Publicado por: marcelopcarvalho | julho 18, 2009

O eterno conflito de dar esmolas na rua

Gente pedindo dinheiro nas esquinas e calçadas sempre incomoda. Há diversos conflitos envolvidos nessa simples decisão que diariamente nos joga na cara as desigualdades que ainda existem e a nossa própria indiferença à questão.

Melhor, certamente, não dar nada: primeiro, ouvimos falar – e provavelmente em parte é verdade – de pessoas exploradas por outras, criando uma verdadeira indústria da esmola. Se a prática de dar esmolas se torna corriqueira entre todos os cidadãos que podem fazê-lo, certamente virará um bom negócio, e não parece nada viável regulamentar a atividade, restringindo a prática àqueles que não são explorados por espertalhões. Também, o que dizer daquelas pessoas que de fato não precisam e até nos enganam? Falsos deficientes, pessoas que poderiam estar trabalhando e não estão por ser mais fácil ficar nas ruas. Há, também, o comparativo e, com ele, a indignação: vira e mexe surgem matérias que nos surpreendem com a quantia arrecadada por algo que se caracteriza como um “trabalho” como outro qualquer. Como somos trouxas! E há, claro, as crianças, que deveriam estar nas escolas e nas casas, e não nas ruas.

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Tudo isso é correto e inquestionável (estou desconsiderando o argumento “não é problema meu”, que, infelizmente, talvez seja o mais prevalente). Porém, o problema continua, ainda que existam distorções. Há pessoas – e muitas – cuja única alternativa ao menos a curto prazo é pedir dinheiro. E há nós, com dinheiro, passando todos os dias por elas e tendo de lidar com nosso conflito pessoal de dar ou não dar a maldita (ou bendita?) esmola.

De certa forma, argumentar racionalmente a inadequação e o equívoco de dar esmolas é jogar o problema para longe de nós e ficar com a consciência tranqüila. Talvez uma hipocrisia inconsciente, amparada por bons argumentos e ótimas intenções.

Já ia me esquecendo da saída elegante que, além de aliviar nossa consciência, nos transforma em cidadãos preocupados com o bem-estar da sociedade: melhor do que dar esmolas é criar condições para que essas pessoas se insiram no mercado de trabalho como todos nós um dia fizemos.

Novamente, correto. Mas o problema continua e nos encara diariamente: enquanto essas melhores condições não chegam, ainda que aos poucos estejam chegando, devemos ou não dar esmola? Ainda que ajudemos a criar estas condições, ainda que doemos dinheiro para entidades que farão esse trabalho, ainda que sejamos bons patrões e chefes, veremos todos os dias alguém necessitado pedindo ajuda. Devemos ajudar ao próximo, que está ali? Ou a ajuda ficará sempre para o “próximo”, não a esse que nos pede (humor negro)? Ou, ainda, ajudaremos apenas o “próximo”, isto é, aquele que está próximo de nós, aumentando o fosso entre os nossos e os outros?

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Dar o auxílio pode não ser tão desproposital assim. De início, fui cético em relação ao Fome Zero e, mais recentemente, ao Bolsa-Família promovidos pelo governo Lula: o caminho não é dar dinheiro ou comida, mas sim criar empregos! É verdade, mas é inegável que o Bolsa-Família irrigou com renda muitas regiões carentes e movimentou as economias locais. Se você não concorda, veja onde tem se dado o crescimento de empresas como Nestlé ou Unilever, onde muitos de nós trabalhamos: no Nordeste, região mais beneficiada pelo programa, onde 40% da renda está atrelada ao Bolsa-Família e ao salário-mínimo. Claro, ele não resolve no longo prazo, mas talvez seja um dinheiro bem gasto pelo governo, dentre tantos usos mal feitos dos recursos arrecadados. E as pessoas precisam comer hoje, não quando as melhores condições chegarem. Melhor o aproximadamente agora do que o exatamente nunca.

Muitas vezes tiramos conclusões falsas a partir de premissas verdadeiras. Ou conclusões que queremos concluir. Como escreveu Anaïs Nin, “não vemos as coisas como elas são, mas sim como nós somos”.

Dou um exemplo. Nos países desenvolvidos, muitas ONGs e trabalhadores têm criticado os baixos salários e as condições de trabalho de países em desenvolvimento, como os do Sudeste Asiático. Faltou perguntar às pessoas que estão conseguindo esses trabalhos mal remunerados e inaceitáveis se estão melhores ou piores com eles. Apostaria que melhores – a China que o diga. Certo, há o trabalho infantil da Nike e coisas afins. Certamente há abusos que devem ser combatidos, mas é preciso analisar a floresta e não cada árvore individualmente. Mas não é só isso. O que não se diz é que a motivação por trás dessas críticas via de regra não é exatamente nobre como parece: o que está em jogo é a perda de milhões de empregos em função do outsourcing e dos investimentos diretos das empresas nesses países onde o custo do trabalho é mais barato. Viés protecionista disfarçado de altruísmo.

