Publicado por: marcelopcarvalho | janeiro 1, 2011

A melhor autobiografia que já li

Difícil escrever depois de tanto tempo. Estou há dias ensaiando, sem ânimo suficiente, sempre pré-concluindo que dará trabalho demais para resultado de menos. Na verdade, estou há meses ensaiando sem encontrar temas adequados que resultem em algo decente, sem muita exposição, que é a minha tônica atual. Acho que, no final, até agradeço essa ausência: me poupa de pensar mais do que já penso e também de ter de organizar as ideias no papel, sem saber o que irei encontrar ao terminar – acho que não ando querendo encontrar nada que já não saiba.

Primeiro dia do ano, chuvoso, não há muito a fazer, então vamos lá. O tema que me faz escrever é a biografia do ex-tenista Andre Agassi (“Open”, na versão original, mas somente Agassi em português), meu contemporâneo de início de 1970. Devorei esse livro de 500 páginas em 3 dias e lembrei, mais do que nunca, que sempre há dois livros escritos em um: o livro realmente escrito pelo autor e aquele que repercute na cabeça de quem lê, que terá contornos muito particulares.

Nunca fui grande fã de tênis, mas lembro-me de quando Agassi ganhou de Luiz Mattar seu primeiro torneio profissional, creio que em1987, em Itaparica, na Bahia. Duvido que alguém que não era grande fã de tênis irá se lembrar disso. Simplesmente não há motivo para isso! Andre um tenista iniciante e o torneio era sem muita importância, mas, por alguma razão, aquilo entrou e não saiu mais da minha memória, como muitas outras coisas, é verdade. Como diz Agassi no livro, “minha memória não é como minha sacola de tênis: não consigo controlar o que há lá dentro. Tudo entra e nada parece sair”.

O ponto central da autobiografia, que foi colocada no papel de forma brilhante por J.R. Moehringer (de Sede de Viver), são as contradições que caracterizam a figura de Agassi. Para começar, ele odiava tênis ou, talvez melhor colocado, uma parte dele odiava. Mesmo assim, foi o quinto melhor tenista da história e o único a ganhar o Grand Slam de carreira – os quatro principais torneios e a medalha de ouro olímpica. Como alguém que odiava o que fazia poderia ir tão longe? De onde vinha toda essa motivação, se dentro dele mesmo ela aparentemente inexistia?

Parte da resposta, além da contradição em si (afinal, parte dele amava o tênis, ainda que sem saber ao certo disso), estava na obsessão, no “instinto assassino” que tinha em quadra (segundo definição do pai) e no perfeccionismo, injetado desde criança pelo seu pai violento e obsessivo, que o forçada a horas intermináveis de treinos, quando as outras crianças estavam brincando ou estudando. Para se ter uma ideia do que foi o pai dele, foi forçado a tomar anfetaminas para melhorar o desempenho quando era apenas um garoto.

A influência negativa do pai impactou por toda sua vida. Agassi lutou contra ela o quanto pode, e das maneiras mais distintas: além de detestar o esporte que definiu sua trajetória, sempre conviveu com a autodestruição e autossabotagem, como que tentando mostrar para si e para os outros que aquele não era ele. Envolveu-se com drogas; perdeu partidas de propósito ou sabendo que iria perder, até desejando perder; certa vez quebrou todos os seus troféus e, em outra, deu suas raquetes para mendigos, dizendo que nunca mais jogaria tênis. Fisicamente, novamente as contradições: apesar de um problema congênito nas costas que lhe causava dores incríveis, foi conhecido como um dos jogadores com a melhor movimentação de fundo de quadra do circuito.

A busca pelo auto-conhecimento permeia toda a sua história, a partir da primeira frase no livro: “abro os olhos e não sei onde estou, nem quem sou. Isso Não é nenhuma novidade, pois passei metade da minha vida sem saber”. Não é o tipo de frase inicial que se espera na biografia de um dos esportistas de maior sucesso da história, mas passa logo de cara a mensagem: não espere (somente) o relato sucessivo de conquistas e lembranças boas e ruins, mas principalmente a tentativa de alguém que, a despeito do sucesso crescente, não sabia ao certo o que estava fazendo ali, se tudo aquilo de fato lhe pertencia ou era ele. Apenas desconfiava que não, que era uma fraude, uma farsa que assinava embaixo. Alguém que, aos olhos do mundo, era um prodígio, um sucesso, mas que, de noite, no escuro, com a cabeça no travesseiro, queria simplesmente largar tudo e ir embora, fazer alguma coisa diferente, sem saber o que.

Com o tempo, Agassi começa a aceitar as contradições como parte de sua  pessoa, sem tentar lutar contra elas. Aceita que quer jogar tudo para o alto mas, ao mesmo tempo, não está preparado para isso. Aceita que tem o instinto assassino, mas por vezes tudo o que quer é perder o jogo e ir embora. Aceita que, apesar de todo o sucesso e todo o dinheiro, continua não tendo todas as respostas – talvez tenha até mais perguntas do que respostas.

Em certo momento, ao falar do pai que, além de violento não demonstrava qualquer tipo de empatia e compaixão, sendo completamente obcecado pelo tênis, ele diz algo como “poucos de nós têm a graça do auto-conhecimento e, até que isso aconteça, talvez o melhor seja sermos consistentes”. A consistência é, assim, uma auto-defesa, uma maneira de não ter de lidar com as contradições, com as ideias opostas habitando o mesmo cérebro, cada uma puxando para um lado. Alguém disse (Einstein?) que gênio é aquele que consegue lidar com duas ideias opostas e ainda assim manter a sanidade.

