Publicado por: marcelopcarvalho | maio 19, 2010

Quando éramos reis

Você nunca sabe aonde as conversas de bar podem nos levar. A rigor, você nunca sabe aonde qualquer conversa vai nos levar, mas se for para ir a algum lugar inesperado, as de bar saem sempre na frente porque, via de regra, são acompanhadas de bebidas, e bebidas têm esse poder mais do que qualquer outra coisa.

Outro dia, plena segunda-feira em São Paulo, um inocente happy hour com amigos e amigos dos amigos me levou ao passado, ao início da minha trajetória profissional. Um dos amigos foi meu primeiro sócio em uma outra empresa, quando eu não tinha nem um ano de formado; olhando fotos antigas daquela época, me assusto de ver minha cara de moleque já achando que poderia ganhar a vida como gente grande.

Tínhamos todos os sonhos do mundo e a ingenuidade de achar que poderíamos realizá-los. Não que hoje não tenhamos os mesmos sonhos, quer dizer,  alguns dos mesmos e outros ainda, mas hoje já olhamos com certa desconfiança para nossa capacidade de realização, bem menor do que a de sonhar, que continua a mesma… Sabemos, pela experiência desses 15 e poucos anos vividos desde então, que somos bons, mas não tanto quanto achávamos que fôssemos. E aprendemos que há limites, que nem cinco vidas seriam suficientes para fazer tudo aquilo que queremos.

Mas não há como olhar para trás com algum sentimento de vitória, de realização. Naquela época, não sabíamos nada mas criamos um mercado que não existia. Tudo bem, se não fôssemos nós, seriam outros depois, mas o que interessa é que fomos nós que fizemos. Não descobrimos nenhuma teoria da relatividade, não propusemos nenhuma origem das espécies, não ficamos famosos, mas fizemos história, ainda que no nosso micro-mundo de então. Claro, muita gente foi muito mais longe com muito menos, mas também um monte de gente (muito mais, aliás), não foi a lugar nenhum com muito mais. E, afinal, foi o que conseguimos. E, mais importante, aprendemos que podemos.

Lembro-me do investimento inicial, do grande passo que, achava, seria suficiente para permitir todo o resto. Pedi um dinheiro emprestado para o meu pai: 150 URVs, que depois virou Reais, para comprar 1/3 de fax, que seria o que eu precisava para fazer a minha vida. Lembro-me até hoje desse momento. R$ 450,00 foi o investimento dos três sócios para o bem mais precioso que precisávamos: um velho aparelho de fax, através do qual, por uma tecnologia que até hoje me assombra, enviávamos pedidos escritos a mão para a empresa que nos fornecia o produto dourado como ouro e que ninguém conhecia aqui no Brasil.

E esse investimento que estava fora do meu alcance como recém-formado, que andava por aí a bordo de um chevette 86, foi mesmo o bastante para todo o resto, talvez pela única razão de acreditar nessa tolice improvável e simplesmente ir em frente.

Lembramos e rimos do início, quando após 2 meses de insucessos, desistimos. Estávamos em um feriado de outubro em Ubatuba, discutindo na praia o que havia dado de errado. Dois moleques (ele um pouco mais velho) tentando dissecar o insucesso daquilo que era para ser um grande estouro. Onde erramos? O produto não era bom? Não era competitivo? Por que os clientes não compravam? Naquela época, não sabíamos ainda que as coisas não são tão óbvias e diretas assim, e que precisa mais do que essas coisas, ou às vezes muito menos, para se ter sucesso.

Na praia, eu pensava o que faria depois. Sempre aquela cobrança exagerada e que, com o tempo, vai sendo aplainada, o que não sei se é bom ou ruim. Por mais de uma vez nesse período considerava que havia feito escolhas erradas, desde a faculdade até o que nela fiz, e que havia jogado fora as oportunidades que me foram dadas, como a melhor escola, vivência no exterior e um ambiente culto. Aos 23 anos, considerei algumas vezes que as cartas todas estavam na mesa e que eu havia feito as jogadas erradas; só me restaria esperar pelo final da partida e assimilar o prejuízo total. Aos 23 anos…

Chegando em casa do feriado, olhei o fax e a secretária eletrônica piscava, com 5 recados. Estranho, quase ninguém me ligava. Ouvi os recados e, para minha surpresa, eram 5 potenciais clientes querendo comprar nosso produto! Liguei para meus sócios e dei a notícia inesperada: estávamos vivos; era prudente tentar mais um pouco e ver aonde aquilo ia dar. O resto, como se diz, é história. Uma história que não foi fácil, mas que foi e vem sendo escrita desde então.

Lembro-me de um outro período, já com um escritório e uma secretária de 18 anos contratada em 5 minutos, candidata única à vaga, e que ficou conosco por 6 anos….No ano seguinte, vendendo como nunca, a empresa que nos fornecia o produto cancelou todas as vendas e deixamos todos os clientes sem produto. Recordo-me de ter dispensado a secretária naquela tarde, tirado o telefone do gancho, sentado no canto da sala, e chorado. Era, decididamente, o fim. No dia seguinte, a Telefónica me ligou dizendo que havia algum problema com nossa linha, porque havíamos recebido cerca de 500 ligações não completadas em uma tarde…

Pensando bem, acho que naquela época era tudo mais fácil. O mundo girava a uma velocidade menor, a pressão não era tão grande como hoje, não tinha internet nivelando as informações para quase todo mundo. Mas talvez esteja apenas sendo saudosista. Talvez o mundo esteja só diferente, mas as oportunidades continuam existindo, só que um jeito novo. Não sei. Devo mesmo estar errado.

