O Equilibrista (Man on Wire) é o documentário vencedor do Oscar 2009, que mostra a vida de Philippe Petit, o francês que passou a vida andando sobre a corda bamba. Literalmente, não só metaforicamente, como todos nós.
Quando jovem, na sala de espera de um dentista, ele viu uma matéria em uma revista sobre o projeto de construção das torres gêmeas. Instintivamente, fez um traço entre as duas, arrancou a página da revista e…pronto, seu objetivo de vida estava traçado.
Aguardou a construção das torres, causou espanto ao (ilegalmente, sempre) cruzar a Notre Dame pelos ares, depois uma ponte em Sidney, e assim por diante, sempre aguardando aquele que se tornou seu projeto principal: andar sobre um cabo de aço a 450 metros de altura, em plena New York, entre as torres do World Trade Center.
Para realizar seu projeto, como todo gênio – para o bem ou para o mal – contou com ajudantes que encamparam o projeto de forma até mais intensa do que ele próprio, principalmente sua namorada e seu melhor amigo, que durante meses traçaram a melhor estratégia e organizaram a empreitada em seus mínimos detalhes.
O documentário mostra como esse bando de loucos, inseridos na contra-cultura da década de 70, conseguiu burlar a segurança e instalar um cabo de aço para cruzar os 70 metros entre as finadas torres e realizar o feito que assombrou a todos na época, no dia 7 de agosto de 1974. E até hoje impressiona, basta ver o filme.
A história é carregada de simbolismos profundos. Após a realização da travessia, foi-se a namorada, foi-se o melhor amigo. Era como se um ciclo – para todos – havia se completado. Não sem emoção, ainda que muitos anos depois, como é possível perceber pelos depoimentos. Aquilo que os unia era maior do que ele e do que eles. Após cruzar as torres, Philippe não era mais o mesmo – afinal, ele era um projeto, e o projeto fora concluído. O que viria depois, não se sabe, mas certamente não carregaria mais o vínculo que culminou com aquele objetivo.
A travessia, em si, é emblemática: ao deixar a primeira torre em direção à segunda, Philippe estava cruzando uma nova fronteira de vida, para si e para os seus. Talvez as pessoas se aproximem em função disto – de necessidades mútuas que, uma vez satisfeitas, se extinguem, e com elas o elo que vincula um ao outro.
Há também a questão pessoal que envolve o Equilibrista. Até que ponto vale a pena uma vida ser pautada por um único objetivo, por mais incrível que seja? Está certo, talvez toda vida tenha um propósito de ser heróica, e o heroísmo de Philippe era esse. Mas será que há limites a partir do qual o propósito passa a comandar a vida de uma pessoa, a ponto de torná-la mera passageira ou expectadora do seu destino?
Parece que sim. A certa altura, diante das dificuldades que quase o fizeram desistir, Philippe admite, ainda que não diretamente, o perigo dessa situação: “precisava naufragar na ilha deserta do meu sonho”, disse. Naufragar na ilha deserta. Sabia que, por maior que fosse a conquista, do outro lado haveria o naufrágio. Haveria o vazio de uma conquista definitiva, precoce, do objetivo de sua vida conquistado. A partir dali, tudo seria passado. Sua vida seria uma retrospectiva; afinal, nada do que faria a seguir equivaleria em grandeza com o que acabara de fazer. E mais: não bastasse ser uma ilha, isolada por definição, ainda por cima, deserta. O destino de um só. Os sonhos são sempre individuais. As conquistas e tragédias, idem.
“Há duas tragédias na vida de um homem. Uma é não conquistar aquilo que deseja. A outra, é conquistar”, escreveu Bernard Shaw. A conquista de Philippe, ao mesmo tempo, era sua perdição, quase seu epílogo. O naufrágio do qual ele temia, mas não poderia evitar. Ou nao seria ele. O fato é que não há escapatória contra aquilo que precisa acontecer.
Talvez o prazer esteja na busca, na possibilidade, na meta a ser alcançada, não na conquista em si, como disse Shaw. A tragédia é que, quanto maior a meta, maior o prazer de buscá-la, maior o (efêmero) prazer de conquistá-la, mas maior o naufrágio, pois maior o vazio posterior.
Como o Equilibrista, andamos na corda bamba, entre aquilo que queremos conquistar e aquilo que de fato conquistamos, sempre correndo o risco de escorregar no meio do caminho. Dessa tensão talvez irreconciliável, extraímos nossos propósitos e, quem sabe, nossa felicidade, ainda que por instantes fugazes.


Marcelo,
Como sempre, gostei muito do seu texto. Dessa vez, especialmente, porque veio ao encontro do meu momento presente. Desconfio, mesmo, que gosto mais da sua análise do que gostaria do filme.
Apenas, espero que você – e eu – encontre a felicidade em momentos muito mais duradouros que fugazes.
Quanto ao documentário, que não vi, ao ler sobre Philippe Petit veio-me a mente a máxima:
“Cuidado com o que pedes aos Deuses… Eles poderão te conceder”
Por: Nina em janeiro 25, 2010
às 9:21 pm
Rápida passagem por aqui, mas percebi que vc está cada vez melhor nos textos. Volto com mais depis, calma pois quero comentar este post seu.
Abraço!
Por: Elessandro em março 7, 2010
às 11:22 am