Li agora O Caderno Vermelho (por influência da Márcia Benetti), livrinho que Paul Auster escreveu em 2000, relatando episódios em que o acaso e a coincidência influenciaram e, em alguns casos, até alteraram radicalmente a vida de seus protagonistas. São histórias reais, vividas por Auster, sua família e conhecidos. Algumas são fatos banais do cotidiano, mas que, por alguma razão pessoal, deixaram impressões duradouras e marcantes em suas trajetórias a partir dali. Com base nele, resolvi relatar aqui um fato ocorrido com minha irmã, meio no estilo Auster. Todas as informações são reais, tais como ocorreram.
Minha irmã havia se mudado com a família para uma nova casa. Após morar em apartamento durante vários anos, surgiu uma ótima oportunidade justamente no momento em que o proprietário do apartamento em que morava solicitava o imóvel.
A oportunidade era uma casa antiga mas confortável, em um local aprazível do Jardim Paulistano, perto da Rebouças. A casa era da família do seu marido e estava locada há vários anos. Talvez tenha passado por uma ou duas reformas (não sei ao certo precisar) e, com uma última interferência feita pelo meu pai, ganhou um ar de modernidade e de conforto que normalmente as casas antigas carecem.
Uns dois meses depois, minha mãe, junto com a neta – filha da minha irmã – resolveu fazer uma ordem em sua casa, esvaziando armários que há muito não eram mexidos. Era um daqueles momentos em que se decide rever o passado e se livrar daquilo que, deixara de fazer sentido, mas que permanecera armazenado simplesmente por mero esquecimento, esperando o dia do descarte.
Entre os itens achados, alguns eram jogados no lixo, outros guardados novamente (por alguma razão, ainda faziam sentido de ser, pelo menos até a próxima faxina) e outros eram dados a seus proprietários – no caso eu, minha irmã e meu irmão – que tinham a incumbência de decidir pelo seu destino.
Nessa arrumação, minha sobrinha achou um diário de sua mãe, de quando ela tinha provavelmente uns dez anos (ela deve saber a idade exata) e levou para casa para mostrar à mãe. Dentro dele, além das anotações referentes a impressões do dia-a-dia feitas por uma garotinha de dez anos, havia adesivos, papéis de carta colados e recados de amigas, que tomavam emprestado o diário para devolver no dia seguinte, com uma mensagem prometendo amizade eterna ou algo assim.
Uma dessas mensagens era de uma amiga a qual não via havia quase vinte anos, ou seja, seu último contato havia se dado pouco após a redação desta nota. Era a mensagem mais pessoal de todas e, ao final, uma frase pouco comum para uma pequena menina, seguida de um endereço: “Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar: Rua tal, número tal”. Era o único endereço escrito em todo o diário – minha irmã teve o cuidado de checar depois.
Por mais incrível que pareça, a “Rua tal, número tal”, era a casa para a qual minha irmã havia se mudado recentemente. Em função das reformas e do tempo passado desde então, ela não se lembrara, mas diante dessa revelação, aos poucos a memória foi sendo resgatada. Ela lembrou que, na velha garagem transformada em quarto de brinquedos onde hoje seus filhos brincam, ela havia brincado com sua amiga quando tinha quase a mesma idade de seus filhos. Mais ainda: ela lia essa mensagem muito provavelmente no mesmo local onde havia sido escrita, já que a amiga tomou emprestado o diário e levado para casa, como era de praxe.
Em sua infância, ela freqüentara a casa para a qual, sem saber, tinha se mudado recentemente (e que vinha a ser propriedade da família de seu futuro marido). Ainda que a origem social comum a ambas restrinja a ocorrência dessa possibilidade a alguns bairros específicos da metrópole de 10 milhões de pessoas, o episódio não deixa de ser absolutamente improvável.
Mas a história não termina aí. Na verdade, o mais absurdo veio a acontecer após essa descoberta. Um tio nosso, ao saber do estranho episódio e sendo afeito a temas espirituais, disse que nada disso era simples coincidência: que ela procurasse a amiga, que com certeza estava precisando muito de sua ajuda.
Minha irmã não deu muita importância ao fato até que, cerca de duas semanas após a descoberta e a conversa com o tio, encontrou sua cunhada, que disse ter conhecido recentemente uma menina que havia morado naquela casa. Como foi feito o contato entre ambas e como o assunto entrou na conversa das duas é algo que não me lembro ou não me foi dito. Só sei que a amiga sabia que meu cunhado morava na mesma casa que ela havia morado, mas não que minha irmã morava lá e que era casada com ele.
Surpresa ainda com mais essa coincidência, minha irmã perguntou como a amiga de infância estava, já que não a vira durante todo esse tempo, nem tivera notícias da outra. Nada bem, foi a resposta de sua cunhada. Há cerca de duas semanas, ela tentou se matar.
Sem compreender direito o significado de tudo aquilo, minha irmã se recordou que, há exatas duas semanas estava lendo em sua nova casa seu antigo diário e, nele, a mensagem escrita por sua velha colega de escola, mais de vinte anos atrás.

Marcelo,
Nossa, adorei seu texto! Incrível o relato, e se tornou ainda mais saboroso pelo seu estilo literário. Você é um excelente escritor. Quem sabe um novo Dana Gioia (leu a trajetória dele no meu blog?). Parabéns!
Também comprei e li o mesmo livro, também devido ao mesmo post. E as histórias me lembraram do conceito de ‘sincronicidade” (que é uma das minhas três palavras favoritas). Coincidências significativas. Gostei muito do livrinho!
Por: NIna em dezembro 9, 2009
às 11:18 pm
Oi Ana,
Obrigado! A história é realmente incrível, não? E eu que achei que o tal Dana era mulher – legal a história dele, me soa familiar, considerando as devidas proporções… =)
Por: marcelopcarvalho em dezembro 9, 2009
às 11:27 pm
Marcelo,
Estou toda arrepiada! Acho que a sua irmã tem uma missão com essa amiga. Elas já se encontraram?
Flávia
Por: Flávia em dezembro 9, 2009
às 11:40 pm
Oi Flávia, acho que ainda não…
Por: marcelopcarvalho em dezembro 10, 2009
às 12:07 am
Nina tem razão, a idéia de sincronicidade é incrível.
e estas coisas inexplicáveis não são mesmo a melhor parte da vida?
eu acho.
Por: marcia em dezembro 10, 2009
às 1:11 am