Publicado por: marcelopcarvalho | outubro 1, 2009

Amigos improváveis. Ou não.

Começou em Madri, em abril.

Éramos palestrantes do mesmo evento e, no jantar de gala, tivemos de sentar à mesa dos palestrantes, seguindo o protocolo britânico da empresa (britânica) que organizava o evento.

Após o jantar de gala, que terminou por volta das 23 horas, achei que estava cedo para voltar com os demais participantes ao hotel e propus aos três uma volta noturna por Madri. Eu e o Rick já tínhamos dado nossas palestras, enquanto o Geoff e a Esther teriam que palestrar no dia seguinte cedo. Mas toparam. Fomos e vagamos pelo centro antigo de Madri por umas 2 horas, voltando depois ao Westin Plaza, onde estávamos hospedados.

Chegando lá, vendo a noite se acabar, propus brindarmos com um Xerez, que nunca haviam tomado. Paguei uma rodada e lá ficamos mais 1 hora, ou mais. E foi isso.

Cinco meses depois, Berlim. Semana passada. Os quatro reunidos novamente. Rick, o americano de ascedência húngara, vice-presidente executivo de uma empresa; Geoff, inglês, editor de uma revista especializada; Esther, francesa, analista de mercado de uma consultoria inglesa, e eu.

De novo, após o expediente normal de jantares e compromissos noturnos que acabavam antes da nossa noite, saímos para conhecer a “night” de Berlim. Em um dos dias, eu havia ido a outro jantar, quando, lá pelas 23:30, a Esther me ligou perguntando onde eu estava, que iriam me buscar…e vieram. Fomos parar na famosa (eu nunca ouvira falar) Oranienstrasse, na Berlim ex-oriental.

Estava bem vazia e decadente, uma gente estranha, góticos e prostitutas nas ruas, nada se compara à noite brasileira de qualquer forma. O melhor que achamos foi um bar indiano semi-vazio com um garçom paquistanês com o qual tivemos uma conversa improvável, no início da madrugada, tomando uma caipirinha de Pitu. Muito ruim, por sinal, mas estava valendo.

Apesar da boemia, todos os dias de manhã estávamos lá no evento e nos compromissos. Em um dos dias, eu e o Rick tínhamos um café da manhã com mais 5 ou 6 pessoas (as 7 da manhã, em outro hotel!) para discutir o posicionamento do setor na Conferência do Clima em Copenhague.  Ninguém merece, mas comparecemos. A condição velada para ficar até tarde era não deixar a peteca cair. Apelou, perdeu.

Eu não sou muito noturno nem boêmio, mas quando você está longe de casa, em um lugar diferente, acontecem coisas estranhas. É como se você criasse um hiato na sua vida e ficasse ali, por alguns dias, vivendo outra coisa, com outras pessoas. Talvez longe das restrições pessoais e profissionais, as pessoas podem ser mais elas mesmas nessas ocasiões, ou o que gostariam de ser. Sei lá.

No jantar de gala do evento, havia um grande painel onde um artista pintou em 2 horas um belo painel quadriculado, com cerca de mil quadrinhos vendidos por 5 euros cada. Como o clima era de festa e todo mundo havia bebido um pouco ou muito, as mil peças foram vendidas rapidamente (o cara faturou 5 mil euros pintando um troço que foi picado em mil partes e que você compra e depois se pergunta porque fez aquilo! Isso é que é arte..!).

Compramos 4 pedaços que formaram um quadrado e firmamos o compromisso de, nos próximos eventos, caso nos encontremos de novo, levarmos cada um a sua parte, como que simbolizando o nosso grupo, já veterano de duas batalhas.

O Rick perguntou a Esther o que havia nos unido, considerando as idades e origens distintas (e língua, no meu caso; a Esther é half-english, half-french). Para ela, foi a fala do Geoff, em sua palestra em Madri, em que disse que não saberia como seria a palestra porque estava sob os efeitos do passeio da noite anterior, guiado por um americano e um brasileiro loucos. Acho que ela tinha razão. O Geoff é mais velho, fala pouco, é observador, mas quando fala, é preciso. Também, talvez o que nos uniu foi o fato de cada um estar procurando naquele grupo alguma coisa, ainda que essa coisa não fosse algo explícito para ninguém. Ou quase isso.

Terminado o evento, cada um foi para sua casa. De Madri a Berlim, não trocamos um email sequer. Acredito que não será diferente agora.  Talvez nos encontremos novamente, por aí. Talvez não. Pelo sim, pelo não, vou levar meu pedaço do quadro.

Pensando bem, 5 euros ficou de graça para consolidar os momentos improváveis que passamos juntos.

Geoff, Rick, Esther e eu

Geoff, Rick, Esther e eu


Respostas

  1. Essa postagem combina muito bem com o título do blog. É a síntese de “o que der e vier”. Você preparado para as boas oportunidades, por isso fazendo amizade com pessoas improváveis. Amei tudo, inclusive a foto. Um abraço,
    stella

  2. Muito legal, também ja tive sentimento parecido..
    Abraço.
    JH


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