Esse texto nasce com alguma probabilidade de ser anulado na semana que vem, dependendo da lista dos selecionados a ser divulgada pelo técnico Dunga no próximo dia 11. Quem acompanha futebol sabe que o Santos é disparado o time de melhor futebol e Neymar e Ganso surgiram como há muito não se via no futebol brasileiro. Como Copa do Mundo é momento, como atestam Kléberson, Josimar e muitos outros que apareceram quase que apenas em Copas, é possível que Dunga convoque ambos, além de Robinho, recriando, ainda que na reserva, o trio matador do Peixe. Mais do que possível, seria esperado.
Mas arrisco dizer que não vai acontecer. Não os dois. Talvez um. Mais provavelmente, nenhum. Dunga não é exatamente afeito a manifestações da imprensa e da torcida. Tem sua lógica própria, bem alicerçada em seu sucesso, que sempre fora um sucesso só dele, solitário.
Dunga cunhou uma era – a era Dunga – caracterizada de formas distintas dependendo do ângulo: um futebol feio, defensivo, sonolento, difícil de torcer, que foge ao que o mundo conhece como futebol brasileiro, desconfigurando-o; ou um futebol moderno, físico, eficiente – de resultados, acima de tudo. E ambas as visões estão corretas, como atesta nossa percepção e a própria história.
O atual técnico da seleção é o produto mais bem acabado do trauma de 82. A tragédia do Sarriá, em que um Brasil aparentemente imbatível, um Mike Tison em plena forma, sucumbiu diante da até então opaca Itália, calando a todos nós e marcando uma geração de craques como uma geração de perdedores, cuja frustração muitos de seus protagonistas carregam até hoje (Sócrates é o principal exemplo).
No meio do futebol, a derrota de 82 causou um efeito pendular semelhante a alguém que tem uma enorme desilusão amorosa e decide que o amor não compensa. O futebol casou com a seleção de 82, que o traiu. Após Telê Santana, com uma derradeira tentativa em 86, todos os técnicos que levaram o país a Copas do mundo são frutos dessa desilusão. Tínhamos de imitar os vencedores, os italianos, os alemães, o futebol força que – 82 provou de forma definitiva – prevalecia nesses novos técnicos que comandaram, ano após ano, a seleção brasileira.
E Dunga, sob o comando de Parreira, foi o xerife que nos levou ao esperado tetra, em 94, com um time chato de se ver, mas que – não esqueçamos – tinha Romário e Bebeto em grande forma (Romário convocado no final das eliminatórias, quando o risco do Brasil não ir à Copa assombrava Parreira e a pressão popular era insustentável).
O sucesso particular de Dunga, contestado mesmo diante de sua evidência, criou no atual treinador uma couraça, tornando-o inflexível, arisco e refratário a sugestões e críticas. O treinador criou, praticamente sozinho, a sua fórmula de sucesso, cuja essência é, de um lado, ter jogadores combativos, fisicamente fortes e leais e, de outro, fechar os olhos e ouvidos para sugestões daqueles (torcida e imprensa) que sempre o criticaram: ele já deu certo assim e, em sua forma de raciocinar, é a única maneira de dar certo. E Dunga trabalha com padrões aprendidos e aplicados com afinco; não é alguém que tira os pés do chão para, quem sabe, alçar vôos mais altos. Vai passo a passo, tendo a certeza do que vê pela frente. Não é afeito a surpresas; aprende, planeja e executa. “E se…” não existe em seu vocabulário.
Essa é a coerência de que tanto fala. A coerência de seguir o seu roteiro, que já se provou eficiente para o objetivo em questão – ganhar o Mundial – sempre contra tudo e contra todos, o que certamente reforça suas certezas mais íntimas. Às favas o que os outros pensam; farei do meu jeito e, se não conseguir, que me critiquem depois, já disse mais de uma vez.
Mais do que ser coerente com um trabalho realizado ao longo de anos, o que Dunga busca é ser coerente consigo mesmo, sob o risco de perder-se a si próprio caso ceda a apelos de terceiros, ainda que potencialmente corretos. Não quer correr o risco de entrar em um terreno pantanoso e de repente deixar de ser Dunga. E isso reflete-se em seus atos. Parece ter uma objeção pronta antes de vir qualquer sugestão; tem um ataque elaborado antes mesmo de receber a crítica; está quase sempre de mau humor, irritado, irônico e cínico, mesmo diante (talvez principalmente) das vitórias, como se o sucesso fosse mesmo só dele, não cabendo a ninguém mais desfrutá-lo.
Nesse sentido, talvez a forma mais fácil de ter Neymar e Ganso seja justamente não pedir pela convocação de ambos: Dunga, fique com Grafite e Júlio Batista, são muito melhores! Talvez assim Dunga os convocasse; seria coerente com sua postura de herói solitário e injustiçado.
