é aquele que orienta, mostra onde começar e dá um empurrãozinho para seguirmos em frente.
    Abs,
    Melina

  3. É otimo ver algo tão bom assim na internet, valeu mesmo

  4. adorei as informações me deu uma melhor visão sobre o assunto


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