Publicado por: marcelopcarvalho | outubro 24, 2009

Uma semana na Califórnia, com vinhos e velhos amigos

De volta da Califórnia, com muito trabalho acumulado e muito sono (preciso de novas férias).

Como começar? Viajar em 4 amigos da época de faculdade, uns bons anos depois, acaba sendo uma tentativa de resgatar aquilo que já passou. Sim, tem um quê de nostalgia, daquela época em que as responsabilidades eram poucas e as possibilidades, muitas. Por mais que se queira olhar para frente, todas as lembranças são do passado, os caminhos de cada um foram escolhidos também no passado, e é esse passado que se revisita para compreender melhor o presente. O futuro é outra história.

Mas, fui percebendo ao passar dos dias, que é impossível reviver esse tempo: “quer ir a Minas, Minas não há mais”, escreveu Drummond, ou “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, porque não é mais o mesmo rio”, disse Heráclito, lá atrás. As motivações  de cada um são outras, as preocupações também; por mais que o passado quase sempre pareça melhor do que o presente, a vida andou. Pensando lá no fundo, ainda bem!

Também, momentos improváveis como os proporcionados por uma viagem destas revivem velhas arestas que, naquela época, não foram aparadas, talvez por falta de maturidade. Tudo isso, na verdade, significa uma chance de corrigir (não é a palavra certa), ajeitar, ou melhor, azeitar velhas engrenagens que enferrujaram pela falta de atividade. Talvez faça parte da verdadeira amizade justamente  a disposição desse acerto de contas no bom sentido. E, no final das contas, tudo isso reforça os vínculos. Enfim, a viagem acabou tendo um certo componente psicológico que daria um bom roteiro de filme.

Fazendo um resumo bem resumido, de início subimos de carro (uma SUV que parecia um tanque de guerra, bem americana mesmo) de Los Angeles para Monterey pela highway 01, na Costa do Pacífico, em uma viagem de mais de 6 horas, que começa a ficar legal após Santa Barbara (comemos em Malibu, bem meia-boca). Ali, a topografia fica mais ondulada e começam a aparecer os primeiros vinhedos. Aliás, o filme Sideways foi filmado por lá e não no Napa Valley, que acaba sendo a região mais famosa (e com muito mais vinhos).

Cipreste, Monterey, Califórnia

Cipreste, Monterey, Califórnia

Em Monterey, ficamos em um belo hotel, bem no coração da histórica Cannery Row, da época em que a indústria de sardinhas sustentava a região. A Monterey de John Steinbeck (de “As vinhas da ira”) é simpática e muito bem cuidada, valeu a parada. Jantamos na primeira noite (moídos de cansaço) em um restaurante meio pomposo e que não agradou muito (Sardine Factory), com uma carta de vinhos enorme e caríssima (aliás, não espere vinhos baratos por lá…). Mas beleza. Lá perto, em Santa Cruz, fizemos nossa primeira degustação de vinhos, na vinícola Bonny Doon, de um cara meio doido que tenta produzir vinhos do Rhone, e que ficam beeem esquisitos.

No dia seguinte, fizemos a 17-mile drive em direção a Carmel, uma estrada particular que vale a pena, passando por mansões e campos de golfe em uma paisagem realmente bonita, com penhascos e praias margeando o Pacífico. Carmel-by-the-sea é uma espécie de Campos de Jordão muuuito melhorada, realmente bonita, com a diferença que está à beira-mar. Lá, tomamos nosso primeiro bom vinho, um Beaulieu Cabernet Sauvignon 2005 muito equilibrado, apesar dessa safra não ter sido tão boa. Aliás, a Beaulieu, mais conhecida como BV, é uma das pioneiras e tida como a produtora de um dos primeiros vinhos decentes da Califórnia, o Beaulieu Georges Latour Private Reserve.

Depois, fomos de novo para o Sul, para o chamado Big Sur, até a cidade de mesmo nome, uns 60 km de Carmel. A paisagem é seca, escarpada, deserta, sempre tendo o Pacífico como referência. O tempo estava fechando e talvez isso tenha contribuído para nossa impressão, mas para quem está acostumado com a costa do litoral norte de São Paulo e o litoral sul do Rio, o Big Sur não pareceu grande coisa.

