Publicado por: marcelopcarvalho | dezembro 1, 2009

O Brasileirão e a ética do brasileiro

O Campeonato Brasileiro, apesar do baixo nível técnico e da ausência de times e mesmo jogadores que empolguem, chega ao final com grandes expectativas. Em parte, essas expectativas derivam da possibilidade de diversas equipes ganharem o torneio,  alternando-se na liderança a cada rodada, tornando risíveis as probabilidades matemáticas, sempre publicadas pelos jornais após os jogos.

Afora essa saudável disputa, a outra razão pela qual o campeonato termina carregado de expectativas é o inusitado fato de que, se o Grêmio vencer o Flamengo no Rio de Janeiro, muito provavelmente dará o título a seu arqui-rival, o Internacional. Que situação! Deverá o Grêmio entregar o jogo ao Flamengo, evitando o triunfo de seu maior inimigo?

Vários comentaristas e as pessoas em geral consideram normal o torcedor gremista pedir que seu time entregue o jogo; afinal, para o Grêmio é só mais um jogo, facilmente cambiável pela alegria de ver a perda do título colorado. Mais do que isso: por ser o protagonista dessa perda, não interessa por que meios. O que não pode, concordam cheios de pudor e aparente decência, é a diretoria pedir para o time entregar o jogo. Isso sim seria anti-ético.

Engraçado. Não me parece “normal” que o torcedor peça para o time entregar o jogo para evitar mal maior. Uma coisa é torcer contra o inimigo; outra, bem diferente, é prejudicar a si próprio, se vender (sim, é uma venda, não monetária, mas uma venda) em troca de ver o tropeço alheio.

Onde anda o tal “fair-play”, o reconhecimento de que existem limites e aspectos éticos mais importantes do que o título em si, ou, no caso, o triunfo do concorrente? É claro que o gremista não ficaria de qualquer forma satisfeito com a (improvável) vitória do Inter, mas mil vezes agüentar as gozações e aceitar a derrota, aceitar que o rival foi mais competente e, caso ganhasse, ganharia licitamente, do que trocar a consciência tranqüila pela alegria de poder prejudicar o rival, sem qualquer vantagem adicional que não saborear a tristeza alheia. Mesmo porquê, nesse raciocínio, amanhã pode ser a sua vez de estar na posição colorada (ou na posição säopaulina, corinthianos!).

Vivo em Marte, dirão. Sim, devo viver, afinal esse comportamento de levar vantagem em tudo está entranhado em nossa consciência. Paro de escrever por um momento: acabo de ver matéria sobre esse mesmo tema no Jornal Nacional: o tratamento não é que se trata de absurdo, de um deslize moral, mas sim de algo “pitoresco”, fruto da rivalidade, até “saudável”. Nem uma entrevista sequer de alguém chamando para a questão básica: qual é o papel do esporte, onde está o ideal Olímpico? Claro, o futebol deixou de ser um esporte há muito, e nunca flertou muito bem com as Olimpíadas. Talvez por isso.

Mas o problema não é só do futebol. Esse esporte é um símbolo do Brasil e do brasileiro. Sua ética, em maior ou menor grau, representa a nossa ética. Fico pensando com que autoridade nos assombramos com os Arrudas da vida, quando achamos normal que o torcedor gremista queira que sua equipe entregue o jogo. Achamos até legal, correto esse comportamento, quando essa simples possibilidade já soaria absurda caso houvesse valores decentes e alguma ética.

Na semana passada, o mundo viu Thierry Henry colocar escandalosamente a mão na bola, resultando no gol salvador bem no final do jogo contra Irlanda,  colocando a França na Copa e eliminando injustamente os irlandeses. O que fez Henry após a partida? Pediu desculpas aos irlandeses e disse que a solução mais justa seria a realização de uma nova partida. Pode-se dizer que ele poderia não ter colocado a mão na bola, que agora é fácil justificar e sair de bom moço. Qualquer um que já jogou algum esporte minimamente a sério sabe que há reações instintivas ligadas a sobrevivência – simplesmente não há tempo de se raciocinar – quanto mais quando o que está em jogo é a garantia da participação em uma Copa do Mundo que ia inacreditavelmente escapando a forte e tradicional França. Qual seria a reação do jogador brasileiro médio, em uma situação dessas, após colocar a mão na bola? Será que pediria uma nova partida e pediria desculpas ao adversário ainda no campo? Será que a imprensa e as pessoas em geral o considerariam majoritariamente desonesto, ou “esperto”? Tenho dúvidas, mas temo que a maioria consideraria um ato de esperteza, como la Mano de Dios de Maradona, na Copa de 86. E, claro, quando falo do jogador brasileiro “médio”, estou falando do brasileiro “médio.

