Publicado por: marcelopcarvalho | setembro 7, 2009

Quer viver mais? Seja generoso

Recebi um texto legal sobre longevidade, que dizia que ser generoso faz você viver mais. Um estudo nos Estados Unidos revelou que pessoas empenhadas em ajudar o próximo reduzem em 60% o risco de morte precoce. Segundo especialistas brasileiros, isto estaria ligado ao fato de que, ao ajudar o próximo, a pessoa se sente mais útil, dando um sentido maior à sua vida. Isso também reforça os vínculos afetivos, que seria mais uma razão para (o organismo) querer viver mais. Por outro lado, o egocêntrico tem o dobro de chances de morrer cedo.

Ser generoso, doar-se, fazer o bem, está, dessa forma, intimamente ligado a manter laços afetivos fortes com aqueles que estão à sua volta. E isso faz viver mais, segundo o artigo.

Lembrei-me na hora (mais uma vez) do livro Fora de Série (Outliers), do Malcolm Gladwell, que conta, no prefácio, a história de uma pequena cidade de imigrantes italianos nos Estados Unidos, chamada Roseto, na Pennsylvania. Um médico chamado Stewart Wolf, especializado em digestão, soube que raramente havia uma pessoa com menos de 65 anos que tinha problemas cardíacos nessa cidade. Isso foi em 1950, antes dos remédios para redução do colesterol. Os infartos eram a principal causa de morte em homens com menos de 65 anos. Em Roseto, a taxa era simplesmente a metade daquela vigente na época no país. Somando-se todas as doenças, a incidência era 30 a 35% mais baixa do que no restante dos EUA.

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Wolf resolveu investigar o porquê. De início, espantou-se com o fato de não haver suicídios, alcoolismo ou uso de drogas. O número de crimes era mínimo e quase ninguém dependia da previdência social. Não havia ninguém com úlceras pépticas. As pessoas morriam de velhice.

Indo mais a fundo, ele tentou encontrar explicações na alimentação. Mas logo viu que os habitantes cozinhavam com banha de porco e não com azeite de oliva. Nutricionistas avaliaram que 41% das calorias (altíssimo) eram provenientes de gorduras. Não era a dieta, portanto.

Também, não havia esportistas e muitos até eram fumantes, além de obesos. Tudo errado. Wolf considerou então a genética, mas novamente não encontrou explicação, visto que seus parentes em outras regiões dos EUA não tinham a mesma saúde deles, nem mesmo em cidades de imigrantes vizinhas a Roseto.

Ele passou a desconfiar que talvez algum aspecto comportamental fosse a explicação. A diferença estava na intensa interação entre as pessoas e forte preservação dos clãs familiares, muitas vezes com 3 gerações familiares vivendo sob o mesmo teto. Isso ele não havia encontrado em nenhum lugar. Essas pessoas tinham um sentimento de utilidade coletiva, uma razão de ser, que ia além de sua individualidade e era responsável por aumentar significativamente sua expectativa de vida. Essa interação está ligada à generosidade, no sentido de se doar para a comunidade, ser importante para ela, ter uma vida plena de sentido. Talvez isso aumente o grau de felicidade e também contribua para uma vida mais longa.

Gladwell finaliza o prefácio dizendo que “é preciso aceitar a ideia de que os valores do mundo que habitamos e as pessoas que nos cercam exercem um grande efeito em que nós somos”. E, incrível, em quanto duramos nessa nossa passagem por aqui.

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É algo realmente notável. Fiquei pensando se não há um forte componente evolutivo nisso (não adianta, tudo começa ou acaba em Darwin). Se a generosidade está relacionada à vida em comunidade, talvez tenhamos sido selecionados para ser generosos por natureza. Imagino que para nossos ancestrais hominídeos a vida coletiva era fundamental para a sobrevivência. Se todos fossem individualistas, egocêntricos e excessivamente auto-centrados, provavelmente a comunidade desapareceria. Seria presa fácil para animais selvagens, não conseguiria caçar, etc. Assim, geração após geração, fomos sendo selecionados para viver em comunidade, o que implica em se doar, ser generoso.

Hoje é que está tudo invertido. Interessante Roseto ser justamente nos Estados Unidos, a meca do individualismo. Lá, talvez essa ausência da vida em comunidade tente ser substituída por alternativas como o rigor quase obsessivo nas questões de alimentação e exercício, visando diminuir a incidência de problemas de saúde. Uma tentativa de compensação, provavelmente capenga. O resto do mundo desenvolvido não está muito atrás (nós incluídos), afinal o padrão de competição mundial vigente é o norte-americano. Se quiser fazer parte…

Mas talvez haja uma reversão em curso no mundo, simbolizada por aspectos isolados, que, em conjunto, podem significar a construção de um novo padrão. Eleição do Obama, preocupação crescente com as mudanças climáticas, crescimento da importância da responsabilidade social das empresas, fortalecimento das ONGs, todos estes podem ser indicativos que estamos buscando inconscientemente o retorno ao que está impresso em nosso código genético: viver melhor em sociedade e, por conseqüência, dar mais sentido à nossa vida e assim viver mais. Talvez, enfim, o ser humano seja geneticamente programado para ser bom e generoso.

 (Será que a internet e suas comunidades também significam uma tentativa de dar mais sentido às vidas das pessoas, uma maneira talvez torta de compensar o stress, a competitividade, o individualismo e o egocentrismo, a corrida atrás do próprio rabo que se tornou grande parte da nossa existência? Será que o Facebook, o Orkut, o Flickr, o Twitter, etc., conseguirão ser bem sucedidos no papel de Roseto virtual?)

 A revista National Geographic de novembro de 2005 trouxe uma matéria chamada “The Secrets of Long Life”. Eles estudaram porque habitantes de três regiões distintas do mundo viviam mais do que os outros. Essas três comunidades eram Okinawa, no Japão; a Sardenha, na Itália; e Loma Linda, uma comunidade de adventistas do sétimo dia na Califórnia. Cada um tinha características específicas que levavam a uma vida mais longa, e obviamente há outros aspectos que não só a vida em comunidade e que estão relacionados à longevidade. Veja na figura abaixo o que encontraram em cada uma delas e o que estava presente em todas elas. Certamente não é coincidência! Pessoalmente, se é para viver mais, eu voto na Sardenha…rs.

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Dedico esse texto aos meus avós, Lucy e Moacyr, 85 e 87 anos. Finalmente descobri porquê  eles vão chegar aos 100 facilmente!!

IMG_4217


Respostas

  1. Marcelo,

    Lindo texto! Ao mesmo tempo me inspirou e me deu alento.
    Tão bela quanto, a foto de seus avós.

    Parabéns!

  2. Seus avós são uma simpatia, parabéns. O fortalecimento dos vínculos familiares e de amizade vem aparecendo na mídia como uma das bases da longevidade. Parece que a ciência descobriu a pólvora: “amar ao próximo como a si mesmo” e etc faz bem.


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