Publicado por: marcelopcarvalho | janeiro 17, 2010

Esqui sem badalação mas com muito bom gosto entre Itália e Áustria

Sesto, ou Sexten, em alemão, fica na Alta Pusteria, no norte da Itália, na fronteira com a Áustria, logo ao sul do Tirol. Está no meio nos Alpes Italianos, em uma cadeia de montanhas chamada de Dolomitas, que apresentam uma coloração rósea quando banhadas com a luz correta e que caracterizam os Alpes Italianos. Dezenas de estações de esqui ligadas a pequenos vilarejos existem nas Dolomitas. A mais famosa, certamente, é Cortina D’Ampezzo, a 40 minutos de carro de Sexten. Madonna di Campiglio, onde a Ferrari leva sua equipe para esquiar no final da temporada de F1, também fica por lá.

Essa era a vista do meu quarto, com a pista chegando quase nele

Na verdade, apesar de ser Itália, a impressão que se tem é que estamos na Áustria. De fato, até a Primeira Guerra Mundial, toda essa região era da Áustria. Tudo está escrito em alemão e italiano e a culinária é mais alemã/austríaca do que italiana.

O que há de especial nessa pequena vila? Diz a história (verídica) que um grupo de brasileiros descobriu um hotel recém-inaugurado na vilazinha, que havia fechado temporariamente após a temporada de final de ano. Isso foi há quarenta anos. Esses brasileiros bateram na porta do hotel e o dono topou reabrir, diante de 8 novos e improváveis hóspedes. No ano seguinte, esses brasileiros voltaram, com família e amigos, e assim por diante, ano após ano, a ponto de chegarmos no hotel e nos deparararmos com uma bandeira do Brasil bem na frente.

O pequeno hotel se tornou um belo spa no meio dos Alpes, com conforto excelente, atendimento impecável, culinária primorosa, diversos tipos de massagens, piscina coberta e ao ar livre, saúnas, etc, mas mantendo o clima familiar e personalizado que o marcou desde o início.  Apesar da ampliação, continua pequeno. Nessa semana em que fiquei lá, estimo que metade dos hóspedes era do Brasil, todos de certa forma interligados (nossa “turma”, bem legal por sinal, chegava talvez às 30 pessoas, e outros mais estavam por vir quando saí). Afinal, o local é tão isolado que ninguém chega lá por acaso, à exceção dos pioneiros de 40 anos atrás.

Paisagem atrás do hotel

A estação de esqui conta com duas montanhas: Sesto em si e a Croda Rossa, que fica na vila vizinha de Moos, a uns 2 km, se tanto. Não são estações grandes, para quem está acostumado com esqui nos EUA e Canadá.  A variedade de pistas não é das melhores, embora as pistas sejam em geral longas e boas de se fazer. Talvez não sejam estações para iniciantes, como as da América do Sul, uma vez que a grande maioria das pistas são vermelhas ou pretas. Mas são ótimas para famílias, crianças e para quem quer esquiar na boa, sem filas nos lifts e sem se perder.

E come-se muito bem na pista, em especial no refúgio Gallo Cedrone (o spaghetti a carbonara é maravilhoso), bem no alto da estação em Sesto, a 2150m de altitude, e no Rudi, onde se chega com o funicular na Croda Rossa, onde as pistas são também mais radicais. Às quintas-feiras, na Croda Rossa, há uma corrida noturna de 5 km em trenós individuais, descendo a montanha com uma lanterna no capacete, que só pode ser feita à base de muita grappa (aguardente de uva que parece uma cachaça).

Parte da nossa turma: Xicco, meu tio, de vermelho, e os Sigrists, que já foram várias vezes e me convidaram

Parte da nossa turma: o Xicco, meu tio, de vermelho, e os Sigrists, que já foram várias vezes e nos convidaram

Sesto tem algumas características interessantes para se esquiar, fora tudo isso já falado. Não é tão alta (a vila está a 1300m e o topo da estação a 2200m). Isso faz com que não seja tão fria e que tenha boa quantidade de árvores, tornando-a especialmente bonita e apresentando boas opções de caminhos por entre as árvores, para quem gosta. No mais, há uma série de vilazinhas históricas  que parecem saídas de contos de Natal, como Brunico e San Candido (Innichen, em alemão), esta última a apenas 6 km de Sesto.

O custo? A diária no Hotel Monika fica na casa dos 80-110 Euros na baixa temporada, com meia pensão (exceto bebidas, mas os vinhos são honestos em preço, ainda que Barolos, Barberas, Brunellos, Chiantis, Tignanellos, Nero D’Avolas, etc, entre 20 e 60 euros a garrafa) – e que meia pensão! O aluguel do equipamento e o ski-pass para seis dias ficaram em cerca de 240 euros por pessoa. Mesmo com passagem e aluguel de carro se bobear fica mais barato do que ir para a América do Sul, com estações lotadas, cheias de snowboarders, gente nada a ver, etc. etc.  Só não é tão prático ir e não serve para quem quer badalação (ainda bem).

Do alto do Gallo Cedrone: as Dolomitas, o Vale lá embaixo e a vilazinha

Do alto do Gallo Cedrone, no Monte Elmo: as Dolomitas, o vale lá embaixo, e a vilazinha

Enfim, Sesto e o Hotel Monika são opções low profile, sem badalação ou ostentação, mas com ótimo bom gosto e esqui tranquilo. E a viagem em si é um atrativo a mais. No nosso caso, na ida chegamos direto via Munique, Alemanha, cruzamos a Aústria passando pela bela Innsbruck, para então chegarmos em Sesto (umas 5 horas de viagem, com muita neve). Na volta, optamos por estender um pouco mais a viagem, passando pela Salzburgo de Mozart, para então chegarmos em Munique.  O ponto alto desse trajeto é a “balsa de trem” que cruza um túnel de 10 km pelos Alpes e, ao se passar para o outro lado, depara-se co uma paisagem de cartão postal, com vilazinhas do Tirol em meio a montanhas nevadas.

Para finalizar: existem ótimos restaurantes na vila, como o Lanterna Verde, quase do lado do hotel, que tem um cervo para se comer ajoelhado, e o Zum Hans, na vizinha Moos, onde jantei na última noite, regado a um belo Chianti, com alguém que tornaria o jantar especial mesmo que fosse um restaurantezinho qualquer…

Depois de passar uma semana por lá, entendi porque várias daquelas famílias já foram 2, 3, 5, 10, 20 ou mais vezes para Sesto, sempre na mesma época, a ponto de deixar as roupas de esqui no próprio hotel, tanta é a certeza que voltarão no ano seguinte. A princípio sem grandes expectativas, talvez tenha sido a viagem mais gostosa que fiz. E ainda tivemos muita sorte com o tempo: nevou de véspera e depois abriu esse sol, com temperaturas entre 0 e -10 graus o tempo todo. Até 2011!!

Sesto

Detalhe de Sesto (ou quase tudo dela)

Sesto de noite: faz frio...


Respostas

  1. Ah, que viagem legal e que texto delícia de se ler.
    Adorei todos os detalhes, as fotos e também as entrelinhas…

    Que 2010 seja sempre assim!

    beijo

  2. Oi,Marcelo

    Estaremos indo para Sesto em janeiro 2012. Viremos de Veneza e depois vou seguir para munique. Vi que você comentou que foram 5h de viagem com muiiita neve. Ficamos na dúvida: muuiiiita neve mas dá para dirigir nas estaradas numa boa ou corre o risco de ter estradas fechadas etc e tal..não quero atrapalhar a viagem..
    Cláudia


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