A partir daí, rumo norte novamente, em definitivo. Ficamos na cidade de Napa, no coração da região vinícola da Califórnia e dos Estados Unidos.  Pegamos 2 dias de chuva que, pensando bem, não é tão ruim assim se estamos na etapa eno-gastronômica da viagem (só o passeio de balão que teve de ser cancelado, pena). Em Napa, Sonoma e outras cidades da região, encontra-se uma vinícola atrás da outra, a grande parte aberta a degustações com uma boa estrutura para visitantes. Em algumas, é necessário marcar hora; em outras, é só chegar. A um custo de US$ 15-20 por pessoa, degusta-se 5-6 vinhos, e o ambiente é hospitaleiro (genuinamente, ou não). Nos hotéis, há sempre mapas e revistas da região específicos sobre os vinhedos; no Napa Valley, é fácil se orientar: são 2 estradas que cortam o vale de norte a sul, ligadas em vários pontos. As vinícolas estão dispostas ao longo dessas estradas e nas intersecções. Só alegria.

Os destaques foram o Chateau Montelena (em Calistoga),  uma propriedade belíssima, estabelecida em 1882, e que cujo Chardonnay 1973 bateu vários franceses de ponta, na célebre degustação de Paris, de 1976, colocando a Califórnia no cenário de vinhos de qualidade (experimentamos o 2007, muito bom);  a Frank Family, mas há realmente inúmeras outras que valem a pena e que nos foram indicadas, como a Joseph Phelps, Cakebread, Caymus, Pezzi King, Kuleto, Robert Mondavi, Beringer, Stag’s Leap, e por aí vai.

(Aliás, pausa para reflexão: em vários lugares, vinícolas, restaurantes, etc, as pessoas nos parabenizaram pelo escolha do Rio como sede dos jogos de 2016).

Vai uma abóbora aí? Pegamos uma hora de trânsito por causa dessas abóboras.

Vai uma abóbora aí? Pegamos uma hora de trânsito por causa dessas abóboras.

Subimos a Spring Mountain, onde quase ninguém vai, e caímos na Paloma Vineyards, uma propriedade de 6-7 hectares, onde fomos recebidos debaixo de chuva por Barbara Richards, uma senhora simpática de uns 70 anos (Jim, o marido estava trabalhando com as uvas), proprietária da Paloma Vineyard. Diferente de tudo o que vimos lá embaixo, a Paloma é uma empresa familiar, de gente que vive de vinho há décadas e está de certa forma fora daquele frisson que ocorre lá no vale. Ela nos recebeu em sua bela casa e nos serviu seu ótimo Merlot – sem cobrar nada por isso (claro que compramos uma garrafa antes de sair). Detalhe: o Merlot safra 2001 deles foi escolhido o vinho do ano (custando US$ 45!) pela Wine Spectator, atingindo 95 pontos, a maior pontuação na história para um Merlot da Califórnia. E pensar que chegamos lá por acaso…

O segredo do sucesso? O solo e clima, claro, e a colheita feita manualmente, em diversas etapas, pegando só o que realmente está pronto. O olho dela, sem dúvida. Ela conhece cada metro quadrado de seu terreno, é realmente impressionante. Parece conhecer cada parreira pelo nome.

No último dia em Napa, tinha prometido bancar um Gala Dinner. Achamos na pequena Yountsville um bistrô francês, 2 estrelas no guia Michelin, e conseguimos reservar. O jantar estava excelente, a um preço mais do que honesto, e foi lá que tomamos os dois melhores vinhos da viagem, ambos do Russian River Valley, em Sonoma: primeiro, o Pinot Noir Emeritus 2007 e, depois, para nossa surpresa, outro Pinot – Walter Hansen – Cuvée Alyce 2006, que conseguiu a improvável tarefa de ser ainda melhor do que o Emeritus. Foi o vinho top da viagem. E olha que a turma era exigente; um é casado com uma francesa legítima; o outro é especialista em vinhos italianos; o outro, suíço-fake, é só fresco mesmo…haha (eu era o mais fraquinho em termos de vinho).

Na saída do Bistro Jeanty

Na saída do Bistro Jeanty

Ah, em Napa, em uma das noites que o cansaço bateu, resolvemos fazer um queijo e vinho no hotel mesmo. Conseguimos torrar US$ 250 entre vinhos e queijos, mas fomos dormir felizes.

Depois disso, subimos a serra e fomos para o belíssimo Yosemite National Park, uma jóia improvável em meio a aridez da Califórnia. Um rio que corta um vale cheio de pinheiros, penhascos e cachoeiras. Ficamos pouco mais de um dia, e é um local que ainda vou voltar, apesar de já ter ido 2 vezes.

