Publicado por: marcelopcarvalho | fevereiro 12, 2010

Certa tarde em Guangzhou

Aconteceu há quase 5 anos, quando a turma do MBA estava fazendo viagem de duas semanas a China. Era a primeira viagem organizada pela FIA para este país; as expectativas eram grandes. Logo no começo, tivemos um final de tarde livre e um pequeno grupo resolveu andar por um parque nas imediações do hotel. Guangzhou, antiga Cantão, fica no sul da China, mais ou menos perto de Hong Kong (falando nisso, me lembrei de uma história nossa de Hong Kong que vou contar depois…haha). Estava quente, absurdamente quente, e muito úmido, mas muito mesmo. Uma verdadeira sauna.

Depois de caminhar um tanto, vimos um campo de futebol, de areia, onde jogavam uns chineses, todos de chuteira, meião, e tudo o mais, devendo ter uns  18 anos em média, ou no máximo.

Não podendo ver uma bola, sugeri para o nosso grupo desafiar os chineses – estávamos em cinco, alguns de calça comprida, outros de sapato ou chinelo. A ideia seria jogar só 5 minutos para tirar uma foto e depois contar para o resto da turma. E, de qualquer forma, chinês é a princípio ruim de bola….

A conversa foi complicada, porque eles não falavam inglês e nós, obviamente, não éramos versados em mandarim. Mas a língua do futebol é universal e logo estávamos nos entendendo.

Quando viram que éramos do Brasil, os chineses assustaram e já iam desistindo do confronto das duas potências, até que um deles deu uma olhada melhor em nossa equipe e convenceu os outros a jogar. Certamente não éramos o que eles estavam acostumados a ver em se tratando de futebol brasileiro.

Os chineses, jogando em casa e, em plena forma, começaram o jogo a mil; logo estava 2×0 e rapidamente esquecemos os cinco minutos  previstos; de repente, estávamos numa batalha campal pela nossa honra. De uma forma ou de outra, sendo malandro em alguns momentos, conseguimos equilibrar a partida. Lembro até hoje que, quando um chinês tentou me driblar, e chutei para a lateral e xinguei: “Aqui não, seu chinês filho da puta!” Depois de 1 hora, completamente exaustos, achamos por bem encerrar a brincadeira com o diplomático placar de 4×4.

Como eu estava de sapato, optei por jogar descalço naquele campo de areia e pedregulho. Foi só no final que percebi que alguma coisa com meus pés não estava boa…quando olhei, a sola de cada pé tinha uns 3 buracos em carne viva, do tamanho de uma moeda de um real, cheios de areia. Ardia…

Passei o resto da viagem de chinelo, sentindo a cada dia a reprovação visual do coordenador da viagem. Afinal, éramos executivos a trabalho e não moleques de férias (pelo menos a princípio…). Na cidade seguinte, em Shanghai, precisei ir ao médico porque as feridas haviam inflamado, o que era de se esperar considerando o calor, a umidade e o local, impossível de se cicatrizar a não ser que eu ficasse deitado o dia todo.

A dor passa, a ferida cicatriza, e ficam as lembranças. É curioso: analisando hoje, essa é mesmo a melhor lembrança da viagem.

Desde então, muitas outras turmas se passaram e foram para a China; centenas de alunos se sucederam.  Mas, certa vez, alguém lá da coordenação do curso me disse que a façanha da turma 26 é lembrada até hoje: aquela foi a turma que, numa certa tarde de junho, fez algo único, fora do roteiro e, com isso, fez a diferença, deixando sua marca. Think about it!

(Se alguém do MBA que estava lá ler esse texto, pode confirmar!)

O estado do time brasileiro após a partida

Tentando diálogo com os nativos


Respostas

  1. Marcelo,

    Adorei esse texto! Tem (quase) tudo que eu gosto: uma boa história, pessoas diferentes, futebol, aprendizado. Está muito bom! Acho que ele ficou meio perdido no “meio da folia”, mas já está entre meus preferidos de 2010!

    É isso aí, “A dor passa, a ferida cicatriza, e ficam as lembranças”

  2. [...] Dica pra Pira: exposição Ora Bolas Em clima de Copa do Mundo,  quem está em Piracicaba precisa ir ver a exposição “Ora Bolas, o Futebol no Mundo”, no Engenho Central, que apresenta fotos de pessoas jogando bola nos locais mais improváveis, como Antártida, Iraque, Vietnã e outros. São belas imagens e, através delas, é possível perceber um pouco do que o futebol representa. É a linguagem esportiva universal. Eu sei o que é isso na pele e já escrevi sobre a inusitada pelada que joguei na China. [...]


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