Publicado por: marcelopcarvalho | junho 5, 2009

Porque os serviços são ruins no Brasil

Complementando o post anterior, sobre a TAM, fiquei refletindo sobre o porquê os serviços em geral são ruins no Brasil. Pensei em 3 aspectos:

1. Educação: Serviço não é apertar botão, não é produção. É relacionamento 1 a 1, o que envolve algum grau de impresivibilidade e flexibilidade. Para lidar bem com isso, é necessário bom senso, critério. Só um povo educado, no sentido de cultura, educação mesmo, tem condições de usar o bom senso quando necessário, prestando um serviço superior. Vale lembrar que na maioria das vezes a qualidade do serviço é realmente testada quando as coisas não saem como deveriam sair. E, aí, normalmente não é o protocolo que resolve. Vale a pena ler aqui o post sobre uma palestra do Barry Schwartz, que fala um pouco sobre isso.

2. Novidade. Até pouco tempo, não tínhamos nem Código do Consumidor. O cliente, com direitos e com escolha, é uma entidade relativamente nova no Brasil. Até pouco tempo, vigorava o “se quiser, é assim”. A demanda era maior do que a oferta. Em algum grau, em alguns setores, isso ainda é verdade, mas aos poucos vai mudar.

3. Cultura. Você leu “1808″, do Laurentino Gomes? Pois é. Servir é coisa de escravo. Quem tem alguma coisa a mais, não serve, é servido. De certa forma, carregamos essa percepção ainda hoje. Servir pressupõe algum tipo de submissão. Aceitamos produzir, somos bons na área industrial, na agricultura, mas serviços…não, não é conosco. Quais são nossas grandes empresas? Vale, Petrobrás, Gerdau, AmBev, BRFoods…o foco principal é produto mesmo. Qual é o setor mais competitivo? Agronegócio.  Isso é vocação natural, ou nós é que definimos nossa vocação pelo nosso comportamento? Não sei, é uma questão pra Tostines resolver. Mas acho que as duas coisas.

Tenho certeza que isso vai mudar, talvez pela maior concorrência, que estimulará a consciência do consumidor, despertará o seu poder. Sem concorrência real, nada muda. E isso promoverá uma mudança cultural. É incrível como a cultura escravocrata e a herança colonial ainda estão presentes entre nós.


Respostas

  1. Muito bom o post, gostei especialmente dos pontos 2 e 3. E uma resenha do 1808, sai? Abs, Miguel

    • Miguel,

      Obrigado. Eu li já faz um bom tempo, acho que não dá mais pra fazer a resenha. Vamos inverter: você lê e faz a resenha pra nós…rs.

      Abs
      Marcelo

  2. Marcelo,
    Muito bom o post.
    Agora tenho uma pergunta: será que as empresas realmente perdem dinheiro por causa de um serviço ruim?
    Eu pessoalmente acredito muito que no longo prazo um excelente serviço ao cliente é o que diferencia as empresas.
    Mas no curto prazo, será que as empresas não acham que os clientes perdidos e possíveis multas não valem a pena pela economia em treinamentos e mudança da cultura organizacional?

    Abraços,
    Millor Machado
    Saia do Lugar.com.br

    • Millor,

      Obrigado pela visita e pelo comentário. Talvez a resposta esteja na visão de curto prazo, na necessidade de gerar resultados no curto prazo, por várias razões. Convivemos muitos anos com inflação elevada e grande instabilidade econômica. Trabalhar o longo prazo era simplesmente impraticável: não sabíamos o que iria ocorrer na semana que vem. Mas a coisa vai mais além. O brasileiro têm certa aversão a trocar o curto prazo pelo longo prazo. Queremos consumir agora. O Gianetti da Fonseca faz uma relação interessante disso com as taxas de juros em O Valor do Amanhã, que são mais elevadas do que deveriam ser pela baixa propensão em poupar e consumir no futuro. Essa poderia ser mais uma razão pela qual ações de longo prazo, como uma mudança conceitual e de atitude envolvendo atendimento, acaba sempre ficando para depois.

      Vale lembrar que a cultura empresarial brasileira tem sido definida pelas multinacionais. Acredito que essas empresas, via de regra, vêem os países emergentes como geradores de resultados de curto prazo, o que nem sempre ocorre em seus locais de origem. Essa possível visão (opinião minha) é algo que mais uma vez remete ao curto prazo.

      Por fim, há a questão da educação, pilar fundamental de uma cultura de excelência em serviços, e que falhamos bastante.

      Parabéns pelo http://saiadolugar.com.br, vou acessar com mais calma depois!

      Abraço,

      Marcelo


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