Yosemite Falls

Yosemite Falls

Por do sol no Glacier Point, com o Half-Dome à direita

Por do sol no Glacier Point, com o Half-Dome à direita

Eu em Yosemite Falls

Eu em Yosemite Falls

O final da viagem foi em San Francisco, onde basicamente nos dedicamos a compras (comprei um “gear” fotográfico de ponta) e a conhecer a cidade, mas de leve.  San Francisco é a cidade onde os americanos são menos americanos e, por isso, além dos imigrantes, é a cidade menos americana dos Estados Unidos.

Depois de muito peixe regado a Sauvignon Blanks da famosa Robert Mondavi Winery, além de um pato de pequim acompanhado de um belo Cabernet Sauvigon da Justin Vineyards, de Paso Robles, devo dizer que o destaque gastronômico foi a Swan Oyster Depot, uma peixeira fundada em 1912, de uns 3 metros de largura, com um balcão de 20 lugares, que tem um atendimento fantástico e serve ostras e diversos pratos à base de mariscos, crustáceos e peixes impecavelmente frescos. Um lugar simples, barato, com fila na rua, e simplesmente magnífico. Um must, sem dúvida, que mostra que as coisas boas da vida não precisam ser sofisticadas ou caras. O resumo do Frommers diz tudo:

“Turning 96 years old in 2008, Swan Oyster Depot is a classic San Francisco dining experience you shouldn’t miss. Opened in 1912, this tiny hole in the wall, run by the city’s friendliest servers, is little more than a narrow fish market that decided to slap down some bar stools. There are only 20 or so stools here, jammed cheek-by-jowl along a long marble bar. Most patrons come for a quick cup of chowder or a plate of oysters on the half shell that arrive on crushed ice. The menu is limited to fresh crab, shrimp, oyster, clam cocktails, a few types of smoked fish, Maine lobster, and Boston-style clam chowder, all of which are exceedingly fresh. Note: Don’t let the lunchtime line dissuade you — it moves fast”

Swan Oyster Depot

Swan Oyster Depot

Foi um final digno para uma viagem para ficar na memória. É isso aí, valeu a viagem, cujas fichas vão caindo aos poucos!

PS: agradeço as dicas da Giselda e ao Paulo, do blog Nosso Vinho, por ter me indicado a Giselda!

San Francisco, vista da Lombard Street

San Francisco, vista da Lombard Street


Respostas

  1. Marcelo,

    Valeu a espera (minha) pelo seu texto, está muito bom! O estilo, o relato, as fotos… Parabéns!

    Excelentes dicas para uma viagem futura. Guardo desde já a Barbara (Paloma Vineyards) e seus Merlots, o Cuveé Alyce (rs) e a Swan Oyster Depot como meus favoritos. (Yosemite é uma viagem prometida a minha menina).

    Parabéns de novo!

  2. Suas reflexões merecem um comentário próprio.

    Amizades verdadeiras merecem ser preservadas. Muito boa essa chance de revisitar o passado. E melhor ainda foi que você pode concluir que “the best is yet to come”.

    Com diz Leoni em uma música que eu adoro:

    E o que vai ficar na fotografia
    São os laços invisíveis que havia

    beijo

  3. [...] Também, revi por acaso o Sideways, voltando de avião de Berlim. O filme teve um sentido especial nesse momento porque 2 semanas depois eu estava indo pro meu Sideways. [...]

  4. Marcelo,
    Recentemente tive a experiência de me reencontrar com amigos de juventude e relembrar os bons momentos que não voltam mais. Esse balanço de nossas vidas trás uma nova perspectiva de vida, certamente.
    Vou percorrer essa rilha na California, e algumas outras, antes dos 60!!!!!
    Abraços,

    Marcio

  5. [...] Obs: aqui vai um post tardio sobre nossa viagem a California: http://blog.oquederevier.com/2009/10/24/uma-semana-na-california-com-vinhos-e-velhos-amigos/ [...]

  6. Boa tarde Marcelo,

    Parabéns pelo excelente texto e pela viagem maravilhosa. Irei fazer uma viagem semelhante agora em março e gostaria de tirar umas dúvidas com você. Qual é o seu e-mail? O meu é rafalatini@yahoo.com.br. Muito obrigado.

    Atenciosamente,

    Rafael Latini França


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