Antes de escrever sobre Avatar, fiz uma consultazinha na internet e conversei com algumas pessoas que viram o filme. Fiquei surpreso – quase só críticas favoráveis e pessoas que respeito intelectualmente gostaram muito do filme.
Será que vimos o mesmo filme? Será que minha avaliação está errada, sou insensível, exigente, obtuso? Será que minhas expectativas estavam exageradas e equivocadas? Vamos ser justos: Avatar é um show, uma super-produção primorosa. Em 3D, você de fato entra nas cenas. A realidade virtual criada por James Cameron é perfeita. É uma obra-prima na forma. Mas no conteúdo…
O roteiro é fraco, óbvio, chega a afrontar nossa inteligência. Os diálogos são pobres e os personagens totalmente clichês, ainda que em geral bem interpretados: o heroí, a heroína, os ajudantes dos dois, o vilão (excelente, por sinal, o ponto alto do enredo), e assim por diante. Tudo bem, é possível ter esses clichês e fazer um grande filme. Mas não é o caso. A história é previsível do começo ao fim, você fica esperando algo diferente e simplesmente não vem nada, até o ponto em que você se contenta em apreciar o visual e os efeitos. Infelizmente, tive que ver o filme dublado, o que é de lascar, e isso talvez tenha contribuído negativamente.
O filme procura ainda passar uma mensagem educativa: que temos de proteger o meio-ambiente, caso contrário destruiremos nosso planeta. Ok, concordo. Mas essa abordagem seria válida e potencialmente impactante caso esse tema não fizesse parte da nossa agenda. Nesse caso, mesmo com uma historinha boba, Avatar teria um impacto ao trazer à tona um tema novo e relevante. Mas, pombas, esse é o principal tema discutido no mundo atual! O grande desafio que temos é como conciliar o aumento da renda de grande parte da população mundial, que vai se refletir em maior consumo, com a necessidade de utilização racional dos recursos naturais.
Ainda não sabemos ao certo como fazer isso, como a COP15 demonstrou em dezembro. Mas a discussão está em todos os jornais, TVs, internet, governos, empresas. Talvez quando Cameron começou a trabalhar a ideia, há 10 ou 12 anos, fosse um tema de vanguarda. Hoje, é main stream. Não me parece necessário gastar US$ 300 milhões e empregar uma metáfora da destruição de um outro planeta para passar essa mensagem. Talvez eu esteja exagerando; talvez eu seja mais consciente a respeito dessas questões, do que a maior parte da população mundial – afinal me informo minimamente. Faço, então, uma ressalva: talvez o filme tenha êxito ao passar essa mensagem, ainda que de uma maneira água com açúcar. Para mim, porém, Avatar foi inócuo nesse sentido.
Mesmo com esses tropeços, o filme se salvaria, tamanha a qualidade da produção e a inovação visual. Mas Avatar ainda abusa dos lugares-comuns: a culpa pelo extermínio de populações tecnologicamente menos favorecidas, o amor impossível (me pareceu muito um Dança com Lobos: uma civilização mais avançada destrói a outra, até que surge um amor para complicar…), a culpa pelas conseqüências – psicológicas inclusive – da Guerra do Vietnã e afins, o velho embate entre o bem e o mal, Davi contra Golias, e assim por diante.
De fato, o diretor caracterizou as duas civilizações em conflito como totalmente antagônicas, colocando-as em pontos absolutamente opostos em relação aos aspectos éticos. De um lado, o “povo do céu”, isto é, nós, armados, poderosos e sem escrúpulos, querendo explorar um metal raro presente no subsolo de Pandora; de outro, uma tribo alienígena (metáfora clara dos povos indígenas que foram exterminados) que vive em total comunhão com a natureza, de modo absolutamente idílico – Pandora, de fato, assemelha-se a uma espécie de paraíso. Nesse sentido, Cameron se mostra um grande pessimista com os rumos da raça humana: em 2154, teremos destruído todo o verde daqui e o próximo passo é fazer o mesmo por lá.
