É assim que às vezes me sinto. Começo mesmo a achar que estou ficando ultrapassado. E já aviso que vou escrever absurdos que irão contra o censo comum destes novos tempos.
Recomeçando: ultrapassado. Explico: a forma como absorvo informação é incompatível com essa avalanche caótica, compartimentalizada e superficial de mensagens cuja expressão máxima é o Twitter, a ante-sala do grunhido, segundo o Saramago, certamente um dinossauro ainda mais jurássico do que eu.
Sou daqueles que precisa ir a fundo na argumentação de um autor para poder compreender suas hipóteses e seu raciocínio e, mais importante, tentar incorporá-los na minha forma de ver as coisas ou aplicá-los no dia-a-dia profissional, por exemplo. Em livros de negócios, sou daqueles que lêem o rodapé, as notas no final do livro, dou uma passada na bibliografia. Não sou daqueles que vai se contentar com um link que leva à fórmula de sucesso do último empreendedor da internet mundial.
Com esse método quelônico de obtenção de novas informações, vou certamente ficar para trás, perdendo feio para aqueles que se adaptam bem a essa nova realidade em que tudo é repassado na forma de pequenos fragmentos descontextualizados e desconexos (falando mais especificamente do Twitter): dicas sensacionais para os negócios e para a vida pessoal, alguém reclamando de insônia, outro fazendo auto-propaganda, de repente o Millôr escrevendo algo inteligente, uma notícia aqui e ali, um outro tentando emplacar uma frase supostamente inteligente e que possa ser retuitada e ganhar o mundo, um outro ainda deixando todos a par de sua rotina diária, etc. (não que eu seja diferente, o que não quer dizer que não possa criticar, muito pelo contrário…).
É como ficar na frente da televisão durante horas, só mudando de canal, sem realmente ver nada direito. Você ouve o galo cantar, mas não sabe aonde. Talvez nem tenha sido um galo. Não importa – parece que já tem outra coisa cantando. É assim que me sinto com o Twitter, a nova febre da humanidade, ainda que nem seus fundadores saibam exatamente para que serve e como ganhar dinheiro com isso (aliás, só alguém ultrapassado como eu fica preocupado com essas coisas mundanas – o uso vai aparecer mais para frente, e não interessa ganhar dinheiro, o que vale é criar a “rede”. Sei.).
Colocando um olhar externo sobre esses tempos, acho que existe um deslumbramento infantil e escapista nisso tudo. É importante estar na moda, fazer o que os outros fazem, e é isso que os outros estão fazendo. As pessoas não param muito para pensar, até porque não adianta pensar sobre algo que está só começando; o futuro é incerto, o que importa é pegar a onda.
Também, as pessoas se sentem maravilhadas com a possibilidade de aparecer para o mundo (só que não dá para todo mundo aparecer para o mundo e daí você vai perceber que aparece mesmo para uns poucos!!), de finalmente dar vazão a alguma coisa que não tinha como ganhar o mundo no universo pré-internet, e o resultado é um tsunami de informações que tornam impossível ter a atenção suficiente para separar o joio do trigo. O Herbert Simon, Prêmio Nobel de Economia, cunhou a expressão “A riqueza de informação cria a pobreza de atenção”. Nada mais correto: é muita coisa, o bom vai se perder no meio de uma imensidão de inutilidades.
Ainda, o fenômeno das redes sociais virtuais pode ser a necessidade das pessoas de fazer parte de alguma coisa, de ser reconhecidas; é também a expressão atual do milenar hábito gregário do ser humano, que vem sendo continuamente achatado nessa sociedade individualizada, e que gera pessoas simplesmente carentes, que precisam de companhia, proteção e aprovação.
É possível que eu esteja errado, e bem provável que esteja exagerando. Há, claro, o lado positivo disso tudo. Só que, neste texto, optei por expressar o lado negativo, ainda que de forma potencialmente exagerada: o objetivo era esse mesmo, visando estimular a reflexão de quem vê a coisa de forma diferente da minha.