No caso de Neymar e Ganso, provavelmente há ainda o efeito 82. Imagino Dunga vendo Santos e Santo André e revivendo o Brasil e Itália de 82, que lhe ensinou que o título residia na maneira oposta de se jogar. Até o placar dos dois jogos foi igual – 3×2! Não fosse o primeiro jogo, a final do Paulista teria sido de uma assustadora semelhança ao trágico jogo que teve o poder de definir a forma de jogarmos futebol desde então.
Imagino Dunga reforçando suas teses – na hora do “vamos ver”, é preciso defender, é preciso ter jogadores fortes e disciplina, de nada adianta extrema habilidade se nada disso existir. E, claro, Neymar e Ganso, e mais Robinho, são o que mais se parece com 82 nas últimas duas décadas: habilidade, improvisação, extrema auto-confiança, irreverência e até insubordinação, como quando Ganso se recusou a deixar o campo quando ia ser substituído. E, em sua lógica tosca mas legítima, isso não é nada bom – para Dunga, o sinônimo disso tudo é irresponsabilidade.
Dunga tem dificuldades de entender que há algo até mais importante do que o título, ou ao menos algo que o precede; criar uma equipe que seja de fato a querida pela torcida, aquela que a represente, aquela que valha a pena torcer. Ocorre que ninguém nunca realmente torceu por Dunga; tivemos de engoli-lo, assim como aos técnicos Parreira e Zagalo, além de muitos jogadores que vestiram a camisa amarela nas últimas Copas.
Por todas essas razões, Dunga não deve convocar os astros santistas. Não faria sentido para ele. Mas…
Mas Dunga é, acima de tudo, jogador de futebol. Deve ter tido seus ídolos na infância, que devem ter sido os craques do passado. Deve saber, lá no íntimo, que sem um Romário em estado de graça ou um Ronaldo dando uma volta por cima que ninguém esperava, fica difícil fazer um time de guerreiros brasileiros ser vencedor. Talvez seja, por fim, um amante do futebol, a ponto de jogar suas convicções para o alto e fazer o óbvio, convocando os jogadores que mais estão se destacando no momento. Talvez seja injustiçado como diz; talvez, enfim, seja melhor do que achamos que seja. Essa é a esperança que resta, sob o risco de termos de torcer para um time formado quase que por onze Dungas, agora disfarçados de Felipes Melo, Michéis Bastos, Josués, Júlios Batista, Adrianos, Klébersons, Elanos, Gilbertos Silva e muitos outros.


Muito bom seu post. ….por onde começar? Vamos lá, que seja 1982. A “Tragédia do Sarriá” traz lágrimas a meus olhos até hoje (e.g. lendo seu texto). Em 1982 éramos meninos e vimos nosso sonho se desfacelar. Pra mim foi bem sério, demorou mais de 2 horas pra eu parar de chorar. Depois, mais 2 horas pra eu parar de chutar a bola na parede do quintal. Finalmente, mais de um ano pra tirar aquela sensação de frio na barriga que sempre voltava quando me lembrava de Sarriá. Não! Minto! Aquela sensação, eu acabo de sentir novamente. Ainda está aqui, 28 anos depois. Sarriá é um trauma coletivo e particular de todos e cada um de nossa geração. Agora, sendo brasileiro e morando fora do Brasil me faz alvo natural de conversas sobre futebol. Algumas delas são um prazer, outras nem tanto. Nessas conversas, eu posso hoje, graças ao youtube, mostrar ao meu interlocutor em “tempo real” sobre o que eu estou falando. Minha observação é que mesmo sabendo o resultado final, meu orgulho está em mostrar lances de 1982 e pre-1982 (aqui um de meus favoritos, Rivelino 1974 em 14 segundos de pura glória: http://www.youtube.com/watch?v=TIcw8EFbNZM) . Eu me junto ao coro dos defensores do futebol-arte que acham que mais vale perder com glória do que vencer sem glória. Trazendo o conceito que vc introduziu em seu post sobre o curso de fotografia e transferindo-o ao futebol: temos que aceitar o nosso estilo e saber crescer, evoluir dentro dele. A oportunidade de evoluir está à porta. O talento está disponível, o momento é de copa e, importantíssimo, não temos a pressão de ter Itália e Alemanha na nossa cola como em 1994. Podemos nos dar ao luxo e o momento é agora. Não se sabe quando o talento vai voltar. Então, como vc diz, Grafite e Júlio Batista JÁ !!!!!!!!!!!!!!
Por: Nelson Junqueira em maio 6, 2010
às 6:03 pm
MARAVILHOSO !!!
PERFEITO!!!
Escreveu exatamente tudo o que eu gostaria de escrever mas que por não ter essa sua grande qualidade – um cronista de futebol nato – fico aqui aplaudindo e agradecendo!
Bjs
Malu
PS – como carioca acrescentaria o nome do Zico junto ao do Sócrates!!!
Por: Maria Lucia Moraes em maio 6, 2010
às 6:23 pm