Respirando fundo, vamos lá.
No início, era aterrador. Como eu poderia ficar um dia, às vezes dois, com duas meninas pequenas em um apartamento árido até para um adulto? Não era exatamente surpresa que a vontade delas de vir só era alimentada, talvez debilmente, pela necessidade relutante de ver o pai. O fato é que eu não tinha intimidade suficiente, preparo e até infra-estrutura para essa tarefa que me parecia gigantesca perto de todos os outros desafios que tive e que, aos olhos de fora, possam ter sido bem mais significativos.
Aos poucos e de forma irregular, tortuosa, as peças foram se encaixando, para elas antes de para mim, admito. Elas encontraram no apartamento impessoal uma vida que eu mesmo não achei. Descobriram que brincar de escritório com celulares antigos, mouses, agendas de telefone velhas, etc. (obrigado mãe…) pode ser tão divertido quanto brincar com todos os brinquedos que têm em casa, ou que jogar o velho mico pela enésima vez pode ser tão legal como brincar com a boneca high-tech que fala e faz xixi. O jogo, aliás, não importa. O que importa é jogar. Vale para a vida?
No playground pífio do prédio aprenderam a se divertir como se estivessem na Disney, para minha perplexidade. Às mínimas coisas conseguiram transformar em solução, fabricando desse nada a chave-mestra da nova situação a que foram submetidas e que aprenderam a tirar de letra. E, confesso, foi tudo obra delas; fui e sou coadjuvante, e dos mais modestos, diga-se de passagem.
Descobriram as regras do jogo – mais do que isso, fizeram as regras e me ensinaram a jogar. Eu, ainda hesitante, procuro entender e, quem sabe, passar à próxima fase. Nesse jogo, o importante é estar presente, é fazer de cada experiência a melhor que se pode ter, não importando aonde ou o quê. Elas me ensinaram que não tem bola perdida e que é preciso extrair o máximo de cada situação. “A verdadeira origem da descoberta não está em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos”, escreveu Proust. Pois se for isso, elas aplicam Proust no dia-a-dia de uma forma que nem o próprio sequer sonhou.
Um exemplo singelo. Perto do prédio há um terreno baldio coberto por umas flores cor de laranja que sempre quis fotografar. Em um final de tarde com luz bonita, fomos lá. Elas inventaram (como sempre) uma brincadeira com as flores e abelhas e fiz minhas fotos, satisfeito com duas ou três delas. Logo depois, o terreno já não tinha mais a oferecer exceto a coceira proporcionada pelo capim e, compreensivelmente, pediram para ir embora. Na semana seguinte, a mais nova perguntou: “Pai, a gente não vai naquele terreno de novo?” Um terreno baldio é suficiente quando se decide que o copo vai estar meio cheio e não meio vazio.
Igual a esse há vários outros exemplos de episódios aparentemente sem significado e ocorridos em um contexto muitas vezes sem graça e que, sabe-se lá como, elas conseguiram transformar em algo grandioso, de tal forma que até hoje me surpreendo, como a alguém que não se acha merecedor do crédito, mas que acaba aceitando, ainda que um pouco envergonhado.
O que aprendi disso tudo? Talvez menos do que elas quiseram me ensinar, ou do que poderia aprender se fosse um bom aluno (é difícil olhar para dentro). Aprendi que vemos as coisas como somos e não como elas são (como as coisas são, afinal?), citando Anais Nin. Cabe a nós dar ou não dar o devido valor àquilo que vivemos independentemente da grandeza objetiva de cada ato ou experiência. Afinal, é a subjetividade que define a qualidade da experiência e, para minha sorte, elas decidiram tornar cada mínima experiência em algo enriquecedor e de grande valor.
Com elas, aprendi que a verdadeira sabedoria pode não estar na idade, nos livros, no sucesso material, mas sim em ter novos olhos, os olhos adequados para cada situação, olhos que têm o poder de tornar belas quaisquer paisagens e momentos, a qualquer tempo.



belíssimo e verdadeiro.
que bom ler um texto assim, numa sexta-feira de sol e frio.
renova a esperança de que adultos melhores virão.
Por: marcia em agosto 21, 2009
às 1:53 pm
Marcelo, que lindo texto!
Fiquei com lágrimas nos olhos.
Que sorte tem suas meninas com o pai que têm!
Por: Nina em agosto 21, 2009
às 7:06 pm
Marcelo,
Adorei o texto. E as duas, como sempre, lindas. As meninas e as suas fotos.
beijos,
Lili
Por: Ana Carolina Carvalho em agosto 22, 2009
às 12:59 am
Marcelo fiquei muito comovida, obrigada pela menção. Vou preparar outro estoque de coisas que só as meninas podem achar o que fazer com elas.
bjs
Silvia
Por: Silvia Carvalho em agosto 23, 2009
às 12:39 am
Marcelo,
Primeiro comentário masculino neste post!
Em dois meses, iniciarei minha jornada de aprendizados, com o nascimento da minha filha.
Suas lições são inspiradoras.
Abç, e até o Marcello Serpa,
Leo
Por: Leo Kuba em agosto 25, 2009
às 2:49 am
É isso aí Marcelo. A vida é um eterno aprendizado, e aqueles que nos ensimam as lições mais significativas estão sempre ao nosso redor.
Abraços e parabéns pelos seus textos.
Marcio Lambais
Por: Marcio Lambais em agosto 28, 2009
às 8:29 pm
[...] Aprendendo com minhas filhas. Esse não poderia ficar de [...]
Por: Retrospectiva 2009: meus 10 textos preferidos « O que der e vier em dezembro 27, 2009
às 12:24 am