É sempre bom olhar para trás e tirar desse exercício uma série de lições. A primeira é nunca esquecer as bases, a origem, as dificuldades que já foram maiores do que são hoje mas que, naquela época, pareciam mais contornáveis do que as atuais. Éramos mais irresponsáveis, mais corajosos, com menos daquele ceticismo que as porradas da vida acabam nos infundindo. E, por isso, podíamos realizar mais do que hoje. Essa é a segunda lição: com o tempo, nós nos tornamos os principais obstáculos de nós mesmos. Ficamos menos permeáveis, nos acomodamos, aprendemos a respeitar as dificuldades (às vezes mais do que deveríamos), sabemos que não somos infalíveis e os melhores do mundo. Ficamos, enfim, com um certo medo e acovardados. E assim reduzimos o nosso horizonte.

A principal lição, creio, é a relativização das dificuldades. Tantas vezes morri e tantas vezes renasci, que simplesmente aprendi a não temer. Sei que estou sendo contraditório, mas como disse Walt Whitman, “me contradigo? Pois bem, então me contradigo!”: por um lado, lá atrás achávamos que tudo podíamos; hoje, sabemos que pouco podemos, ou pelo menos bem menos do que gostaríamos; por outro, naquela época as intempéries eram tidas como o apocalipse; hoje, são apenas contratempos, que, no final, serão de alguma forma contornadas. Vai saber….


Respostas

  1. Desculpe a expressão Maguê, mas…PQP…que texto maravilhoso!! Você realmente está escrevendo cada vez melhor e com estilo próprio, muito cativante…é como o livro que a gente não quer parar de ler, mesmo que o almoço já esteja na mesa esfriando, mesmo que a carona não espere, mesmo que haja alguém nos chamando…cara eu li a minha história neste teu texto…o sentimento do vai vem da gangorra da vida profissional, que como dono do negócio se mistura com a pessoal foi, por você traduzido de forma espetacular…não, mais que isso, de forma SENSACIONAL. Sabe Maguê, depois de ter começado a acompanhar seu blog, lendo seus textos eu tenho falado para todos meus conhecidos (que muito provavelmente devem ser conhecidos teus também) para lerem seus textos, pois são de uma expressividade contagiante…parabéns mais uma vez…mais um que vou imprimir…Abraço!

    • Valeu Rúmen, mensagens como a sua me estimulam a continuar. Quem sabe um dia escrevo um livro? Só me falta um enredo…rsrs

      Grande abraço

  2. Marcelo,

    Além de impressionada com o belíssimo texto, tenho que confessar que estou também emocionada com a lembrança que essa coincidência me trouxe – o fax que uso até hoje foi o investimento inicial da empresa que tive antes da revista, e acabou sendo a minha “herança” quando saí para fazer doutorado. Éramos 4 sócios e usávamos o fax para enviar propostas de patrocínio para as empresas, porque poucas pessoas tinham e-mail.
    Vou encaminhar o texto para os meus ex-sócios, pois tenho certeza que eles vão ter boas lembranças como eu. Depois te conto.

    • Oi Flávia,

      Pois é, a gente é da época que se começava com um fax…depois fala o que os sócios acharam! bjs.

  3. grande texto mesmo.
    é a velha história de dosar arrojo e cautela.
    mas como saber, sem ter experenciado algumas situações que nos levam ao limite, mesmo que seja um limite emocional?

    • É, Márcia, não dá pra ir pro céu sem antes morrer…só indo ao limite a gente cresce, não tem jeito. bjs

  4. Marcelo,
    Belo texto, retrata experiencias vividas por muitos de nos, mesmo que não coseguimos traduzi-las em palavras com voce o fez maravilhosamente.
    Abraços.

    • Obrigado Dalmo!

  5. PUTA texto.

    O mais admirável é que todo esse talento e estilo traduzem o ser humano bacana que você é.

    Depois escrevo mais, que por enquanto, fiquei sem palavras.

    (Adorei a escolha do título, adorei o documentário)

    • Oi Ana,

      Obrigado! Sobre o título, um dos participantes falou do filme, que não vi ainda, e aí achei que caberia bem no post.

      bjs

  6. Maguê,

    O texto ficou literalmente “do Carvalho”…
    Bixo, por uns instantes revivi em câmera lenta algumas dessas passagens relatadas por vc. Eu já quase náo lembrava da passagem e dos devaneios de Ubatuba…
    Em poucos minutos me passou um sentimento de que a gente náo deveria mais ter medo. O medo é uma merda e é a antítese da criação e do desprendimento.
    Mas acho que apesar do medo, que vem com a idade, a Nutricel pode ter sido só o ensaio, o treino, para que sabe uma obra maior e mais vistosa que ainda pode estar por vir.
    Fora isso, no mínimo pode ter servido para eu ter preferência na compra de Polpa Cítrica !

    abs e Parabéns Companheiro.

    Laranja

    • É isso aí, Laranja, quem sabe nossa masterpiece ainda não está mesmo por vir?

      Valeu, abraço!

  7. Boa tarde, visitei o seu blog e gostei muito… Gostaria de lhe pedir se pode colocar o link do meu blog no seu…

    http://vinhosdasemana.blogspot.com/

    Espero que coloque.
    Belo blog!

    Vinhos da Semana


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