Londres, abril de 2007. Participando de um congresso, resolvi em uma das noites assistir ao Fantasma da Ópera no Teatro Majesty. Casa cheia, peça aplaudida de pé, uma verdadeira apoteose, você sai meio anestesiado. Do meu lado, uma mulher comenta com a amiga, sintetizando a razão de tamanho sucesso: “It’s so powerful!”
Um vendedor esperto vendia DVDs do filme de 2004 – (dirigido por Joel Schumacher), na porta do teatro a preços exorbitantes. Lógico que comprei o meu, para só depois lembrar que o sistema Pal-m não funciona aqui…Desde então, o filme permaneceu intacto na gaveta que fica embaixo da TV.
Semana passada, no Shopping Iguatemi, São Paulo. Lembrei que precisava comprar um CD de presente para alguém e vi, a minha frente, as Lojas Americanas e entrei. Não custa tentar, pensei, embora à medida que andava pela loja foi ficando claro que o melhor seria sair correndo dali e ir para a Livraria Cultura do Villa-Lobos.
De fato, o CD que eu queria não tinha (a vendedora nunca tinha ouvido falar na Céu). Na saída, eis que olho para um display de ofertas e lá estava ele, pedindo para ser comprado: o DVD do Fantasma da Ópera, de Joel Schumacher, por R$ 12,90. Naquele momento, comprendi a verdadeira razão de eu ter entrado naquela loja…era hora de rever o Fantasma.
Trata-se do musical de maior sucesso da história. Mais do que isso: a versão produzida por Andrew Lloyd Webber é a peça de entretenimento de maior sucesso já feita, em qualquer mídia que se considere. Segundo o site oficial, já foi visto por mas de 100 milhões de pessoas em 14 línguas, desde que estreiou no Majesty, Londres, em 27 de setembro de 1986, chegando depois a New York em janeiro de 1988. Na Broadway, já foi encenado mais de 9000 vezes e em Londres, outras tantas. Foi o Fantasma da Ópera que projetou, por exemplo, a cantora Sarah Brightman, então esposa de Webber - (que estourou com o sucesso Time to Say Goodbye, com Andrea Bocelli). E não ficou apenas no teatro: já teve nada menos do que 18 versões para o cinema.
Mas porque o romance escrito por Gaston Leroux em 1910 e depois adaptado ao teatro fez tanto tanto sucesso? Temas que lidam com o mistério sempre têm apelo e, talvez, aí resida parte do sucesso. A história do fantasma/homem deformado/gênio da música que vive nos porões da ópera de Paris e que mantém uma estranha relação com uma jovem cantora lírica tem os ingredientes para tal. A música também é especial. Uma após outra, Andrew Lloyd Weber compôs uma obra-prima. Aliás, o que dizer de alguém que compôs Cats (de Memory), Evita (de Don’t’ Cry for me Argentina, veja versão com a Sinead O’Connor, minha preferida, não se compara com a Madonna) e Jesus Cristo Superstar? Ele é um gênio, tal como o Fantasma…assim como Charles Hart, o letrista, que captou a essência da peça de maneira perfeita. A humanidade sabe reconhecer uma verdadeira obra de arte (há esperança!).
O enredo e a música são essenciais para o sucesso, mas acho que o que faz a diferença é que o filme tem um fundo psicológico complexo, lida com diversas questões que caracterizam a essência humana.
Diante da riqueza de possibilidades e de intepretações, a que mais me chama a atenção é a ambivalência presente do começo ao fim: a luz e a escuridão; o pecado e a virtude; a genialidade e a loucura; a beleza e a feiúra; o padrão aceito por todos e o preconceito; o yin e o yang, enfim, presente na própria essência humana.
De um lado, Christine, a soprano protagonista, vive um romance com o jovem Raoul, patrocinador da Ópera e com quem teria uma vida normal, sendo sua companheira; de outro, a atração meio doentia em relação ao Fantasma, que a seduz e a aprisiona com sua música e a quem Christine confunde com seu pai, cuja perda nunca superou. Christine precisa superar a morte do pai, eliminar os vínculos do passado e ser ela mesma.
