Publicado por: marcelopcarvalho | junho 17, 2009

Era uma vez um tempo que um dia ia voltar

Li essa frase genial em uma crônica da Adriana Falcão, e fiquei com ela na cabeça; quem sabe um dia conseguiria usar em um contexto adequado.

Nesse feriado, Campos do Jordão colapsou, com hordas de paulistanos que subiram a serra com o intuito de inaugurar oficialmente a temporada de inverno. Eu não tenho nada com isso, ficamos no meio do mato, a uns 20 km da cidade, sendo os últimos 6 ou 7 km percorridos em uma estrada de terra que toda vez me traz a certeza de que vou comprar um 4×4 assim que chegar em casa de novo.

Apesar de não ficar na cidade, tenho que passar por ela. Pior: tenho que voltar pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro, junto com as hordas, pegar a Carvalho Pinto, e só então escapar pela Dom Pedro.

No domingo, saí da fazenda (hoje não é mais fazenda, no máximo um sítio, mas chamamos de fazenda talvez por questões nostálgicas) às 11, em uma esperança inútil de evitar o trânsito da volta. Só em Campos, foram 40 minutos para percorrer uns 3 ou 4 km, até chegar ao portal. Olhei adiante, a rodovia lotada, os carros imóveis.

Devo admitir que tenho algum problema acima do normal com o trânsito. Quando me dei conta da situação em que estava, demorei 3 segundos para dar meia-volta e pegar a direção contrária, sob o olhar incrédulo da manada que se preparava para descer a serra.

Minha primeira ideia foi ir por São Bento do Sapucaí, Paraisópolis, Cambuí, pegar a Fernão Dias e então cair na Dom Pedro, lá em Atibaia. Eu sei, demoraria umas 2 horas a mais, mas eu disse que tenho uma fobia de ficar parado sem ir a lugar algum, enquanto o mundo anda do lado de fora. E mais: fica uma sensação de impotência, de falência completa do sistema (..rs) você ter um carro que pode ir a 150 km por hora e andar a vinte.

Peguei então a Estrada de Rodagem Monteiro Lobato, a SP-50. Simpatizei logo com o nome e o número. Lembrei-me então que aquela era a estrada de acesso a Campos há uns 30 anos atrás, antes da Floriano trazer o progresso, os turistas, o trânsito e os assaltos. Antes de Campos ser Campos. Quando subir a serra era uma aventura diferente, que começava de madrugada, tendo que lidar com as curvas e os enjôos, depois pegar a estrada de terra (na época, quase 20 km de terra), onde pelo menos uma vez passamos a noite atolados, dentro um fusca, para ser resgatado no dia seguinte. Onde chegar e sair durante o verão era uma viagem dentro da viagem, quase sempre se atolava. Devia ter uns 10 anos.

De repente, estava eu sozinho descendo a serra pelo outro lado. Era uma sensação estranha: centenas de milhares de pessoas enfileiradas a 10 km por hora, enquanto eu tinha o mesmo destino e descia (praticamente) sozinho. Por alguns momentos, pensei que havia me enganado. A estrada mal tinha sinalização; será que estava mesmo no caminho certo? Será que a estrada acabaria em um precipício?

Mas não. Aos poucos, vi que estava certo. Fui percebendo que, naquele momento, um tanto ironicamente, o velho acesso quase desativado era a melhor alternativa, como nos velhos tempos – foi o dia em que o tempo voltou, e com ele todas aquelas memórias quase esquecidas.

Além do tráfego livre, a estradinha cortava as montanhas e dava a sensação de fazer parte da cena, tal a proximidade com a mata, com o barranco, com o precipício; as auto-estradas se sobrepõem ao entorno, não há comunhão com a realidade, como se estivéssemos em um vídeo-game.

Decidi que ir por Minas Gerais seria um pouco demais; a viagem já seria mais longa, mesmo considerando o trânsito do outro lado. Optei por passar por Monteiro Lobato e chegar a São José, pegando a Dutra lá na frente.

Imaginei-me preso no tráfego interminável lá do outro lado e a sensação de alívio e independência ficou ainda maior. Optei por desviar 4 km e achar algum lugar para almoçar na pacata Santo Antônio do Pinhal, pela qual passei centenas de vezes, indo para Campos, e nunca havia entrado (vergonha). Topei com um bistrozinho simpático chamado Canto da Gula, onde comi uma truta com molho de manga e pimenta rosa. Do outro lado, pensei, estaria disputando um sanduíche quase à tapa, com centenas de turistas, no lotado Leite na Pista. Ufa…

Após deixar Santo Antônio (que estava em festa, comemorando o dia do seu padroeiro), dou de cara com a Pedra do Baú, que é uma em várias, pois dependendo do ângulo em que se está a visão é completamente diferente, nem parece que se trata da mesma montanha. Parei e tirei uma foto da pedra “de costas”; não me lembro de ter parado para fotografar qualquer coisa indo pela estrada regular.

A vista da Pedra do Baú pela estrada velha

A vista da Pedra do Baú pela estrada velha

À medida que vamos descendo a serra, a viagem vai ficando ainda mais interessante. Vemos ao largo da estradinha personagens que devem ser iguais àquelas que inspiraram Monteiro Lobato a caracterizar o Jeca Tatú no começo do século XX. Passa-se por fazendinhas esquecidas, por vilarejos perdidos, por paisagens abandonadas pelo progresso que optou por subir pelo outro lado da serra (e como o outro lado é mais feio, como incomoda o crescimento desordenado de Tremembé e adjacências, ainda mais evidente ao se comparar com essas “novas” paisagens). Aliás, sempre me surpreende como ficou para trás a área rural do Vale do Paraíba, entre Rio, Minas e São Paulo, uma das primeiras colonizadas no Brasil, mas isso é assunto para outro post.