É irônico que o Brasileirão termine dessa forma, caprichosamente expondo nossas fraturas éticas futebolísticas, que tão bem podem ser extrapoladas para nossa própria sociedade. A rigor, nessas alturas, se o Grêmio vai entregar o jogo para o Flamengo, nem interessa muito (curiosamente, parece que o Grêmio escalará uma “equipe mista”: os diretores, assim, lavam as mãos). Com esse episódio, já perdemos, e de goleada, o jogo da ética e dos valores que moldam uma sociedade decente.

PS: nada contra o Grêmio ou os gremistas; qualquer grande time e torcida provavelmente protanizaria o mesmo papelão, caso estive em posição semelhante.


Respostas

  1. a direção do Grêmio já disse que “não pode deixar de atender o pedido da torcida”, então vai antecipar férias de jogadores titulares. uau. férias antes de terminar o campeonato. é como dar férias a professores antes de terminar o semestre (também quero!!!).

    também acho escandaloso. não porque envolve Grêmio e Inter, mas escandaloso por definição, por princípio.

    mas eu tenho uma tese (de mesa de bar). todos sabemos que o Grêmio não tem a menor chance de ganhar do Flamengo. porque o time é ruim mesmo. aliás, é péssimo. então se livram da ruindade ao fazer este joguinho de cena da rivalidade. deixam o torcedor “feliz” sem ter que demonstrar competência. ainda vão se vangloriar de perder, hahaha…

    • Falou a Colorada!….haha

      Olha que o futebol é o único esporte em que o pior ganha do melhor, por isso atrai tanta atenção. Vai que o Grêmio ganhe…rs

  2. Marcelo, não me sinto totalmente isento para falar desse assunto porque sou Flamenguista. Mas vou tentar.

    Claro que o que pode ficar para a história é a infâmia desse último jogo. Como torcedor do Flamengo, detestaria ver nosso título manchado por esse episódio. Mesmo que seja um jogo duríssimo e que fique marcado por esse fato, é bom lembrar sempre que o Flamengo fez muito mais do que os últimos dois ou três jogos.

    Outras equipes estiveram muito mais próximos do título do que o rubro-negro e fizeram muito menos por merecê-lo.

    O Flamengo começou o campeonato desacreditado e só tomou corpo depois que Andrade assumiu o seu comando. Aos poucos, jogadores tidos como acabados recuperaram sua melhor forma e decidiram jogos, como Petkovic e Adriano. Outros, menos cotados, subiram incrívelmente de produção e foram fundamentais para a campanha, como Williams e Maldonado.

    Mas daí a culpar uma Teoria da Conspiração num campeonato de pontos corridos com 38 rodadas já me parece demais. Repito: são 38 jogos para apontar um campeão. 3420 minutos de futebol (fora acréscimos) para culpar a derradeira rodada.

    Faço côro contra o apreço do brasileiro pela tramóia, pelo atalho de passar a perna no outro. Nada disso é natural, especialmente no horário nobre. E, como você, torço por um desfecho honroso.

    Grande abraço, Rodolfo.

    • Grande Rodolfo,

      Eu também não acredito em teoria da conspiração. Acho que o Flamengo merece o título, até porque cresceu na reta final. Meu time, o São Paulo, teve a chance e tropeçou nos próprios erros. Dependeu dele próprio, como eu temia.

      Também, acho que o Flamengo não tem nada a ver com essa discussão envolvendo o Grêmio. De qualquer forma, o Flamengo é favorito e deve vencer. Em relação ao Corinthians, é claro que foi estranho o comportamento do goleiro – se ele quis entregar o jogo ou fazer um protesto contra o juiz, já não sei. O que sei é que os corinthianos passaram a semana dizendo que iriam entregar o jogo.

      Enfim, nesse campeonato de mais baixos do que altos, acho que o Flamengo merece o título. E, como você, espero que não seja manchado por esse episódio!

      Grande abraço,

      Marcelo

  3. Marcelo,

    Bem-vindo a Marte!
    Que bom que você chegou, ou melhor, que descobriu que estava aqui…

    Bjs,

    Flávia


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