Outro dia, em uma conversa profissional, um experiente executivo me falou que humildade era fundamental para o sucesso, mas que modéstia era o oposto: puxa tudo para baixo, a pessoa, a empresa, quem estiver do lado.
Na hora, achei estranho colocar termos aparentemente tão próximos em espectros tão opostos. De fato, há uma similaridade semântica entre ambas as expressões. Os dicionários refletem essa situação, muitas vezes colocando uma como sinônimo da outra.
Refletindo melhor e indo atrás de outros significados, concluí que ele tinha razão. Modéstia (não vou abordar a falsa modéstia, que nada mais é do que pura hipocrisia) significa falta de vaidade, relutância de se gabar da habilidade e daquilo que se conquista. Indo adiante, significa falta de ambição, auto-imposição de limites, acanhamento, apequenamento. Não são características que favorecem o crescimento e o sucesso, seja lá qual for a sua definição de sucesso. Por essa análise, sujeito modesto é aquele que pensa pequeno, que quer pouco e que não demonstra aquilo que é, ou que pode ser. Uma frase que gosto e que procuro, dentro dos limites, aplicar, é que “não basta ser, é preciso parecer ser”. O modesto pode até ser, mas não parece.
Humildade é diferente. Humildade é reconhecer que o sucesso de ontem não garante o sucesso de amanhã. Que ninguém chega lá sozinho. Que ninguém é tão bom que não possa cair. Que ninguém sabe tudo que não possa aprender mais. Que o “chegar lá” é resultado de procurar a superação a cada dia que levantamos e vamos à luta, e não a colheita eterna de glórias passadas ou de simples retórica.
Humildade é antônimo de arrogância, prepotência. Ingredientes fatais, que uma hora ou outra cobrarão o seu preço para aqueles que acham que são invencíveis, superiores, completamente autônomos e auto-suficientes. Humildade é aquilo que nos mantém com os pés no chão, no trilho, com a noção da realidade bem presente, não importa o que já foi conquistado.
Humildade, portanto, não tem nada a ver com modéstia. Temos a tendência de valorizar a modéstia talvez pela dificuldade de aceitar o sucesso, tido como algo negativo. Lucro vem de logro, que pode significar “enganar”. Um significado negativo para o lucro, que pressupõe que, para se lucrar, alguém está perdendo. Profit, do inglês, vem de pro-fit, ou seja, aquilo que cabe, aquilo que é justo. Isso tem um simbolismo interessante ao se analisar como as culturas latina e anglo-saxã encaram o lucro, o enriquecimento e o sucesso. Talvez, indo mais longe, como encaram a modéstia.
Não sei se consegui ser claro e passar a mensagem. Modéstia anda lado a lado com auto-desvalorização, com baixas expectativas. Não há problema em reconhecer suas conquistas, suas habilidades e competências. Pelo contrário: você deve fazê-lo para se respeitar e para que os outros também te respeitem, para mostrar ao que veio. Mas seja humilde: tudo isso pouco valerá se você achar que se basta, que é um prodígio e que o mundo se curvará diante de você.
Pensando nesses dois termos tão parecidos e tão distantes, me vem à cabeça o Pelé. Pelé nunca me pareceu modesto; fala dele na terceira pessoa, sempre soube que era bom, melhor do que os demais, sempre teve altas expectativas. Mas sempre foi humilde para treinar mais do que os outros, para saber que essa vantagem se anularia se, ao entrar em campo, não fizesse aquilo que se esperava dele (inclusive aquilo que ele esperava dele). Nunca achou que sua pré-condição seria suficiente para garantir seu sucesso. Por isso, foi Pelé: nada modesto na vida, mas extremamente humilde dentro das quatro linhas.

Marcelo, pontinha de inveja desse excelente texto…
Grande abraço, Rodolfo.
Por: Rodolfo Araújo em junho 10, 2009
às 6:39 pm
Valeu Rodolfo!
Abração,
Marcelo
PS: comprei o The Innovator´s Solution por tua influência e estou aguardando chegar o The Halo Effect.
Por: marcelopcarvalho em junho 10, 2009
às 8:54 pm
[...] Com a experiência, você aprende que mesmo as falhas mais graves sempre carregam a possibilidade de recuperação. Também, você começa a não valorizar tanto problemas que, depois, parecem pequenos, principalmente depois que a vida te dá alguns coices, diminuindo suas verdades e te deixando mais humilde. Isso foi possível perceber também na entrevista e para mim é um fator indispensável para a manutenção do sucesso. O Alexandre não é modesto (disse não ter medo de nada no trabalho, isto é, confia no seu taco), mas é humilde para …. [...]
Por: Seis visões sobre o que se passa na cabeça de um grande publicitário: 1. Alexandre Gama « O que der e vier em agosto 7, 2009
às 1:56 am
[...] Sobre modéstia e humildade. De uma conversa, surgiu a ideia do [...]
Por: Retrospectiva 2009: meus 10 textos preferidos « O que der e vier em dezembro 27, 2009
às 12:23 am
Muito legal, mesmo. texto bem claro, gostei de ler. me ajudou. obrigado.
Por: Micael em julho 29, 2010
às 6:28 pm