 Aos poucos, aquilo que seria um stress inevitável, embutido no pacote feriado-de-corpus-christi-em-Campos-do-Jordão, começou a se transformar em um lazer extra, um bônus inesperado e muito bem vindo.  Curioso: foi preciso um imprevisto desagradável para me fazer mudar de rumo. Quantas coisas, pensei, não fazemos por conforto, comodidade ou por falta de questionamento e preguiça mental, e com isso quantas coisas que acrescentam deixamos de aproveitar, deixando a vida menos intensa e surpreendente do que poderia ser. Quantas regras e procedimentos que deveriam ser quebrados de vez em quando, quantos hábitos poderiam ser alterados com ganhos evidentes, e que não alteramos porque, porque…não sei ao certo; por haver riscos nas mudanças, talvez? E como muitas vezes o estímulo para a mudança vem de fora.

Refleti também sobre o fato de milhares de viajantes terem optado por seguir pelo caminho convencional. Claro que muitos não conhecem a alternativa antiga de se descer a serra, mas até o fato dela ser amplamente desconhecida indica que há algo mais a ser explicado do que seu simples desconhecimento. Talvez o paulistano esteja acostumado ao trânsito como um beduíno se acostuma com a secura do deserto e o esquimó com o frio. Já faz parte de seu way of life a ponto de ser algo automático, inócuo. É chato, mas é a vida, fazer o que.

Mas acho que há também a falta de questionamento. A maioria das pessoas prefere fazer o que a maioria das pessoas faz. É mais fácil seguir a multidão; quem inova e erra, vai errar sozinho. O fracasso solitário é muito mais doído: você, de certa forma, é o responsável pela sua situação. Já o erro coletivo acaba diluído a ponto de quase inexistir. Estão todos presos no trânsito, portanto a culpa não é de ninguém individualmente; joga-se na multidão o peso da responsabilidade.  Ir contra o fluxo e ter a vida nas mãos, claro, traz riscos, mas a experiência desse domingo me mostrou mais uma vez que o mundo pode reservar boas surpresas para quem tem o defeito de não se conformar.

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Um lugar especial, perdido nas montanhas da Mantiqueira, entre São Bento do Sapucaí, SP, e Piranguçú, MG (se você não sabe onde é Piranguçú, uma referência: fica perto de Piranguinho, onde se come o melhor pé-de-moleque do Brasil…rs). Além ainda de onde ficamos. É a pequena represa São Bernardo, que pertence a poucos e é preservada pelo acesso difícil e pela distância de tudo. Parece uma miragem. Abaixo, você vai entender o que estou falando.

A represa de São Bernardo

A represa de São Bernardo

Igrejinha perdida no meio do caminho, perto da represa

Igrejinha perdida no meio do caminho, perto da represa

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Este é o post de número 100 do blog, iniciado no final do ano passado. Cito aqui um trecho do primeiro post, “Nothing Ventured, Nothing Gained”: “Como escreveu o Elliot (T.S. Elliot, poeta norte-americano), “escrever é fugir da emoção”. No filme sobre o Vinicius, o Ferreira Gullar citou essa frase e foi além: quem escreve, quer se livrar da emoção, jogar tudo isso para quem lê. Portanto, esse espaço também é seu, queira ou não”. Obrigado!!


Respostas

  1. Marcelo,
    Parabéns, primeiramente, pelo post n.º 100 e por ser este post muito legal!
    Um forte abraço,
    Laerte

  2. Eu conheço esta estrada e, ao ler o seu texto, me identifiquei com a situação. Há cerca de 10 anos estive em Monteiro. O objetivo era Campos do Jordão. O “Litoral Norte” do inverno! E resolvi ficar em Monteiro, ao invés do agito de Campos. Não busquei o isolamento… até fui para cidade, ao encontro da “horda”. Mas fugi dos picos. Andei por Campos (pelo menos naquela época ainda dava para achar um lugar para estacionar em determinadas horas do dia). Acordava cedo colocava meu tênis, corria por Monteiro (que conheci correndo pelos seus arredores). No retorno, tomava meu banho e ia tomar café em Campos… achava vaga, no centro. Passava o dia tranquilo, andando pela cidade entre e, no final da tarde, voltava para Monteiro (pela referida estrada). Realmente o trajeto é bacana. Visitei a casa (antiga fazenda) em que Monteiro Lobato morou. Comentei com alguns amigos (na época) sobre o “retiro” e a maioria achou que eu era louco: “que programinha, hein! Monteiro Lobato!!”… Eu nem aí! Curti, foi bom. Estava “em casa”, estava “comigo” e bem acompanhado. Revoltar-se pra quê? A conclusão que chegamos é de que, hoje, o mundo nos atropela. As horas passam mais rápido do que deveriam (ou nossa cabeça anda acelerada demais).
    O belo muitas vezes está resguardado dentro de nós… nas relações humanas, no afeto, na sensibilidade e nas coisas mais simples que deixaram de ser observadas e que, volta e meia podem nos surpreender…
    Seu texto foi muito feliz pois podemos fazer um paralelo: não será o momento “com esse mundo muito louco” de todos nós buscarmos uma alternativa (diante das dificuldades) e, ao encontramos a “velha estrada”, quem sabe, encontrarmos um “caminho” ou novo sentido para nossas vidas.
    Abraço!

    • Obrigado pelo belo relato, João Paulo.

      Abraço,

      Marcelo


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