Ao final, Agassi se rende a sua personalidade contraditória, usando uma citação que sempre gostei muito – aliás, à medida que fui lendo o livro, a lembrança dessa citação me foi crescendo, até que no final, a encontrei: “Eu me contradigo? Muito bem, então eu me contradigo”- Walt Whitman.

O livro, como se percebe, não é apenas destinado a fãs do tênis, ainda que estes certamente terão enorme prazer em lembrar de jogos e torneios memoráveis, agora sob a visão de um dos protagonistas. Há passagens engraçadas, como o dia em que Agassi e sua equipe viram um cara desengonçado jogar um tênis horrível, dizendo entre si que esse jogador não teria a menor chance no circuito profissional – esse jogador viria a ser…Pete Sampras, seu maior rival e um dos maiores de todos os tempos.  O livro prende do começo ao fim e o capítulo final é simplesmente grandioso, um verdadeiro match point.

Há, acima de tudo, um processo generoso de franqueza, parte da jornada de auto-conhecimento que Agassi decidiu dividir com o mundo, a começar pela capa (e pelo título original), em que seu rosto nu, sem expressão, ocupa a totalidade.

Não sei porque exatamente esse livro me impactou tanto (ou talvez , no fundo, saiba): nunca fui esportista de elite, muito menos famoso, não vejo graça alguma em Las Vegas (de onde ele é e onde mora até hoje com sua segunda esposa, a super-tenista Stefanie Graf e dois filhos) e nem cheguei perto de me casar com a Brooke Shields.

Sei apenas que foi criada uma conexão; ou, quem sabe, essa conexão sempre existira – a explicação para que eu tenha guardado na memória, sem qualquer razão aparente, aquela distante vitória inicial em Itaparica. Era como se, por algum motivo desconhecido, eu tivesse instintivamente captado, em meio ao caos de informações sem importância que, naquele momento, algo relevante estava começando a acontecer.


Respostas

  1. Marcelo, antes de mais nada, desejo que 2011 seja um ano especialmente bom para você.
    Sinceramente, as vezes vejo o tema dos seus textos e penso que nao vai me interessar aquele assunto ou, então, estou ocupadíssima e penso em ler apenas algumas linhas por curiosidade. Mas acabo sempre lendo até a última frase sem piscar e já descobri que jamais haverá tema que você não possa expor de forma simples, elegante e sincera.Isso acaba fascinando a gente. Parabéns!

  2. tenho um problema com biografias, porque geralmente gosto das histórias dos anti-heróis, dos perturbados (claro, adorei “O anjo pornográfico”), dos incoerentes. e então esta biografia me deixou curiosa. o título em inglês, claro, perde muito de sua força na “tradução”.

    mas o que mais me pega neste teu texto é o início, a questão de escrever no blog. faz tempo que meus textos escassearam de tal forma, que nem acho que ainda tenha mesmo um blog. e percebo que é por vontade de não me expor, embora eu ache mil justificativas outras. será que é uma bacteriazinha passageira? :D

    • Marcia,

      Essa é uma biografia meio nesse estilo. É um cara que foi dando certo aos olhos do mundo, mas internamente, não. Com o tempo, ele vai se acertando, e isso é legal no livro. A tradução é bem feita. Agora, é tudo muito pessoal, o impacto que causa em um não necessariamente é igual nos outros. Claro que existem biografias melhores, mas diria que essa, para mim, foi a que mais impactou.

      Sobre a segunda parte…acho que tem a ver com exposição, ou com outras prioridades que passam a fazer parte da nossa vida. No meu caso, o blog teve início em um momento pessoal conturbado, e representou uma tentativa de renascimento, foi um processo de expurgar os sentimentos represados. De repente, o processo se completou, ou apodreceu, sei lá…:)

      Mas tenho vontade de, de alguma maneira, retomar, pelo prazer da estética, de produzir algo que eu ache legal. Vamos ver!

  3. Como vai Marcelo? Eu também acredito muito que as vezes invertemos algumas prioridades em nossas vidas e que sem dúvidas mais a frente nos deparamos novamente com as mesmas.
    Quanto ao Agassi eu vejo o quanto ele lutou internamente contra os instintos e suas reais vontades e teve que aprender a conviver com ambas.
    Realmente os momentos conturbados nos faz renascer: As tribulações nos ensina a ter paciência, a paciência aumenta a nossa experiência e a experiência nos leva a ter esperança.

    Feliz 2011 Marcelo e grande abraço!

  4. Bom dia caro,

    eu já visito o seu blog à bastante tempo e decidi fazer-lhe um pedido. Que coloca-se o meu link no seu blog. Acho interessante a maneira como escreve…
    Abraços
    http://vinho-umritmodevida.blogspot.com/

  5. Excelente texto. Sou de 88 cresci dentro das quadras de tênis, meu tio era e ainda é prof° de tênis… via no canal manchete os jogos do Agassi, sempre com aquele estilo cativante… Bons tempos!
    Marcelo criei uma fan page no facebook: https://www.facebook.com/pages/Agassi-Autobiografia/228941207152348
    se quiser ser administrador da página só me falar!
    https://www.facebook.com/GilvandeCastro


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