Às vezes ser polêmico tem seu valor. O Alvin Toffler (outro paleolítico) não engole isso de inteligência coletiva. As massas escolhem errado. Deixa o Chris Anderson ou o Jeff Howe ouvirem isso…Mas o Toffler merece um crédito, afinal “previu” o futuro melhor do que ninguém (ah, mas o Anderson e o Howe criam o futuro! Pode até ser, mas quando a coisa é unânime, fico preocupado…). Quando li isso do Toffler, eu parei pra pensar na questão.
Voltando ao meu problema inicial. O que me preocupa em relação ao conhecimento é que ninguém vai mais a fundo em nada. As pessoas buscam pílulas de informações que sequer utilizam, porque precisam buscar novas pílulas amanhã. Eu não consigo estruturar um raciocínio decente em cima dessa areia movediça, mas fico com a sensação de que estou perdendo o passo até ser finalmente extinto.
Nesse ambiente, é inconcebível perder tempo, por exemplo, lendo um livro de 800 páginas (no momento, eu estou lendo um livro de 800 páginas…). Imagine quantos posts em blogs e no Twitter eu poderia ler, quantas fotos no Flickr eu poderia comentar e com isso dar a senha para outros comentarem as minhas também, ao invés de ficar preso por semanas em um texto “ineficiente” à la Grande Sertão-Veredas? O mundo lá fora corre e eu lendo um livro de 800 páginas, enquanto circularam pelo menos 15 listas das 10 melhores dicas disso e daquilo!! (e sabe-se lá se alguém realmente vai conseguir implantá-las, ou só está enganando a si próprio e procrastinando, não fazendo aquilo que sabe que precisa ser feito, mas isso é outra história).
(Aliás, o que um defasado como eu diria sobre dicas de negócios? Vá ler o Porter, o Kotler, o Mintzberg, o Christensen, o Adam Smith…vá direto à fonte, entenda o raciocínio de quem de fato produziu algo que agrega, ainda que, no fundo, você saiba que isso não vá resolver a vida de ninguém).
Mas…e se eu fizer mesmo parte de um mundo em extinção? Será que hoje em dia Grande Sertão-Veredas serve mesmo para alguma coisa, exceto passar no vestibular? Indo mais além, para que serve cultura e conhecimento, se a regra que impera é a superficialidade, a quantidade em detrimento da qualidade, a transitoriedade, o “líquido, do Zigmunt Bauman? Pra que livros, museus, história, geografia, política, se o namorado da Demi Moore tem mais de 1 milhão de seguidores no Twitter? Quais são os valores que determinarão o sucesso daqui para frente? O que é mais importante – conseguir mobilizar um número enorme de pessoas nas redes sociais, ter seguidores como um Antônio Conselheiro tinha, ainda que você só escreva bobagens, ou ter algum conhecimento, em tempos em que está tudo disponível a um clique, no Google (e depois virão os implantes cerebrais mesmo)? Boas dúvidas…
Esse texto pode parecer pessimista, mas não é exatamente essa a questão. Talvez a geração mais nova não entenda nada do que escrevi, assim como nunca terão passado um fax ou colocado uma carta no correio. Aliás, sou de uma geração de transição, aquela que ainda tenta pegar o bonde, mas constata que ele anda cada vez mais rápido. E que ainda acha que o bonde pode estar indo para o lado errado…
Talvez seja este o problema: essas preocupações todas podem ser tão somente uma espécie de canto do cisne, inócuo, que soa indiferente para quem vive perfeitamente bem sem saber onde o galo cantou ou se, de fato, aquilo era mesmo um galo.
PS: A cada dia, eu deixo de seguir determinado número de pessoas no Twitter. Meu principal critério é o número de tuitadas: comecei a cortar os que tuitavam demais. Pensando bem, gosto cada vez mais de seguir aquelas pessoas que nunca tuítam (tem acento?) nada.

