Publicado por: marcelopcarvalho | março 28, 2010

Sobre fins e recomeços

No final de semana passado, fui para Tiradentes, em Minas Gerais, descansar e fotografar. Acho que não conhecia Tiradentes – talvez já tenha ido em uma excursão do colegial, mas se fui, estava certamente interessado à época em outras coisas – e minha vontade de conhecê-la cresceu depois que li um dos livros do Eduardo Giannetti, todos escritos em longos retiros feitos na vila colonial, hospedando-se no antigo Solar da Ponte.

Solar da Ponte

Um conjunto de circustâncias me fez ir para lá e, claro, fiquei hospedado no mesmo Solar da Ponte, uma casarão histórico localizado perto do centrinho e que prima pela exclusividade e pelo bom gosto. Cada quarto (a pousada possui 18) é decorado de um jeito diferente e pude entender perfeitamente porque o Giannetti hiberna nesse lugar para escrever seus ensaios. Talvez em me sinta também inspirado por lugares como esse, guardadas as devidas proporções.

Como você pode ter percebido, não tenho escrito muito, nem fotografado. Essas coisas – a inspiração, a vontade de escrever ou fotografar, a auto-avaliação favorável do trabalho, a ponto de se permitir expor – vêm em ondas, e em parte fui para Tiradentes em busca de uma nova onda.

Tiradentes de noite, com chuva, vazia

Tiradentes é uma espécie de Paraty das montanhas, porém menos badalada. Mas não é sobre Tiradentes que quero escrever – há montes de textos na internet, e minhas fotos aqui, no Facebook e no Flickr falarão melhor do que minhas palavras.

Quero escrever sobre uma mesa. Uma mesa grande, rústica, de peroba maciça com pés de braúna carregados de história. E que agora me acompanhará, seja onde for.

No domingo, andando meio que sem rumo definido pela cidade, fui atraído por um atelier (o único que entrei, tanto lá quanto na vila vizinha de Bichinho) faceado por um belo gramado com árvores, na lateral mais escondida do Solar. Vendo minha indecisão (entro ou não entro? Afinal, definitivamente não vou comprar nada. Não, o momento não é de comprar nada. Ando gastando muito já, estamos investindo na empresa, os desafios deste 2010 são grandes e, ainda por cima, nem sei ainda onde vou morar, já que supostamente estou de mudança de cidade), a proprietária me convidou dizendo que não custava nada entrar.

A casa/atelier à direita, atrás das árvores

Entrei. Tocava MPB, e o atelier, que na verdade era a casa da artista, abria para um jardim muito integrado com a casa antiga, com piso de madeira e diversos móveis o objetos: tudo à venda. Ela me explicou: estavam de mudança para Portugal, decidiram partir e vendiam tudo – móveis, objetos de arte, utensílios, muita coisa antiga, garimpada nos lugares  mais improváveis: uma luminária italiana adquirida em uma estação ferroviária a ser demolida, por exemplo, e daí por diante.

Em um dos cômodos, a mesa. Olhei para ela, fizemos um comentário qualquer, e continuei andando, percorrendo a casa e me perguntando porquê partiriam, porquê sairiam daquele lugar que parecia perfeito, para que ir a Portugal começar tudo de novo? A necessidade de recomeçar não respeita esse tipo de coisa, pensei.

Capela, de noite

Depois de percorrer toda a casa, perguntei o preço da mesa. Não sei porque perguntei – afinal não havia a menor chance de comprá-la, pelos motivos já expostos. Pelo que era, não parecia caro, ainda mais depois de saber que os pés de braúna vieram de uma ponte construída por Juscelino Kubitschek em sua cidade natal – Diamantina – quando este fora governador de Minas Gerais (início da década de 50), e que ela havia comprado quando a ponte foi demolida.

Saí, nem telefone peguei. Afinal, se não iria comprar a mesa, para que perder tempo ou gerar expectativas nela e em mim? Fui embora, voltei para BH, onde tinha um congresso.

Foi quando as coisas começaram a mudar. Comentei com alguém sobre a mesa de Tiradentes e fui recebido com um “você tem que comprar essa mesa!”. E o pior é que eu sabia que tinha. Na verdade, já tinha comprado no mesmo momento em que a vi. O resto todo foi só o processo de adaptação ao fato, talvez a tentativa de resistir a algo que, a princípio, não teria qualquer sentido de ser.

Liguei para o Solar e pedi para irem até lá pegar o telefone. A proprietária sabia de quem se tratava assim que o pessoal foi lá – talvez ela também já soubesse (Fechei o negócio nesse domingo à noite. Ela me disse que já vendera 60% e que provavelmente iria adiantar a partida. Havia reservado a mesa para mim até essa segunda. Fiz uma boa compra, ela disse. Por estar enganado, mas acho que ela gostou de “eu” ter comprado a mesa. Conforta dar um bom destino mesmo para o que não nos serve mais.).

Não sei exatamente porque comprei a tal mesa. Racionalmente, me convenci de que se tratava de um bom investimento. Uma mesa dessas em São Paulo custa bem mais caro – a artista mesmo me disse isso. Pronto, estava justificado o investimento. Mas obviamente não foi isso que me motivou, afinal há inúmeros investimentos bem mais simples de se fazer do que comprar uma mesa de 2,38m sem ao certo saber para onde levá-la.

Tiradentes

Estranhas essas coisas, essas vidas que se cruzam ou se tocam sem razão aparente, e deixam alguma coisa uma para a outra. A artista, por razões que não sei e nunca vou saber, decidiu recomeçar em outro lugar, despindo-se dos pertences que não mais lhe são úteis, ou que lhe trazem lembranças que convém ser esquecidas, vai saber. Entre esses despojos, uma mesa que, por alguma razão que igualmente desconheço, elegi meio que ao acaso como símbolo de um recomeço qualquer, vai saber. Os restos que representam um fim para uns é a matéria-prima da reconstrução para outros. O que descobriu mesmo Lavoisier?

Olhando para frente, vejo mais dúvidas do que certezas. Ainda não sei onde vou morar, mas sei que onde for haverá comigo uma mesa centenária, uma peça única, uma obra de arte, carregando as marcas do tempo, ancorada em pés fortes de braúna que lhe darão a sustentação necessária, tal qual suas raízes um dia lhe deram.

A mesa


Respostas

  1. simbologia é tudo nesta vida.
    num momento de mudança, você busca algo de grande solidez, pleno de história, para te lembrar de não ir tão longe do que interessa.

  2. Gostei muito desse seu texto, por tudo o que se lê e pelo que se adivinha, ou se imagina.

    Que você possa, sempre, em sua vida, ter à sua volta coisas raras e preciosas. E que um dia, em breve, você possa reuni-las em torno da sua mesa.

    Que suas raízes não lhe prendam, mas lhe impulsionem!

  3. Marcelo, espero que logo encontre moradia para esta mesa sólida. As fotos estão bonitas, como sempre.


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