Eu não costumo publicar textos de outras pessoas no blog, mas vou abrir exceção a essa poesia do Vinicius e que não conhecia. Fiquei conhecendo por influência da amiga Ana Maria Almada, do blog Menina de Cachos. Obrigado Ana, mais uma vez!
Mas…um momento. Pensando bem, acho que eu até tenho algum direito de publicar coisas do Vinicius. Afinal – a maioria não sabe – mas minha avó paterna foi a primeira musa do poetinha. De fato, a primeira poesia escrita por ele foi a ela destinada – acho que com 9 anos (ele era precoce…). Assim, eu sou mais ou menos um neto torto do Vinicius, vai…
Aliás, falando nele, o que será que existe no filme Vinicius, que faz com que a gente veja, reveja e reveja, e sempre se emocione? Pelo menos comigo é assim. Enfim, O Haver, belíssima poesia dele, seguido de vídeo (Ana de novo):
O HAVER
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
— Perdoai! — eles não têm culpa de ter nascido…
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.
A poesia narrada pelo Vinicius, musicada pelo Edu Lobo:

Oi, Marcelo!
Que bom que gostou tanto que mereceu um post! Descobri que esse poema tem outras versões, e gostei de todas.
Ah… Faltou você contar que sua avó também doi escritora, de muito talento. Não vou me alongar na história que você me contou porque quem sabe merece um post seu? Aliás, esse seu talento para escrever é de família, né?
(Sou eu quem lhe agradeço, sempre!)
PS tanto trabalho pra criar um blog anônimo e vem você e dá nome e sobrenome, rs!!!Mas tá valendo…
Por: Nina em janeiro 29, 2010
às 10:57 am
É verdade, você lembrou bem (aliás, nossa, acabei de me lembrar de uma coisa que fiquei de te mandar)!
Mais sobre ela aqui.
Por: marcelopcarvalho em janeiro 29, 2010
às 11:54 pm
Talentosa Cacy Cordovil!
(ei, manda, rs!)
bj
Por: Nina em janeiro 30, 2010
às 3:39 am
Oi Marcelo,
Adorei. O Vinicius sempre me traz vida nos dias mais difíceis. Hoje foi um deles. Vinicius é calor contrapondo-se a frieza. Quem sabe me animo e volto ao Pena!
beijo,
Lili
Por: Ana Carolina Carvalho em fevereiro 20, 2010
às 10:20 pm