eu espero que vc não esteja à beira da extinção, nem pessoas como vc.
mas não sou tão pessimista.
livros não deixam de ser lidos (nem os clássicos) porque o twitter existe, ou o facebook, ou o orkut ou sei lá mais o quê.
não tenho filhos, mas tenho sobrinhos e alunos. todos usam estas ferramentas, e todos leem muito. é interessante ver o movimento de um aluno que usa o twitter e também lê Julio Cortazar.
tudo tem a parte e a contraparte.
e o bom é poder escolher (quem a gente segue e deixa de seguir, no blog de quem a gente comenta, que bobagens a gente se permite “receber” sobre o cotidiano dos outros e que nos ajudam a ver que somos todos tão humanos).
p.s.: hoje não estou com insônia. vou lá no twitter alardear, afinal é uma informação muito importante.
Por: marcia em outubro 29, 2009
às 12:21 am
Hum, Marcelo, não sou a melhor pessoa pra responder à pergunta do título porque sou, eu mesma, muito fora de moda…
Gostei muito do seu texto e concordo com você. Não dá pra se usar todas as ferramentas, saber de tudo e muito menos, o tempo todo. Há que se ter um tempo para reflexão e análise, e mais ainda, há que se ir além da superfície.
No entanto, eu tenho todas essas ferramentas (embora não seja das mais participativas): orkut, blog, facebook, twitter. Aliás, dei um RT no seu post!
Diante de tanta contradição, só me resta encerrar com a frase:
Ambivalent? Well, yes and no!
Por: Nina em outubro 29, 2009
às 7:20 pm
Márcia e Ana,
Eu concordo com vocês e confesso até que, pasmem, não concordo 100% comigo nesse texto (Ana, por falar em contradição…). Com certeza há o lado positivo e é claro que tento explorá-lo da melhor forma possível.
Pode ser que, pelo fato de ser tudo novo e representar uma mudança significativa na forma como absorvemos informação (e na quantidade), às vezes o “lado negativo” se mostra presente.
Outro dia li que quando a escrita foi inventada, acho que no Egito, os sábios da época se preocuparam porque ninguém mais precisaria saber nada, porque estaria tudo escrito…Obviamente não foi o que ocorreu. Talvez seja uma analogia válida.
De qualquer forma, acho que algumas questões colocadas no post ficam para questionamento.
Mas vcs tem razão. Até porque, se não fosse toda essa parafernália, não teria achado vocês, não é…rs!!
Marcelo
PS: vou continuar seguindo vcs, por favor não me bloqueiem!
Por: marcelopcarvalho em outubro 29, 2009
às 8:26 pm
Ufa, não estou sozinha!!!
Obrigado Marcia, Nina e Marcelo!
PS – lembrei da família dinossauro, Dino pai respondendo à reclamação da Dino mãe que não conseguia ver um programa inteiro com ele “zapeando” o controle da nova TV a cabo da família: comprei mais de 200 canais…temos que ver todos!!
Por último, vale uma olhada em http://www.flixxy.com/medieval-tech-support.htm
abs
Malu
Por: Malu Moraes em outubro 29, 2009
às 10:08 pm
Dia Marcelo,
Só pegando uma carona na pergunta se “tudo isso é útil/ necessário?”, que achei ‘embutida’ no texto …..
Me lembro de uma cena (hilária) da filme/sério “o descobrimento do Brasil” com o português tentando convencer o índio (hilário S Mello) a trabalhar “para que?”, para poder descansar depois, explica o português, “mas eu estou descansando!” …..
Ou seja, na prática a gente precisa de comida/ bebida, sono e sexo …. para todo o resto me pergunto “vale à pena”? “quem inventou essa coisa de trabalho, não tinha mais o que fazer mesmo!” … e assim vai …
Hoje a economia se baseia em prestadores de serviços que prestam serviços outros prestadores de serviços ….. ninguém cria nada!!!!!
Abraços
Alexandre C. Serpa
Por: Alexandre C. Serpa em outubro 30, 2009
às 8:37 am