Publicado por: marcelopcarvalho | janeiro 29, 2010

Avatar merecia mais

Antes de escrever sobre Avatar, fiz uma consultazinha na internet e conversei com algumas pessoas que viram o filme.  Fiquei surpreso – quase só críticas favoráveis e pessoas que respeito intelectualmente gostaram muito do filme.

Será que vimos o mesmo filme? Será que minha avaliação está errada, sou insensível, exigente, obtuso? Será que minhas expectativas estavam exageradas e equivocadas? Vamos ser justos: Avatar é um show, uma super-produção primorosa. Em 3D, você de fato entra nas cenas. A realidade virtual criada por James Cameron é perfeita. É uma obra-prima na forma. Mas no conteúdo…

O roteiro é fraco, óbvio, chega a afrontar nossa inteligência. Os diálogos são pobres e os personagens totalmente clichês, ainda que em geral bem interpretados: o heroí, a heroína, os ajudantes dos dois, o vilão (excelente, por sinal, o ponto alto do enredo), e assim por diante. Tudo bem, é possível ter esses clichês e fazer um grande filme. Mas não é o caso. A história é previsível do começo ao fim, você fica esperando algo diferente e simplesmente não vem nada, até o ponto em que você se contenta em apreciar o visual e os efeitos.  Infelizmente, tive que ver o filme dublado, o que é de lascar, e isso talvez tenha contribuído negativamente.

O filme procura ainda passar uma mensagem educativa: que temos de proteger o meio-ambiente, caso contrário destruiremos nosso planeta. Ok, concordo.  Mas essa abordagem seria válida e potencialmente impactante caso esse tema não fizesse parte da nossa agenda. Nesse caso, mesmo com uma historinha boba, Avatar teria um impacto ao trazer à tona um tema novo e relevante. Mas, pombas, esse é o principal tema discutido no mundo atual! O grande desafio que temos é como conciliar o aumento da renda de grande parte da população mundial, que vai se refletir em maior consumo, com a necessidade de utilização racional dos recursos naturais.

Ainda não sabemos ao certo como fazer isso, como a COP15 demonstrou em dezembro. Mas a discussão está em todos os jornais, TVs, internet, governos, empresas. Talvez quando Cameron começou a trabalhar a ideia, há 10 ou 12 anos, fosse um tema de vanguarda. Hoje, é main stream. Não me parece necessário gastar US$ 300 milhões e empregar uma metáfora da destruição de um outro planeta para passar essa mensagem. Talvez eu esteja exagerando; talvez eu seja mais consciente a respeito dessas questões, do que a maior parte da população mundial – afinal me informo minimamente. Faço, então, uma ressalva: talvez o filme tenha êxito ao passar essa mensagem, ainda que de uma maneira água com açúcar. Para mim, porém, Avatar foi inócuo nesse sentido.

Mesmo com esses tropeços, o filme se salvaria, tamanha a qualidade da produção e a inovação visual. Mas Avatar ainda abusa dos lugares-comuns: a culpa pelo extermínio de populações tecnologicamente menos favorecidas, o amor impossível (me pareceu muito um Dança com Lobos: uma civilização mais avançada destrói a outra, até que surge um amor para complicar…), a culpa pelas conseqüências – psicológicas inclusive – da Guerra do Vietnã e afins, o velho embate entre o bem e o mal, Davi contra Golias, e assim por diante.

De fato, o diretor caracterizou as duas civilizações em conflito como totalmente antagônicas, colocando-as em pontos absolutamente opostos em relação aos aspectos éticos. De um lado, o “povo do céu”, isto é, nós, armados, poderosos e sem escrúpulos, querendo explorar um metal raro presente no subsolo de Pandora; de outro, uma tribo alienígena (metáfora clara dos povos indígenas que foram exterminados) que vive em total comunhão com a natureza,  de modo absolutamente idílico – Pandora, de fato, assemelha-se a uma espécie de paraíso. Nesse sentido, Cameron se mostra um grande pessimista com os rumos da raça humana: em 2154, teremos destruído todo o verde daqui e o próximo passo é fazer o mesmo por lá.

