Outro dia fui pegar um filme. Tarefa árdua: sempre tenho a expectativa de que encontrarei alguma coisa que valha a pena assistir, mas à medida que percorro as prateleiras, vou encarando a realidade. Os poucos que merecem atenção quase sempre já foram vistos. E olha que não sou nenhum cinéfilo.
A última tentativa foi a seção de dicas. Depois de pegar uns dois ou três que não me animaram, vejo um filme que tem na capa Kevin Spacey, Julianne Moore, Judi Dench e Cate Blanchett. Elenco, esse tem, pensei. Peguei a capa para checar: Chegadas e Partidas (The Shipping News), baseado em uma obra vencedora do Pulitzer e dirigido por Lasse Hallström (de Regras da Vida e Chocolate). Até aqui, passou no crivo. Vou à sinopse do verso:
“Quoyle (Kevin Spacey) é um nova-iorquino infeliz e solitário que perde sua esposa (Cate Blanchett) em um acidente de carro. Transtornado, ele viaja com sua tia (Judy Dench) e sua filha para Newfoundland, uma região peculiar, onde viviam seus antepassados. Quoyle se fixa como repórter no jornal local e a cada artigo que escreve, a noção que tem de sua própria vida muda, assim como a impressão que tinha daquela comunidade. O novo emprego, o novo relacionamento com a misteriosa Wavey (Julianne Moore) e a belíssima Newfoundland mudam a vida de Quoyle para sempre”.
Veja o trailer:
Ali, parado na loja, retrocedo 23 anos. Outubro de 1986, segundo colegial, eu tentando ir para o Canadá, fazer intercâmbio. Todo mundo na época ia para os Estados Unidos; quase ninguém ia para o Canadá. Para ser diferente, acho, me decidi pelo Canadá.
Depois de alguns meses de espera, comecei a encarar que não iria funcionar: a STB (Student Travel Bureau) não havia conseguido sequer uma família para me receber. O Canadá definitivamente não era um destino comum naqueles dias. Ou eu tive azar. O semestre já avançava e cada vez mais seria difícil conciliar os anos letivos.
Em uma tarde como qualquer outra recebo um telefonema da dona da empresa. A boa notícia: havia uma família canadense interessada em receber um brasileiro! A má: o local era, digamos, pouco convencional. Uma ilha no Atlântico Norte, para onde, segundo ela, nenhum estudante brasileiro havia ido até então: a mesma Newfoundland do filme que eu segurava naquele momento, uma ilha quase do tamanho da Inglaterra, mas habitada por pouco mais de 500 mil pessoas. A província mais pobre do Canadá, que engloba a porção terrestre chamada de Labrador, que se tornou nossa conhecida pelo jogo de WAR muito antes do cachorro se popularizar. A ilha também chamada de Terra Nova em função da colonização portuguesa em algumas partes. O local em cuja costa o Titanic afundou e que, apesar da latitude não tão alta, é gélida por receber as correntes da Groelândia. Newfoundland, onde Marconi fez a primeira transmissão telegráfica intercontinental, em 1901. Onde a América foi realmente descoberta pelos vikings, mais de 500 anos de Colombo chegar ao Caribe. O local que possui um fuso horário único: se aqui são 9 horas, lá são oito e meia…

