
O Curioso Caso de Benjamin Button (de Dave Fincher, com Brad Pitt e Cate Blanchett) é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos. Não vou entrar no mérito da produção em si, que é primorosa e passa voando apesar de durar 2 horas e meia, mas sim da história baseada em um conto de F. Scott Fitzgerald e o que ela nos faz refletir.No começo do século XX, um bebê nasce com uma estranha anomalia: possui o corpo de um velho de 80 anos que começa a “crescer ao contrário”: à medida que os anos passam, vai rejuvenescendo. Levanta-se da cadeira de rodas, vai ganhando força, trabalha em um navio, vai ficando com as feições de um jovem (à certa altura, vira Brad Pitt), vira adolescente, criança…
O tema básico do filme é o medo da morte, da qual não se escapa mesmo se, hipoteticamente, fizéssemos o caminho inverso como fez o personagem do filme: começássemos morrendo e fôssemos ficando jovens, até desaparecer novamente. De um jeito ou de outro, ela estará lá, seja como conseqüência natural da exaustão do invólucro, como a concebemos, ou pela hipótese fantástica de se andar contra o relógio. Esses dois caminhos contrários que acabam se encontrando nos fazem refletir que infância e velhice, nascimento e morte estão mais próximos do que se pensa.
No caso do filme, a angústia da situação é ainda maior, tanto pelo fato da implausibilidade biológica e do estranhamento, como pelo fato de se tratar de um processo isolado: enquanto todos no filme seguem seu curso normal, Button vai sozinho em direção à sua morte única, que se funde à sua própria concepção.
A passagem do tempo é inequívoca, cujo resultado final todos sabemos, só nos falta saber quando. Porém, estamos todos no mesmo barco, o que aumenta um pouco nosso conforto. O processo de passagem do tempo é comum a todos: daqui há 10 anos, estaremos todos mais velhos, mas vamos todos desaguar no mesmo mar, percorrendo o mesmo rio, ainda que em momentos diferentes.
A vida ao contrário, tendo como tema a finitude, apresenta uma situação distinta. Alguém rema contra a corrente e cruzará por um instante fugaz com todos os demais. Passando a curva do rio na direção oposta, não há mais volta. A mensagem é clara: aproveite o momento, o hoje, carpe diem. Na vida normal, não sabemos como será o amanhã. Na de Button, sabe-se que ele simplesmente não existirá. A distância entre as pessoas queridas só aumentará. Será que estamos deixando passar os momentos do presente, desdenhando das possibilidades, subestimando os efeitos do relógio, esperando um futuro que talvez não venha ou que, se vier, não será como esperamos?
Por fim, uma outra reflexão pode ser feita, não sob a ótica do rejuvenescimento físico, mas mental. Esse sim, está ao nosso alcance, fruto do acúmulo de experiências, da sabedoria, da percepção de que nada é para sempre, de que os problemas que consideramos problemas são insignificantes perto do que representa aproximar-se irremediavelmente da foz, sem chances de voltar à nascente. “Eu era mais velho naquela época, sou muito mais novo do que isso agora”, cantou Bob Dylan em My Back Pages.
De alguma forma, a hipótese absurda vivida por Benjamin Button, se de um lado nos joga na cara que não há escapatória para o ciclo biológico, restando-nos aproveitar o momento o melhor que cada um puder, de outro pode contribuir para avançarmos um pouco no processo de rejuvenescimento que ocorre dentro de cada um.