Mas quem é “ela mesma”? Alguém que deveria viver uma vida convencional, na luz, ou entregar-se à escuridão, de onde realmente brotava seu talento? Qual seria, afinal, sua razão de ser, qual seria o papel que lhe caberia nesse mundo, se é que se pode colocar dessa forma? Ao viver com Raoul, seu talento minguaria e ela abandonaria sua carreira promissora, para viver como esposa dedicada e mãe (como está colocado na epígrafe de seu túmulo), mas seria “livre”; ao ficar com o Fantasma, estaria “presa” em seu conflito psicológico para sempre, mas cantaria. Há solução para esse conflito aparentemente insolúvel, que simplesmente nos lembra que não há soluções perfeitas e que escolhas sempre envolvem renúncias?
Não é fácil para ela. A sua resposta a essas questões varia de acordo com as cirscunstâncias e com o poder de sedução de ambos os pretendentes, cada um com seus argumentos. Aliás, os momentos em que o Fantasma canta Music of the Night e Point of no Return são dois grandes momentos de sedução via música…
Music of the Night – original do filme:
Ao final, Christine escolhe Raoul; para felicidade de todos, o mal foi vencido, a solução convencional se sobrepôs ao bizarro, nos consolando também. Afinal, com a escolha dela, nossas possibilidades sombrias e inquietações são de certa forma enterradas. Mas não foi uma escolha fácil: dá a impressão que sua mente vai para um lado, mas o coração vai para o outro (“você resiste, mas sua alma obedece”, canta o Fantasma). Na música tema dela com Raoul, ela suplica: “Diga que me ama em todos os momentos em que estiver desperto, encha meus pensamentos com histórias de verão. Diga que precisa de mim ao seu lado agora e sempre…”. Ela precisa disso para afastar os “maus pensamentos” que inundam sua alma.
O lado sombrio, se está presente até na mente da bela e ingênua Christine, estará então presente em qualquer mente, ainda que com contornos diferentes (afinal, “The Phantom of the Opera is here, inside my mind…”). O sucesso do musical, de certa forma, reside na possibilidade de flertar com o sombrio sem riscos para quem assiste. Ou, mais ainda, o reconhecimento de que não estamos sozinhos e que até a bela soprano tem recônditos proibidos em sua mente, que precisam de muita razão e reforço diário para são serem visitados.
Mesmo com a vitória da luz sobre as trevas, ao final não se sabe se a escolha foi a melhor. Christine morreu bem antes de Raoul que, ao final do filme, coloca sobre seu túmulo o macaquinho persa que toca música, que foi encontrado nas dependências do Fantasma e que acaba sendo a metáfora do Fantasma. É uma cena de grande simbolismo: Raoul estaria devolvendo Christine ao Fantasma? Terá sido um reconhecimento tardio por parte de Raoul de que, ao tirá-la do teatro e transformá-la apenas em mãe e esposa dedicada (não que seja pouco!) havia eliminado sua essência, aprisionando-a de uma outra maneira, não menos ruim do que se tivesse ficado sob a tutela do Fantasma? Será um recado de que não adianta ir contra sua natureza, que razão nenhuma supera a emoção, e que sempre há um preço a pagar ao se escolher a via racional (não sei do que Christine morreu…mas não parece que teve uma vida plena)? Não que Christine não amasse de alguma forma Raoul – mais uma ambivalência presente.
São diversas as possibilidades de interpretação. Aqui, enfoco mais o dilema de Christine, mas certamente o Fantasma também dá boas análises. A história ecoa em cada um, de forma particular. Se você viu a peça ou o filme, comente abaixo o que achou e qual foi a sua visão.
(É interessante que, na primeira versão feita para o cinema, o Fantasma era um louco, totalmente disforme, fácil de ser odiado. Já na versão de Schumacher, foi interpretado por Gerard Butler, o protagonista de PS, I love you…).