No caso das esmolas, o raciocínio é análogo: há abusos, não é uma solução definitiva, há outras formas de se fazer. Mas continua sendo uma solução parcial, ao alcance de todos, para fazer mais um pouco de justiça social. Se não me engano, Ricardo Semler, no seu livro “Você está louco!”, fala do hábito existente em países muçulmanos das pessoas andarem com sacos de moedas para distribuir aos carentes, contribuindo para a manutenção do tecido social nessas sociedades. É uma maneira de humanizar as relações, tornar os mais abastados mais próximos dos menos abastados. É diferente de doar dinheiro a uma instituição de caridade sem nunca visitá-la. O contato ocorre ali, frente a frente, olhos nos olhos, todos os dias.

Bem, eu não dou esmola. Normalmente, não dou. Primeiro, uma questão de ordem prática: não tenho como dar para todos os que pedem e, como não sei quem de fato merece, acabo não dando para ninguém. Às  vezes (ainda bem) não tenho trocado. Às vezes estou preocupado com meus problemas e aquilo me irrita ainda mais. Para aplacar a consciência, racionalizo usando os argumentos colocados no início do texto.

Mas o problema continua e a consciência, lá no fundo, incomoda. Afinal, a realidade está ali, diante de nossos olhos, e ela não é bonita. E isso tem um efeito muito maior do que argumentos lógicos.

Tenho, então, um mecanismo ainda mais eficaz para concluir que sou “de bem” e estou certo em não contribuir: admito o remorso, me condeno e fico mais tranqüilo comigo mesmo. Isso tudo, claro, passada a oportunidade de contribuir.

Cabe aqui o poema “Viajando num carro confortável”, de Bertold Brecht, citado pelo economista e filósofo Eduardo Giannetti em seu magnífico “Auto-Engano”:

“Viajando num carro confortável
Por uma estrada chuvosa do interior
Avistamos ao cair da noite um homem rústico
Solicitando-nos condução com um gesto humilde.
Tínhamos teto e tínhamos espaço e seguimos em frente
E ouvimos a mim dizer num tom de voz árido: “Não,
Não podemos levar ninguém conosco”.
Tínhamos avançado já boa distância, um dia de viagem talvez,
Quando subitamente fiquei chocado com esta voz minha
Com este comportamento meu
E todo este mundo”.

 

Assim como no caso da esmola, há sempre argumentos para justificarmos: pode ser perigoso dar carona a alguém; não tenho culpa se essa pessoa não tem carro (eu tenho o meu e ganhei com meu honesto suor); é preciso criar condições para todos terem o seu carro; é perigoso ficar nas estradas pedindo carona, etc.

Tudo isso é verniz, que não resiste à consciência crítica e sempre presente. A única arma que silencia o conflito é o auto-engano. Como explica Giannetti, “é doce imaginar-se firme, generoso e solidário no abstrato, enquanto a tentação de não sê-lo é remota e o desafio é apenas hipotético. (….). O tempo contudo, vira. E quando ele vira – quando a oportunidade concreta por fim se oferece de provarmos na prática que somos de fato tudo aquilo que imaginamos ser -, a voz que ouvimos deixa, com freqüência, de ser a nossa. Ações falam. E o que nossas ações falam nem sempre é o que nos acostumamos a ouvir, em silêncio, enquanto o futuro é algo em aberto, a promessa, generosa, e o desafio, remoto”.

E agora, você continua vendo a questão da esmola sob a mesma ótica dos argumentos tradicionalmente empregados (ainda que corretos, repito), ou sua perspectiva sobre o tema ficou mais nebulosa?   

Talvez eu tenha causado mais confusão do que esclarecimento. Mais dúvidas do que certezas. Mais contradições do que coerências. Se fiz isso, então sinto-me satisfeito por aproximar-me da realidade. Como escreveu Novalis, “cada ser humano é uma pequena sociedade”. Há muitas vozes e visões dentro de cada um. E, ademais, como escreveu Giannetti, “é apenas na lógica, não na vida, que contradições não podem existir”.

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Respostas

  1. Tenho um amigo, comunista de outras épocas que sempre diz:”Não dou esmola pois essa negativa acelera a revolução”

  2. Oi Marcelo,
    Adoto o princípio de não dar dinheiro para criança; só comida. Para pessoas idosas eventualmente posso dar dinheiro, a não ser que conheça sua história. Há uma senhora que pede esmola mesmo tendo casa e o filho tendo um carro. Nesse caso, não dou. Gosto de ajudar a Igreja do meu bairro em suas obras sociais. Sei que o dinheiro vai ser bem empregado. Um abraço,
    s.

  3. tudo isso é muito complicado, e eu não tenho respostas.
    via de regra, não dou esmola.
    mas alguns casos, alguns olhares, algumas rugas (em alguns dias nublados) me pegam de jeito, e aí ajudo sem me culpar ou sem ficar me achando trouxa.

    e Auto-engano é um grande livro.

  4. Texto verdadeiramente perturbador, sobre assunto difícil. Dizia Betinho “Quem tem fome, tem pressa”.
    Mas como saber a diferença entre a fome, a fissura por crack, a esperteza, a exploração…
    Na dúvida, o sentimento de culpa me acompanha sempre.


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