Publicado por: marcelopcarvalho | maio 19, 2009

História de um pescador

(Sábado cedo, saí para andar nas margens do rio com a minha câmera, sem saber o que iria encontrar. De repente, uma imagem, uma cena e, pronto: uma história inteira pra contar).

Na barranca de um rio, um pescador solitário contempla o mundo refletido nas águas. Seu nome? Qualquer um. O rio? Um rio qualquer no interior do Brasil. Encolhido, escondido, aceita com humildade a sua sina e se apequena diante da natureza que passa a seus pés. Em que pensa?

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Vida sofrida, sabedoria inculta acumulada ao longo dos anos. Não pensa em nada, respeita o rio e o tempo das coisas: o seu tempo. Meticulosamente, com o cuidado de um iniciante, coloca a isca no anzol, como já havia feito  inúmeras vezes.

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Prepara, então, o lançamento. As mãos ressequidas pelo trabalho árduo e pela idade imemorial que carrega têm ainda a habilidade de antes. A pescaria, afinal, era uma dádiva; talvez a única que sobrara daquela trajetória anônima e, ao mesmo tempo, tão comum, tão exposta.

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Acendeu um cigarro, parte do ritual que desenvolvera desde pequeno ali, na beira daquele mesmo rio, onde passara sua existência cheia e solitária. Que diferença fazia? Agora, a espera pelo peixe. A paciência aprendida na vida, na marra, pela ausência de alternativa. Sabia há tempos que a pescaria das manhãs de todos os dias ensinava-lhe a resignação para suportar todo o resto; precisava dela.

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As águas turvas e cremosas, em movimento, permitindo fantasias. Ele não se importa, já havia visto aquela cena tantas vezes. Concentrado, aproveita cada momento, esmera-se em cada detalhe como se fosse a última vez. Como se fosse a única vez.

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De repente, dá-se conta. Via sua vida ali, refletida nas águas do rio que lhe era íntimo e que, ao mesmo tempo, nunca era o mesmo. Olhando as nuvens e o azul do céu espelhados na água, vislumbrou o futuro de uma maneira tão  próxima que reconciliou-se com si mesmo, sentindo um conforto que nunca havia sentido. 

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Respostas

  1. Marcelo,
    Está lindo o texto. Emocionante, mesmo. E com as fotos, então… Adorei!

  2. É mesmo também fiquei emocionada.

  3. quando vejo histórias assim, é Manoel de Barros que me vem à cabeça. trazendo esta coisa desconcertante que é a intimidade do homem consigo mesmo, com a natureza e com sua própria solidão.

    • Márcia,

      Quem me dera ter o talento dele…mas, pensando bem, só o fato de você se lembrar dele ao ler esse post já é suficiente.

  4. Marcelo,

    Ficamos encantados com a sua historinha do pescador. Parabéns, continue.

    Lucy e Moacyr


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