Na semana passada, participei de um workshop avançado de fotografia ministrado pelo Frans Lanting, em Santa Cruz, Califórnia. Para dar uma referência, Frans Lanting é um dos maiores fotógrafos de natureza da história, um dos ícones da National Geographic. Ele faz com que cada imagem passe uma mensagem muito mais ampla do que simplesmente um belo registro. Por trás de cada foto, uma história – o tema do workshop.
Abaixo, um exemplo disso. Em uma manhã com neblina em uma das ilhas de Galápagos, ele conseguiu criar uma foto que remete nosso imaginário ao tempo em que os répteis dominavam o planeta, uma ligação direta com o que Galápagos representa para a evolução das espécies (além de ser uma imagem belíssima por si). Isso é fazer arte a partir da natureza – a essência da fotografia de paisagem ou de natureza.
Fui, junto com outras 14 pessoas, atrás de um pouco dessa visão poética, da estética perfeita e da técnica refinada, sem saber ao certo o que iria encontrar, até porque sou novo nesse negócio, ainda mais com alguém desse nível. Chegando lá, vi que os alunos eram também muito bons: vários fotógrafos profissionais, bem como amadores bem sérios, com grande experiência, muito talento e recursos. Um grupo heterogêneo: um norueguês, uma alemã que mora na Namíbia, um chileno e um indiano que moram nos EUA, um americano que mora na Costa Rica, e o restante norte-americanos mesmo.
Vendo a qualidade do pessoal, não tive como não me sentir meio intimidado; afinal, quer queira, quer não, está todo mundo ali para dar o seu melhor. Há uma certa competição inerente ao comportamento humano e o medo de fazer feio. E eu era um dos únicos para quem a fotografia é hobby, além de ser um dos que tinha menos experiência, afinal fotografo há um ano apenas, nas poucas horas vagas. Essa tensão inclusive foi tema da apresentação final feita por uma das participantes que, emocionada, mostrou seus temores e sua evolução ao longo do workshop, comparando-o a uma batalha.
E foi mesmo, a começar pela intensidade: foram quatro dias das 5 da manhã às 8 da noite, sem intervalo (o almoço era um sanduíche ingerido na frente do computador, bem ao estilo americano). Sessão de fotos na praia, na floresta, no jardim botânico, palestras, edição das fotos no computador, revisão e análise das imagens, mais sessão de fotos, etc. Todo mundo esgotado fisicamente e também mentalmente – uma verdadeira batalha!
Batalha também no sentido de tentar saltar de nível, que é o que um workshop desses se propõe: logo no primeiro dia, depois da primeira sessão de fotos, mostrei ao Frans uma das fotos que tirei e que gostei. Ele me olhou e disse: “well…yes…very basic. You have to raise your standards”. Era uma mostra do que viria pela frente.
De início, um certo desânimo. Você perde um pouco suas referências. O que é bom e o que nao é? De repente você está ali tentando ser tão bom como o instrutor, tirar fotos como as melhores que ele já tirou e que estão expostas em suas galeria, sem se lembrar que aquilo é o supra-sumo de décadas de trabalho de alguém que é extremamente competente no que faz. De repente, você esquece que tem um olho próprio, um estilo, e começa a querer ser como o professor (talvez para buscar aprovação).
Também, tem a questão dos equipamentos. Refletores, difusores, flashes, gels, filtros, etc. que fazem com que você fique se perguntando se conseguirá produzir alguma coisa somente com a câmera na mão. Eu particularmente não conhecia nada disso e vi como uma boa produção às vezes é fundamental para fazer uma foto realmente diferenciada, como transformar uma imagem em obra de arte.
Aos poucos, as coisas começaram a ficar mais claras. Frans e seus três assistentes, Paul, Kevin e Jason, todos fotógrafos, nos dão o apoio necessário, olham nossas imagens, dão sugestões, e elogiam quando conseguimos um bom resultado. Intuitivamente, começamos a perceber nosso estilo, e Frans nos auxilia nesse sentido, sem querer impor a sua forma de ver as coisas, mas nos fazendo ir mais longe.
Começa a fazer sentido o tema do workshop: Every picture tells a story. Frans nos mostra como contextualizar as fotos, como fazer com que as imagens contem uma história impactante. A fotografia, no final, é uma linguagem visual, tem a missão de passar uma mensagem. Uma foto isolada pode ser apenas uma bela imagem; um conjunto de fotos cria uma história. Nem sempre as melhores fotos fazem parte da história. Conversando com Frans, ele me mostra um quadro com uma foto belíssima de elevantes ao por-do-sol, na África. Ele diz que essa foto nunca foi publicada em nenhum lugar, apesar de uma imagem incrível; simplesmente não encaixou em nenhuma história. “That’s why I have it here in my wall”, brincou ele. Há também o oposto: uma foto somente ok pode vir a se encaixar perfeitamente em uma história. Tudo depende do contexto.
