Publicado por: marcelopcarvalho | julho 6, 2009

A vida é o que você faz dela

Outro dia vi Foi Apenhas um Sonho (Revolutionary Road), do Sam Mendes (de Beleza Americana), com o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet. Um grande filme, com interpretações magistrais do DiCaprio, que já há tempos não é somente um rostinho bonito, e principalmente da Kate Winslet, que está simplesmente soberba.

revolutionaryroad

Os dois formam um casal que, no início da vida, se acha especial e infalível, com todas as possibilidades do mundo à sua escolha (remeteu-me agora à célebre cena do DiCaprio em Titanic, protagonizado pelos dois: “I am the king of the world!”, lembram-se?).

A necessidade de ganhar a vida e dois filhos pequenos vão colocando os dois na trilha convencional na qual a maior parte das pessoas passa sua existência. Como disse Woody Allen, “a realidade é uma merda, mas é o único lugar onde se pode comer um bom bife”.

April (a personagem de Kate) é uma atriz fracassada enquanto Frank (DiCaprio) trabalha em uma empresa, ganha bem, mas leva uma vida sem sentido, apesar do sucesso material. Percebendo a areia movediça em que estão pouco a pouco afundando, April propõe ao marido largarem tudo e ir para Paris, tentar ganhar a vida de uma forma diferente. Pelo menos tentar fazer alguma coisa diferente.

O casal enfrenta a resistência de todos – não é fácil enfrentar o establishment, especialmente por fazer com que as outras pessoas tenham de trazer à tona suas próprias frustrações pelos seus projetos não realizados e trajetórias equivocadas, sem que tenham a coragem de retomar o leme de suas vidas.

O único que compreende perfeitamente a proposta radical de ruptura decidida pelo casal é um vizinho problemático, recém-saído de uma internação psiquiátrica. Ok, essa parte pode ser meio clichê demais, mas serve ao propósito de mostrar que não é fácil “chutar o balde” das convenções sociais.

Só que a realidade não é tão simples assim… e não falarei mais sobre a história, que é um verdadeiro tapa na cara que nos acorda para os riscos embutidos nos planos não realizados, nos sonhos abandonados, nos passos não dados, nas oportunidades perdidas, nos perigos de se ficar na zona de conforto, na falta de coragem para mudar o curso das coisas quando está clara a necessidade de mudar, na constatação de que, um dia após o outro, devagar e imperceptivelmente, corremos o risco de ir parar bem longe de onde esperávamos ir, a ponto de não poder mais voltar.

O que, no final das contas, temos a perder? Dinheiro, status, segurança são suficientes para, lá na frente, olharmos para trás e afirmarmos com convicção que “valeu a pena”? Ou o que deveria contar é buscar um sentido para nossa existência, que vai além daquilo que a sociedade reconhece como padrão de sucesso?

O filme mostra que a vida é o que você faz dela. Esse é, aliás, o subtítulo do filme Linha de Passe, do Walter Salles e Daniela Thomas, que assisti ontem. Outro belo filme, mas que se passa no extremo oposto: uma família pobre no centro de São Paulo, uma mulher grávida sem marido e quatro filhos, que busca um futuro diferente mesmo diante da implausibilidade de se alcançar esse futuro (afinal, que alternativa mesmo eles têm para continuar vivendo?). Nesse caso, não há zona de conforto, apenas um desconforto constante, que sufoca e contra o qual se tenta fazer alguma coisa, nem que seja apelar para a religião ou, até, cair na criminalidade. Diante das dificuldades, a única opção é continuar a lutar e fazer o possível para mudar. Pessoas querendo desesperadamente mudar o rumo de suas vidas enquanto é tempo, mas limitadas pela absoluta falta de oportunidade.

linhadepasse

Diante de Linha de Passe, o conflito de Foi Apenas um Sonho se torna ainda mais dramático: nada pode ser pior do que ter a chance de mudar quando se pode mudar e simplesmente desistir.

Trailer de Foi Apenas um Sonho:

Trailer de Linha de Passe: 


Respostas

  1. Não basta apenas querer mudar, pois o ser humano não está sozinho no mundo, há uma rede de circunstâncias que nos cercam, e que geralmente frustram nossos desejos. Isso fica claro no Linha de Passe.Todos procuraram uma saída, mas a barreira da miséria impediu.É trágico, mas é a realidade. Quanto ao outro filme, Foi apenas um Sonho,ficou claro que o difícil é conviver com a realidade, e transformar essa realidade em um ideal, ou sonho. Ir a Paris para fugir da mesmice do dia a dia, é fácil, o difícil é sobreviver na mesmice que também existe em Paris.Portanto a mudança é interior, e quando esse interior é cinza, o sonho torna-se impossível(estou gostando muito do seu blog; seu post sobre humildade e modéstia achei muito bom, outro dia em uma palestra, soube que o termo humildade vem de humus – terra, firmeza)

  2. [...] A vida é o que você faz dela. Foram várias resenhas de filmes, talvez muito parecidas, mas acabei escolhendo essa [...]


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