Publicado por: marcelopcarvalho | junho 30, 2009

Difícil dar um título para esse post…

Fiquei ausente durante algum tempo: uma viagem internacional e, em seguida, nosso principal evento do ano, em Uberlândia. Dessa vez, para quase 1.000 pessoas, recorde em todos esses anos e, ao mesmo tempo, um número que já nasce pequeno para 2010.

Vou sempre dois dias antes, sozinho, de carro. 500 km em que vou mentalizando o desafio à frente, reunindo a energia necessária. É uma espécie de ritual: paro nos mesmos postos de estrada, marco a primeira reunião de preparação no mesmo horário todas as vezes, descarrego o carro sozinho na doca do centro de eventos, um trabalho anônimo e braçal mesmo, como que fazendo um exercício de humildade para o que vem a seguir. É uma repetição necessária e bem-vinda, pois remete a memórias de um temor positivo, de boas expectativas e, sobretudo, de finais felizes.

Sinto-me praticamente em casa no hotel e no centro de eventos, apesar de passar ali somente 4 ou 5 dias por ano. Talvez porque aquele pedaço da cidade me traz muitas memórias importantes… Mas é mais do que isso. Já conheço e sinto-me próximo ao local e a várias pessoas que já sabem como funcionamos depois desses anos todos juntos. Fico um ano longe, mas é como se fosse um dia. Concluo que é a intensidade do que se vive que nos marca, mais do que a duração da experiência. De certa forma, todos ali se preparam para a batalha junto conosco; a deles, recomeçando diversas vezes por ano, a nossa, somente naquele momento, que não pode dar errado uma única vez.

De noite, vou jantar no Clementina, o restaurante do Plaza Shopping. Peço uma meia garrafa de vinho: só tem um Casa Rivas simples, Carmenere 2007, mas para a finalidade em questão, já serve. Torço para não encontrar ninguém, pois é o momento de concentração, de internalização e de reunião de forças para encarar o dia seguinte e as 1.000 pessoas que logo chegarão. É o antídoto prévio para o holofote em que todos os anos acabo me colocando por ser uma espécie de dono da festa. Talvez seja algo próximo ao que um esportista de ponta faz diante de uma grande competição. Não sei. Naquele momento, ninguém sabe quem eu sou e é exatamente disso que preciso antes de ter que aparecer.

No dia seguinte, já acordo preparado para a guerra, quase não sou mais eu. O dia é cheio, preciso acompanhar um pouco de tudo, as entrevistas, os imprevistos (dessa vez, o mais inusitado de todos, que me forçou a estruturar uma verdadeira operação FBI-SWAT junto com o pessoal da segurança) que vão sendo eliminados, com um efeito de prazer muito superior ao do stress inicial gerado ao se tomar conhecimento de cada problema.

No final, como sempre até agora, tudo de importante deu certo. Bato três vezes na madeira: são muitas as variáveis, grande parte delas fora de nosso alcance. Precisa-se também de sorte, e reconhecer isso é fundamental para tê-la sempre do seu lado. Olhando agora, nem pareço capaz de uma realização dessa magnitude (mas como, se é o décimo que fazemos?!). Sempre há o medo de, por alguma razão, até pela probabilidade estatística, as coisas desandarem. Talvez justamente por esse medo elas não tenham ainda (madeira de novo) desandado. Vale mais uma vez a frase do Spielberg: “me preparo para o pior e sou sempre surpreendido pelo melhor”.

Depois do evento, até então ia imediatamente embora. Dessa vez, estava mais cansado do que o normal e não quis encarar os 500 km no mesmo dia. Também, senti a necessidade de finalizar sozinho, de apagar as mesmas luzes que acendi alguns dias antes. Fiquei um dia a mais, jantei de novo no Clementina, recuperando a minha privacidade que foi testada e exposta nos três dias anteriores.

No dia seguinte, de manhã, fui tirar dinheiro no caixa eletrônico enquanto o shopping ainda estava fechado. Ao me ver, dois seguranças me seguiram e perguntaram o que queria, desconfiados. Curti o anonimato e a desconfiança;  ali, em traje de passeio e relaxado, certamente eu não parecia nem um pouco a pessoa que, até o dia anterior, havia conduzido um evento de grande porte naquele mesmo local e que havia planejado um esquema de defesa justamente com o responsável pela segurança do complexo.

Deixei a cidade já pensando em 2010, refletindo comigo se, de alguma forma, não preciso dessa adrenalina para preencher minhas lacunas, como quem se joga no vazio confiando que vai dar certo e, assim, consegue criar as ferramentas para ir mais longe a cada vez.


Respostas

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  2. interessante que vc goste de estar sozinho antes e depois de uma jornada no centro do comando, sob os holofotes.

    comandar é difícil, desgastante.
    ter uma equipe de pessoas sob comando exige muita concentração, senso de responsabilidade, flexibilidade, poder de decisão (agilidade para decidir) e… bom humor!!!

    mais interessante, ainda, ver que vc reconhece o prazer deste momento, sem se deixar dominar por ele.
    quem, afinal, não precisa de adrenalina?

    • Oi Márcia,

      É verdade. Acho que um processo como esse não deixa de ser um dreno psicológico e a forma que eu uso para me preparar e depois para voltar ao normal é me isolando (apenas um pouco, também não é assim…rs). É interessante que, com o tempo, lógico que a gente lida melhor com os problemas e a ansiedade é menor, mas mesmo assim, ela existe. Lembro-me de um professor que tive, muito respeitado e famoso, ótimo palestrante, que me confessou um dia que a cada vez que entrava em uma sala de aula, mesmo para alunos de gradução, tinha um frio na barriga, sem saber como seria a aula. E acho que essa preocupação deve ter contribuído para sua evolução.

      Bjs,

      Marcelo

  3. Marcelo, adorei ler esse post, não sabia que vc ficava assim antes do evento, achei que já estava acostumado !!!
    Foi cansativo, fiquei noites sem dormir, ansiedade, nervoso, rezando para tudar certo, e deu !!! Confesso, que participar desses eventos foi muito bom, enfrentei vários medos e aprendi bastante. Você tem muito a nos ensinar !!!
    Abraços
    Melina

  4. Oi Marcelo, antes de tudo parabéns pelo evento!

    Achei particularmente interessante o seu comentário a respeito da influência da sorte em algo dessa magnitude. São tantos detalhes que, ao final, a gente vê como um milagre tudo ter dado certo.

    A teoria dos sistemas complexos explica porque algumas coisas inevitavelmente acabam dando errado. Eu prefiro ver o modo como (muitas) outras coisas inevitavelmente acabam dando certo!

    Grande abraço, Rodolfo.


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