Enfim, a prova final: cada um de nós teve de montar uma história, com 5 a 7 fotos no máximo, a ser apresentada por 5 minutos ao final do workshop. A partir do segundo dia, tínhamos um olho nas fotos e outro na história.
Fiquei surpreso com a qualidade de tudo o que foi apresentado, inclusive do que eu apresentei, que acho que impactou os participantes de alguma forma. Ao final, todo mundo havia mudado de nível, não só na contextualização, mas no emprego de técnicas pouco convencionais, que fogem do lugar comum. O objetivo do Frans era nos fazer pensar fora da caixa. Tudo pode na concepção criativa, dependendo do que você vai querer passar com a imagem.
Por fim, algumas percepções adicionais que levo para casa:
- Como qualquer forma de arte, é preciso talento, mas acima de tudo prática, paciência e busca da excelência. O suficientemente bom não serve. Vi gente 2 ou 3 horas fotografando uma única imagem nesse curso, até ficar 100%. Devo ter tirado umas 2 mil fotos; se consegui 30 muito boas para o meu padrão, está ótimo. Em um dos dias, um sub-grupo do curso ficou até 9:00 da noite em umas pedras em uma praia gelada do Pacífico, até obter o que queria.
- E, claro, é preciso às vezes um pouco de sorte para estar no lugar certo na hora certa.
- Equipamento extra pode ajudar às vezes, mas obviamente muitas boas imagens são produzidas sem grandes aparatos. Mas os brinquedinhos são bem legais….:-)
- A pós-edição das imagens pode ser muito importante para passar de forma mais efetiva uma mensagem, ou para deixá-la esteticamente mais atraente. É como o processo de revelação do filme. Há um preconceito com Photoshop, etc, até justificável porque muitas vezes se foi longe demais com isso, deixando a imagem “fotoshopada”. Mas programa algum vai corrigir uma composição que não funciona, com uma luz ruim ou que esteja sem foco. E pequenos ajustes podem realmente fazer uma boa imagem ficar excelente. É como lapidar um diamante.
- Às vezes um lugar aparentemente banal rende imagens incríveis.
- Cada foto conta uma história, e cada pessoa faz uma foto diferente. Todo mundo no mesmo lugar, na mesma hora, e cada uma vinha com uma imagem distinta. Não existe o certo ou errado, desde que funcione como imagem. Eu olhava as fotos que os colegas tiravam e pensava: uau, nunca vou conseguir tirar uma foto dessas – maravilhosa! Mas comecei a perceber que eles olhavam as minhas e também se impressionavam; talvez pensassem o mesmo. Ali, vi que tinha meu estilo, que não era melhor nem pior do que os demais. Todos tinham coisas muito boas, mas muito diferentes entre si (ok, como em qualquer forma de arte, alguns estavam realmente acima dos outros).
Ao final, a sensação de evolução, de mudança de patamar, de ver a fotografia com novos olhos. Acho que todos saíram com essa sensação. Frans Lanting, além de grande fotógrafo, é um grande mestre. E nada mais recompensador quando um grande mestre olha algumas de suas imagens e diz: ”this image is gorgeous; congratulations, it was beautifully done!”




[...] e incertezas, presente e futuro Dando continuidade ao post anterior, eis a minha história, apresentada como trabalho de conclusão do workshop de fotografia que fiz [...]
Por: Certezas e incertezas, presente e futuro « O que der e vier em abril 29, 2010
às 1:27 am
Esse workshop deve ter sido realmente muito bom. Gostei muito de suas fotos, especialmente as mais experimentais, como a do panning vertival nos trocos das árvores e das flores parecendo parecendo pintura impressionista. Good job!!
Por: Marcio Lambais em abril 29, 2010
às 4:32 pm
Caramba Maguê, que legal a experiência. Pelo que pude perceber você deve ter evoluído em vários aspectos, além do da fotografia…o desânimo inicial, a expectativa do que viria, a ansiedade da apresentação final, o inglês, a admiração pelo mestre…puxa, quanta coisa…Fiquei me imaginando numa situação destas e cheguei à conclusão de que o que me falta é simples: coragem! Aliás que sobrou em você! Parabéns mais uma vez. O texto passou sentimento, o que é impressionante…lendo-o me senti na sala do curso, diante de um dos ícone de meus sonhos…legal mesmo. Apesar de não gostar muito de fotografia, curti junto com você esta experiência. Não deixe de escrever…Abraço!
Por: Paulo Araripe em maio 3, 2010
às 12:44 am