Há ainda um gran finale, e se você não viu o filme, aconselho a parar por aqui. Diante da possibilidade de voltar para a Terra ou mudar definitivamente para Pandora e se tornar um Na’vi, abandonando sua versão humana, o herói Jake não hesita: se “suicida” como humano para viver no paraíso de Pandora com sua amada nativa. É a utopia em seu grau extremo: abandonar a própria vida, o próprio mundo, e viver no Eden. Isso dá mais uma longa análise, mas deixa pra lá…

Você vai achar que não recomendo o filme. De forma alguma. Avatar é bom? Depende do que se busca e talvez aí esteja meu erro com essa análise bem crítica. Se a ideia é ver um belo roteiro e uma história inteligente, esqueça. Se o objetivo é se divertir com uma criação brilhante, vá fundo que a diversão é garantida. As duas horas e meia de filme passam rapidamente e você embarca mesmo em uma viagem. Mas mesmo por isso, por ter feito algo tão grandioso e com tanto potencial, James Cameron poderia ter marcado época e feito um filme melhor. Avatar merecia uma história mais consistente, menos óbvia e infantil, menos Romeu e Julieta com final feliz, que acabou apenas servindo como invólucro para embalar as peripécias tecnológicas e a incrível criatividade visual. Uma pena.

PS: recebi esse link aqui comparando Avatar com Pocahontas :-)

(Vai, pode meter o pau agora).


Respostas

  1. ainda não vi, estou decidindo…
    se for assistir, é apenas para para ver coisinhas brilhantes voando sobre mim, ou seja: imagem, movimento, cor e tecnologia.

    e lendo teu texto fico lembrando de um filme que, pra mim, foi revolucionário em termos estéticos: Blade Runner.
    mas tinha mais que belos copos (adoro aqueles copos), boa música e técnica.
    virou cult porque tem uma bela história, trabalha com o que sobrevive a tempos diversos: viver e morrer como “um humano”.

    pelo que tenho lido, Avatar vai ser “o filme em 3D”. just it.

  2. Hauhauhauauhau…Maguê, esta tua frase no final entre parênteses, foi um dos picos do texto…Você passou boa parte dele se desculpando ou arrumando justificativas por ter uma visão mais crítica e por ter se decepcionado por não ter atingido as suas expectativas de conteúdo…o filme poderia, talvez, conter uma nova forma de ver a vida ou a decoberta de uma cura para os males da humanidade, etc…o certo é que a vida é assim, quando vamos com grande expectativa para as coisas, a chance da decepção aumenta…o legal seria ir para a vida sem muitas pretensões. Polêmico não? O que achas? Talvez mereça uma reflexão? Outro post? Realmente você escreve de forma muito legal, eu diria didática (ihihihi). Um grande abraço! PS.: viu o filme sozinho ou com as crianças?

    • Fala Rúmen, obrigado pelos elogios. Não fui com elas não, mas o duro é que elas querem ver nesse domingo, então há o risco de eu ver novamente….hahaha…quem sabe mudo a crítica.

      Completando a resposta, talvez o melhor fosse ter baixas expectativas. Como diz o Spielberg, “sempre me preparo para o pior e acabo surpreendido pelo melhor”. Não acho que seja tão simples assim. Na verdade, isso não quer dizer baixa expectativa, talvez até o contrário: só quem tem altas expectativas se prepara para o pior, isto é, tenta evitar que o pior ocorra e acaba assim sendo “supreendido” pelo melhor. Agora, altas expectativas têm seu preço; a decepção é maior. Mas não sei viver sem elas…se você souber, good for you…or not!!


Deixe uma resposta

Sua resposta:

Categorias