Publicado por: marcelopcarvalho | outubro 2, 2009

Rio 2016: o mundo definitivamente aposta no Brasil

O Rio de Janeiro levou as Olimpíadas de 2016. Ganhou de Chicago (Estados Unidos, maior economia do mundo), Tóquio (Japão, segunda maior economia do mundo) e Madri (Espanha, nona no ranking).

A escolha das sedes olímpicas vai muito além do fato esportivo em si, tanto que os líderes dos quatro países estavam presentes, buscando sensibilizar os membros do COI para suas candidaturas. Como um cheque em branco, o país escolhido recebe um enorme voto de confiança para realizar o principal evento esportivo (e cultural) mundial.  Se esse cheque vai para países desenvolvidos, que já realizaram outras Olimpíadas, esse cheque em branco tem pouco risco de apresentar surpresas; dá-lo, porém, a um país emergente, a uma cidade carregada de problemas e sem a infra-estrutura adequada, ou é uma irresponsabilidade coletiva dos membros do COI, ou é a prova definitiva de que o mundo está vendo o Brasil de outra forma, ainda que muitos de nós não tenhamos a mesma visão. Prefiro apostar na segunda hipótese. Já tinha, inclusive, escrito sobre isso: O Brasil já é visto como potência.

A escolha do Rio como sede das Olimpíadas é parte de um processo de diluição do poder econômico e político entre novos atores. Pequim 2008 também foi parte desse processo em que o mundo reconhece cada vez mais que o crescimento econômico virá da periferia e não do centro do capitalismo, como de costume. É a era dos BRICs, e o Brasil é central nesse processo, constituindo-se em um pivô regional relevante e estratégico em diversas variáveis que serão fundamentais no tabuleiro de forças do futuro, principalmente na questão ambiental e na produção de alimentos. Alguns países emergentes mudaram de status no cenário mundial: a percepção de risco diminuiu; suas moedas se valorizaram frente ao dólar e mesmo frente a outras moedas fortes; passaram a ser ouvidos em assuntos mais estratégicos.

Claro que há o outro lado da moeda, e que não pode ser ignorado. Os investimentos serão significativos (porque não investir em educação, saúde, segurança?); há sempre a suspeita de desvio de verbas, a farra com o dinheiro público; haverá uso demagógico dessa conquista; o Brasil não é uma potência olímpica; as obras se tornarão elefantes brancos após os Jogos, e por aí vai.

Tudo isso pode ser verdade, ou não. Cabe ao Brasil mostrar que pode dar conta do recado e que esse reconhecimento mundial é justo e acertado. Estaremos nos holofotes, afinal o Rio venceu “na marra”: pode ter um bom projeto, mas está tudo ainda por fazer. Em que pese o carisma do Lula, o trabalho do COB e o fato do Brasil estar na moda, o fato é que recebemos um enorme voto de confiança.

Nesse sentido, terá de haver transparência na prestação de contas e a imprensa terá um papel fundamental nisso. Terá de haver investimentos para amenizar os problemas crônicos da cidade. Será necessário fazer investimentos no esporte de base para não fazermos um papel secundário nos Jogos.

Uma coisa é clara: a escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016 é a prova evidente de que o Brasil é a bola da vez, ou uma delas. O cavalo está passando arreado e é a nossa chance de aproveitar. Talvez tenha chegado a vez do eterno país do futuro virar do presente.

Mas, alto lá. Até agora, pelo menos no que se refere aos Jogos Olímpicos, o marketing foi bem feito; mas o trabalho só começou. É preciso entregar o prometido. As expectativas são altas e agora vem a hora da verdade. Se a lição de casa for feita, Rio 2016 terá um saldo positivo para o país, podendo significar o carimbo de “aprovado” em nosso passaporte para o futuro. Se não…

rio2016

Obs: O La Nación, da Argentina, falou a mesma coisa que eu – destaco o trecho final:

“Lejos de leerse como un hecho aislado, la obsesión que el gobierno brasileño mostró por los Juegos Olímpicos debe interpretarse como una actitud de un país que aún con su compleja problemática social, actúa como potencia y pretende que así sea percibida en el campo internacional. No faltará la oportunidad: en el 2014 y 2016 el mundo tendrá sus ojos puestos en Brasil”.  

PS: No Twitter – se o Lula fosse bom mesmo, traria para o Brasil as Olimpíadas de Inverno. São Roque 2018!!!


Respostas

  1. No final da entrevista coletiva de ontem (onde ele chorou) Lula até acrescentou que agora vamos concorrer as próximas olimpíadas de inverno…
    Concordo em gênero, número e grau com tudo o que você escreveu, mas tenho que confessar duas coisas:
    Ontem lavei a alma (estou como todos os cariocas “de ressaca” )
    E que “o cara” tem carisma e …desculpe…mas deve ter nascido com a “bunda virada para a lua” a isso deve!!!
    Temos que ficar de olho nas “famílias Sarneys” que agora mais do que nunca vão tentar “fazer a festa”!!!
    Abs da CARIOCA
    Malu

  2. É isso aí, Malu, e parabéns, essa ressaca vale a pena!

  3. Toda pessoa competente precisa de uma certa dose de sorte. Ele é e tem.
    Evidente que não estamos acostumados…Imagine um metalúrgico, nordestino, comandar um país que sempre esteve nas mãos da UDN e da burguesia que acha que o importante é o título, ops ! o carro….
    Pena que a grande imprensa não publicou na íntegra o discurso de apresentação do Presidente; parece que foi muito bom.
    Aliás, isso já é costumeiro(vide a entrevista que Lula deu para o Valor Economico e quase ninguem comentou)
    Agora, é evidente que precisa haver controle com o orçamento de quase R$30bi c/ as Olimpíadas.Caso contrário teremos o repeteco do que aconteceu no PAN (aquí), na Copa(Alemanha), na Copa (Itália).
    Não considero o COI irresponsável. Também não acho que o Rio tenha infraestrutura montada, assim como Pequim também não tinha.
    Acho sim que é uma grande opçortunidade para resolver grandes problemas(sociais) do Rio.Vai ser a solução ? Não sou otimista, mas que vai haver uma melhora na cidade, sem dúvida.Não chegará aos pés dos anos 60 e 70, mas qual cidade hoje, mesmo com essa proporção de investimento, mas com esse tamanho, tem seus problemas solucionados?

  4. Marcelo,

    Como sempre, seu texto está brilhante. Coerente em sua argumentação e, especialmente, isento dos preconceitos que vemos por aí.

    De minha parte, fiquei muito feliz com essa conquista. Lula é o cara e o Brasil, o lugar no cenário mundial neste momento.

    Cabe a nós, mais do que nunca, cuidados em escolher e fiscalizar os governantes e responsáveis pelo gerenciamento do evento.

    (ah, sim, e deixando a objetividade de lado… Eu sou apaixonada pelo Rio desde sempre!)


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