Achei diversos vídeos legais no YouTube:
Além de Music of the Night, outras músicas de trilha sonora:
Think of me – original do filme
Música tema – The Phantom of the opera e Wish you were somehow here again, cantadas pela Sarah Brightman
Versão da música tema com o Nightwish– mostrando que, apesar dos vocais meio over, os grupos de heavy metal tem mesmo grandes músicos
Angel of music – cantada por Emmy Rossum, a Christine do filme
All I ask of you – música tema de Raoul e Christine:
Por Carreras, Pavarotti e Plácido Domingo. Com todo respeito ao Pavarotti, que faz a voz da Christine, ficou faltando a voz feminina
Versão com a Emmy Rossum (Christine e Patrick Wilson – Raoul)
Masquarade- original no filme
The Point of no return – original do filme


Parabéns pela matéria Marcelo, gostei muito do seu post. Pelo jeito o fantasma te pegou de jeito mesmo, não é?
Não sei se você sabe mas toquei violino na orquestra da Escola de Música de Piracicaba por 5 anos. E com certeza o Fastasma da Ópera foi uma das obras que mais ouvi (e até mesmo toquei) por muito, mas muito tempo.
Inclusive eu tinha (devo ter ainda) as partituras de todas as partes da orquestra. Era fenomenal ouvir a obra acompanhando as partes de cada instrumento.
Infelizmente em minha viagem a NYC não tive a oportunidade de ver nada na Broadway, mas o Fantasma vai ficar lá ainda por muito tempo. Espero que o suficiente para me aguardar em minha próxima visita à metrópole…
Por: Danilo Salvego em novembro 28, 2009
às 10:37 pm
Legal Danilo, não sabia desse seu passado musical! É mesmo uma grande obra e com certeza você deve agendar uma noite para ver o Fantasma. Acho que ainda dura muito, mas nunca se sabe…Cats, por exemplo, saiu de cena em muitos lugares. Valeu!
Por: marcelopcarvalho em novembro 29, 2009
às 12:35 pm
Oi, Marcelo! Você leu o livro do Fantasma, também, além de ver o musical e o filme? Pergunto, porque eu SÓ li o livro. Minha irmã me emprestou o livro depois que meus sobrinhos viram acho que umas 10 vezes a apresentação do musical em sua adaptação para o Brasil, mas eu não vi o filme depois de ler o livro, porque tenho uma tendência bem forte a não gostar de adaptações de livros para o cinema.
O mais curioso é que minha irmã (que também viu a peça várias vezes e viu o filme) me disse que tinha achado bem curioso como a pessoa teve a ideia de transformar esse livro em musical. Eu gostei bastante do livro, embora tenha achado menos sombrio do que pensei que seria. Gostei porque o autor relata a história como se fosse real e como se tivesse fazendo quase um relato jornalístico de tudo tentando provar que o Fantasma realmente existiu e que sua história é real.
Lendo seu post, deu até vontade de ver o filme!
Por: Juliana em novembro 30, 2009
às 4:40 pm
Oi Juliana,
Obrigado pelo comentário! Não li o livro, só vi a peça e o filme mesmo. Normalmente, as adaptações são mesmo piores do que os livros, que sempre são mais ricos. São raríssimas as exceções. E às vezes bons filmes não parecem tão bons quando comparados com a versão escrita. Ensaio sobre a Cegueira, por exemplo. O filme é bom, dificílimo de ser feito, super fiel, mas não dá pra comprar com a obra do Saramago, né?
Eu acho que vale sim a pena ver o filme (e ainda mais a peça), levando em conta essas restrições. Além disso, a trilha sonora é mesmo especial, coisa que o livro não tem..rs.
Abraço
Marcelo
Por: marcelopcarvalho em novembro 30, 2009
às 6:46 pm
Oi Marcelo!Gostei muito de sua interpretação mim ajudou bastante a entender o final do filme,pois eu estava querendo saber quem era aquele senhor que visitou o túmulo christine,estava em dúvida se era o Fantasmo ou Raoul,mas agora já sei.OBRIGADA,agora estou louca para ler o livro tambem!!!!!!! Abraços
Por: andreia em março 23, 2011
às 6:10 pm
muito marcelo achei d+ a sua interpretação,eu não havia entendido muito o final do filme.eu queria saber quem poderia ser o senhor que aparecia no final do filme,obrigada!!!!!!!!
Por: andreia em março 23, 2011
às 5:54 pm