Morei na ilha, no extremo sudeste
E nada mais do que isso.
Detalhe: eu precisava decidir logo e partir em algo como três dias. Se não me falha a memória, minha mãe chegou em casa com o exemplar do mês da National Geographic que, para minha surpresa, trazia uma matéria sobre a ilha, apelidada de “The Rock”. Incrível coincidência. Confesso que fiquei apreensivo com o que vi na revista. Não era o Canadá das Rochosas de Vancouver, nem das pradarias centrais, muito menos das conhecidas Toronto e Montreal. Uma paisagem árida, em que pedras, montanhas, mar e gelo se misturavam e recebiam casas simples de madeira, caoticamente dispostas sobre palafitas, parecendo que a qualquer momento voariam. Se meu objetivo fosse fugir, me isolar, esse seria o lugar.
Três dias foram suficientes para trancar o colégio, tirar o visto, comprar as roupas de frio e, principalmente, me preparar mentalmente para a mudança repentina. Talvez tenha sido o oposto: se eu tivesse mais tempo para pensar, não teria ido. Depois de 30 horas de vôo e 9 aeroportos (sim, nove), cheguei exausto em uma quinta-feira à noite. A família me pegou no aeroporto, me levou para a casa e disse que, ao acordar na manhã seguinte, não teria ninguém em casa, apenas um sheep dog inofensivo. A comida estava na geladeira e eles chegariam ao final do dia. That was it.
É necessário lembrar que naquela época não havia celular, internet, MSN, skype, câmeras de vídeo online, etc. Apenas ligações interurbanas, caras, que eram feitas a cada 1 ou 2 semanas, no máximo. Assim, ao acordar no dia seguinte, me dei conta que aquele lugar seria meu lar pelos próximos seis meses e que estaria completamente isolado do que conhecia. Ninguém falava português, não havia notícias do Brasil. Na segunda-feira, pensei, tinha de ir à escola, onde os dois primeiros meses do semestre escolar já tinham passado. Foi aterrador. O que afinal eu estava fazendo ali, quando cinco dias antes eu estava confortavelmente instalado em casa, sem cogitar qualquer possibilidade parecida com essa?
Morava a uns 2 km do Atlântico Norte, em uma boa casa de madeira, na beira de um lago relativamente pequeno (Lawrence Pond), cercado de florestas temperadas e colinas onde, com sorte, seria possível ver um alce. O acesso era por uma estradinha de terra que saia da “rodovia” que levava a St. John´s, a capital, distante uns 45 minutos dali. O ônibus da escola parava nessa encruzilhada todos os dias, no final da tarde. Eu caminhava por meia hora, muitas vezes sozinho, até chegar em casa.
Cheguei no início do outono e fui embora no começo da primavera. Passei, portanto, um longo inverno nesse lugar que me pareceu à primeira vista incrivelmente inóspito, em que enfrentei temperaturas tão baixas como 30 ºC negativos. Em dias extremos, -50ºC. Cinquenta graus Celsius abaixo de zero… Na garagem de casa, ao invés de bicicleta, tínhamos “snowmobiles”, aquelas motos de neve que são uma diversão dirigir, exceto quando encalham.
O frio inclemente e o céu constantemente cinzento exercem efeitos nas pessoas. O “pai” da família em que morei era alcoólatra e, à medida que o inverno avançava, seu comportamento se deteriorava. Em algumas noites, agredia sua mulher. Uma vez, ameacei chamar a polícia, mas a “irmã” me dissuadiu da ideia.
Não queria desistir. Aos poucos, fui me adaptando, desenvolvendo defesas e identificando aspectos positivos naquela aparente loucura em que me meti aos 16 anos. A gente é mais forte do que imagina. Na escola, fui bem recebido por todos: era o primeiro estrangeiro a freqüentar as salas da Queen Elizabeth High School; saído do Santa Cruz, ia muito bem nas matérias apesar das dificuldades iniciais com a língua e me tornei bastante popular entre professores e alunos. Comecei a fazer amigos e me integrar. Na casa, a “mãe”, Sharon, era quem eu tinha mais proximidade.
Fiz coisas que dificilmente faria em outros lugares. Andei sobre o mar congelado; comi carne de foca e de alce; fiz trekking com sapatos de neve; dirigi snowmobiles; fiz ice-fishing (pesca em lagos congelados, através de um buraco feito no gelo); patinei no Lawrence Pond congelado, à frente da casa; vi icebergs. Mais do que isso, testei minha resiliência, minha capacidade de suportar adversidades e me manter no prumo.
Depois de 6 meses, a volta. Sabia que não retornaria tão cedo para aquele lugar tão improvável, que nada tem a ver com a imagem que fazemos do Canadá. Mesmo com tudo o que passei – e talvez por isso – criei laços com o lugar e com algumas pessoas. Não foi tão fácil partir, por mais estranho que pareça.
Com o passar do tempo, fui percebendo que havia vivido algo muito exclusivo, e que passar por aquela prova era uma etapa necessária em minha formação. E, de alguma maneira, sabia disso. Não teria sido a mesma coisa se eu tivesse ido para Toronto, Montreal ou Vancouver.
Até hoje, não conheço nenhum brasileiro que foi para Newfoundland; mesmo quando falo para canadenses, a cara é sempre de surpresa: “Newfoundland? O que você foi fazer lá? Não há nada lá…”, é a pergunta que mais ouço deles. Seria como um estrangeiro vir ao Brasil e ir morar em Roraima. O lugar pertence a poucas pessoas, e sou uma delas.
Hoje, ironicamente, os tempos estão mudando. Essa província esquecida e que vivia da pesca do bacalhau é das que mais crescem no país, graças ao petróleo encontrado há alguns anos.
Nunca mais voltei, apesar de ter ido para o Canadá outras vezes. Não era a hora. Outro dia, achei uma foto da Sharon na internet, 20 anos mais velha e bem mais gorda. O casal se separou logo depois da minha saída, como seria esperado. Ainda vou voltar e tentar achar Lawrence Pond. Quem sabe, encontrar pessoas daquela época.
Lógico que peguei o filme. A cena mais marcante, para mim, foi o barco se aproximando da ilha, levando Quoyle, a tia e a menina. O forte personagem vivido por Judi Dench (a tia) olha o bloco maciço de rocha, neve e gelo, encravado sobre o mar frio e cinzento, e diz, com o olhar perdido no horizonte, carregado de lembranças:
“Leva tempo para se acostumar com o ritmo daqui. É um lugar único. Quem veio para cá antes, veio por acaso. Quem ficou, aprendeu que coisas estranhas acontecem. Agouros e almas penadas. Magia…”
Ah, o filme? Não é espetacular, mas é sem dúvida, bom. Mas, claro, não tenho como analisá-lo com toda a isenção que deveria…
Achei essa foto de Lawrence Pond no Flickr! Alguém tem dúvida que a internet mudou o mundo? É de Stephen Norman, habitante de Mount Pearl, lá perto:

Cruzei muitas vezes esse lago totalmente congelado; nunca o vi assim
Achei também o lago no Google Earth:

Será que localizei a casa (o lado era com certeza esse, e a posição também)?

Eis que acho uma foto da estradinha, Lawrence Pond Road, mirando o mar da Conception Bay. E não é mais de terra! A foto é de H. Patey.
Veja aqui outras fotos de Newfoundland no Flickr (as minhas, antigas, preciso escanear):
E veja, se puder, o por do sol de inverno em St. John´s. O fotógrafo (“Django Malone“) tirou 292 fotos com intervalos de 8 segundos entre elas e fez um filme. Ficou top.

[...] Chegadas e partidas. Acima de tudo, memórias. Um filme me fez resgatar os 6 meses passados em uma ilha no Atlântico Norte, no Canadá, quando [...]
Por: Retrospectiva 2009: meus 10 textos preferidos « O que der e vier em dezembro 27, 2009
às 12:34 am