Nessa quarta, dia 2/12, o Estadão trouxe as conclusões do 62° congresso da Associação Mundial de Jornais (WAN). A julgar pela matéria, os jornais continuarão tendo tempos turbulentos: receitas de assinaturas decrescentes e publicidade online que não cresce na mesma velocidade, e poucas alternativas de gerar renda adicional. As possibilidades de crescimento de um negócio com esse são, por consequência, muito baixas.
A internet como negócio já fez pelo menos 10 anos, mas os jornais não conseguem sair da discussão sobre cobrar ou não pelo conteúdo. Se cobrarem, correm o risco (eu diria que mais do que o risco, estarão selando seu destino) de perder uma enxurrada de visitantes online; se não cobrarem, não terão como compensar a natural perda de assinantes da versão impressa. E a publicidade online não cresce na mesma velocidade. É um dilema, sem dúvida, e nada simples de se resolver.
Como os jornais (e as demais mídias impressas também) só conseguem analisar uma única opção de viabilização de seus negócios em uma época de grandes e definitivas mudanças, surgem as mais variadas fórmulas para que a cobrança de conteúdo online seja bem sucedida. No início do ano, um expert disse que o futuro estaria nos micropagamentos: cada matéria custaria um pouquinho e caberia ao leitor pagar para lê-la, criando um veículo praticamente personalizado. A crescente facilidade e a ampliação dos sistemas de compensação online certamente viabilizariam essa estratégia, mas será mesmo que as pessoas gostariam de ter que decidir se pagariam ou não para ler cada matéria?
Acho válido testar, sem dúvida, afinal estamos em águas inexploradas (parafraseando Alan Greenspan), onde tudo é possível encontrar, até monstros marinhos até então presentes apenas em nossa imaginação. Mas me parece perigoso basear um plano de negócios a partir dessa premissa. As pessoas já precisam tomar inúmeras decisões diariamente em suas vidas. A era da escolha, a despeito do evidente benefício, traz também o ônus da decisão onipresente. É um peso, e talvez as pessoas simplesmente não queiram ter de decidir se devem ou não ler cada notícia ou matéria. E falta tempo para isso.
Além disso, com a facilidade de cópia e distribuição da informação e do enorme número de sites, fatalmente a informação paga aparecerá gratuitamente em algum outro lugar. Claro, talvez seja possível criar um policiamento global e um arcabouço jurídico para evitar pirataria; mesmo que isso seja possível, seria irresponsável do ponto de vista empresarial depositar nessa possibilidade a viabilização de seu negócio.
E, mais ainda, talvez isso vá contra a própria natureza da internet. Não que não exista espaço para conteúdo pago – certamente existirá – mas acho difícil que qualquer negócio em web (deve haver exceções, mas exceções são sempre exceções) seja baseado nesse conteúdo como fonte principal de renda.
Seth Godin, o guru de marketing, escreveu outro dia um artigo dizendo que “para quem é martelo, tudo que vê pela frente é prego”. Esse ditado serve muito bem aos jornais e às demais formas de mídia tradicional. Foram martelo a vida inteira, estruturaram seus negócios a partir do martelo, e tudo que conseguem ver pela frente são pregos. Só que, para sua infelicidade, há bem mais que pregos e, pior, os pregos estão cada vez mais raros.
O que os jornais não percebem é que não estão mais no negócio de informação, mas sim no negócio de atração de leitores. A diferença é considerável: enquanto no primeiro caso – na visão tradicional – seu produto-fim é a informação, no segundo – que deveria ser a visão atual – a informação é apenas um meio para atrair usuários e formar comunidades. E, pelo seu expertise, podem ser obviamente bons nessa missão de atrair leitores via informação de qualidade.
Se eu fosse um jornal online, consideraria estratégico atrair leitores e criaria uma divisão autônoma para estudar possíveis formas de monetizar estes usuários, indo bem além da venda de informação pura e simples. A gama de potenciais serviços ofertados é enorme (inclusive relacionados a informação), mas só poderá ser efetivamente explorada sem os vícios do passado, utilizando pessoas que possam usar mais ferramentas e não somente o martelo.
É claro que não é algo fácil, como qualquer mudança radical de modelo de negócios. É evidente que o pirateamento da informação continuará, o que demandará a criação rápida de outros serviços para prender (ou fidelizar, para usar um termo mais politicamente correto) os leitores.
Dificil ou não, é a realidade, contra a qual me parece inócuo lutar. O fato é que os jornais vivem um momento de ruptura em seus modelos de negócio. É isso, ou talvez fechar as portas. O uso de internet só crescerá, assim como a fragmentação das mídias, tornando o problema atual ainda mais grave.
É irônico e emblemático que, após 62 congressos, a associação mundial de jornais não encare esta realidade que afeta e coloca em risco seu modelo tradicional de negócios. Isto é compreensível; afinal, 62 anos sugerem um setor maduro, que soube desenvolver martelos altamente eficazes e identificar pregos de todos os formatos e tamanhos. Resta saber se, apesar disso, terá condições de se reinventar em um cenário em que os pregos escassearão e os martelos serão cada vez menos necessários.
