(Sábado cedo, saí para andar nas margens do rio com a minha câmera, sem saber o que iria encontrar. De repente, uma imagem, uma cena e, pronto: uma história inteira pra contar).
Na barranca de um rio, um pescador solitário contempla o mundo refletido nas águas. Seu nome? Qualquer um. O rio? Um rio qualquer no interior do Brasil. Encolhido, escondido, aceita com humildade a sua sina e se apequena diante da natureza que passa a seus pés. Em que pensa?

Vida sofrida, sabedoria inculta acumulada ao longo dos anos. Não pensa em nada, respeita o rio e o tempo das coisas: o seu tempo. Meticulosamente, com o cuidado de um iniciante, coloca a isca no anzol, como já havia feito inúmeras vezes.

Prepara, então, o lançamento. As mãos ressequidas pelo trabalho árduo e pela idade imemorial que carrega têm ainda a habilidade de antes. A pescaria, afinal, era uma dádiva; talvez a única que sobrara daquela trajetória anônima e, ao mesmo tempo, tão comum, tão exposta.


Acendeu um cigarro, parte do ritual que desenvolvera desde pequeno ali, na beira daquele mesmo rio, onde passara sua existência cheia e solitária. Que diferença fazia? Agora, a espera pelo peixe. A paciência aprendida na vida, na marra, pela ausência de alternativa. Sabia há tempos que a pescaria das manhãs de todos os dias ensinava-lhe a resignação para suportar todo o resto; precisava dela.

As águas turvas e cremosas, em movimento, permitindo fantasias. Ele não se importa, já havia visto aquela cena tantas vezes. Concentrado, aproveita cada momento, esmera-se em cada detalhe como se fosse a última vez. Como se fosse a única vez.

De repente, dá-se conta. Via sua vida ali, refletida nas águas do rio que lhe era íntimo e que, ao mesmo tempo, nunca era o mesmo. Olhando as nuvens e o azul do céu espelhados na água, vislumbrou o futuro de uma maneira tão próxima que reconciliou-se com si mesmo, sentindo um conforto que nunca havia sentido.


Marcelo,
Está lindo o texto. Emocionante, mesmo. E com as fotos, então… Adorei!
Por: Ana Carolina em maio 19, 2009
às 8:17 pm
É mesmo também fiquei emocionada.
Por: Silvia Carvalho em maio 20, 2009
às 11:45 am
quando vejo histórias assim, é Manoel de Barros que me vem à cabeça. trazendo esta coisa desconcertante que é a intimidade do homem consigo mesmo, com a natureza e com sua própria solidão.
Por: marcia em maio 20, 2009
às 8:33 pm
Márcia,
Quem me dera ter o talento dele…mas, pensando bem, só o fato de você se lembrar dele ao ler esse post já é suficiente.
Por: marcelopcarvalho em maio 21, 2009
às 5:47 pm
Marcelo,
Ficamos encantados com a sua historinha do pescador. Parabéns, continue.
Lucy e Moacyr
Por: Lucy e Moacyr em maio 22, 2009
às 8:12 pm