Há ainda um gran finale, e se você não viu o filme, aconselho a parar por aqui. Diante da possibilidade de voltar para a Terra ou mudar definitivamente para Pandora e se tornar um Na’vi, abandonando sua versão humana, o herói Jake não hesita: se “suicida” como humano para viver no paraíso de Pandora com sua amada nativa. É a utopia em seu grau extremo: abandonar a própria vida, o próprio mundo, e viver no Eden. Isso dá mais uma longa análise, mas deixa pra lá…
Você vai achar que não recomendo o filme. De forma alguma. Avatar é bom? Depende do que se busca e talvez aí esteja meu erro com essa análise bem crítica. Se a ideia é ver um belo roteiro e uma história inteligente, esqueça. Se o objetivo é se divertir com uma criação brilhante, vá fundo que a diversão é garantida. As duas horas e meia de filme passam rapidamente e você embarca mesmo em uma viagem. Mas mesmo por isso, por ter feito algo tão grandioso e com tanto potencial, James Cameron poderia ter marcado época e feito um filme melhor. Avatar merecia uma história mais consistente, menos óbvia e infantil, menos Romeu e Julieta com final feliz, que acabou apenas servindo como invólucro para embalar as peripécias tecnológicas e a incrível criatividade visual. Uma pena.
PS: recebi esse link aqui comparando Avatar com Pocahontas
(Vai, pode meter o pau agora).


ainda não vi, estou decidindo…
se for assistir, é apenas para para ver coisinhas brilhantes voando sobre mim, ou seja: imagem, movimento, cor e tecnologia.
e lendo teu texto fico lembrando de um filme que, pra mim, foi revolucionário em termos estéticos: Blade Runner.
mas tinha mais que belos copos (adoro aqueles copos), boa música e técnica.
virou cult porque tem uma bela história, trabalha com o que sobrevive a tempos diversos: viver e morrer como “um humano”.
pelo que tenho lido, Avatar vai ser “o filme em 3D”. just it.
Por: marcia em janeiro 30, 2010
às 3:34 am
Hauhauhauauhau…Maguê, esta tua frase no final entre parênteses, foi um dos picos do texto…Você passou boa parte dele se desculpando ou arrumando justificativas por ter uma visão mais crítica e por ter se decepcionado por não ter atingido as suas expectativas de conteúdo…o filme poderia, talvez, conter uma nova forma de ver a vida ou a decoberta de uma cura para os males da humanidade, etc…o certo é que a vida é assim, quando vamos com grande expectativa para as coisas, a chance da decepção aumenta…o legal seria ir para a vida sem muitas pretensões. Polêmico não? O que achas? Talvez mereça uma reflexão? Outro post? Realmente você escreve de forma muito legal, eu diria didática (ihihihi). Um grande abraço! PS.: viu o filme sozinho ou com as crianças?
Por: Paulo Araripe em janeiro 30, 2010
às 2:22 pm
Fala Rúmen, obrigado pelos elogios. Não fui com elas não, mas o duro é que elas querem ver nesse domingo, então há o risco de eu ver novamente….hahaha…quem sabe mudo a crítica.
Completando a resposta, talvez o melhor fosse ter baixas expectativas. Como diz o Spielberg, “sempre me preparo para o pior e acabo surpreendido pelo melhor”. Não acho que seja tão simples assim. Na verdade, isso não quer dizer baixa expectativa, talvez até o contrário: só quem tem altas expectativas se prepara para o pior, isto é, tenta evitar que o pior ocorra e acaba assim sendo “supreendido” pelo melhor. Agora, altas expectativas têm seu preço; a decepção é maior. Mas não sei viver sem elas…se você souber, good for you…or not!!
Por: marcelopcarvalho em janeiro 30, 2010
às 10:17 pm